Cicatrizes

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Nestes dias em que tudo o que quero é morrer, surge esse cão em casa dos meus avós que me deixa apaixonada. Samoieda, cães grandes, como eu gosto. O Freddie tem 6 anos. Parece uma grande ovelha. Tem o focinho arranhado, vê-se a carne junto ao nariz. A orelha esquerda está caída. Tem várias feridas ao longo do corpo. Os antigos donos fartaram-se dele. Uns vizinhos dos meus avós, lá da terra, tinham-no abrigado e davam-lhe de comer. Por vezes, ele fugia e só o viam muito depois. Ofereceram-no aos meus avós. E aqui está ele, agora. Quis voltar da cidade dos estudantes para casa no dia em que o trouxeram. Hoje, demos-lhe banho. Está escovado, asseado, mas o pêlo ainda não adquiriu o tom original branco. As crostas das feridas saíram no banho e ele começou a sangrar por demasiados lados. Está cheio de pulgas. Há que o levar ao veterinário. Agora, eu, com os braços cortados, quando só me apetece morrer, com ataques de ansiedade e de pânico dia sim, dia não. Eu, que assim que chego à terra roubo os medicamentos da minha mãe. Aparece-me o Freddie e eu não lhe resisto. O Freddie é um cão grande que só ladra quando precisa de ladrar. Eu gosto de cães grandes, não gosto nada dos pequenos. O Freddie enternece-me. Adoro fazer-lhe festas, correr para ele e abraçá-lo. Adoro dar-lhe beijinhos. Adoro quando ele me deixa lambuzada. Quero morrer, mas também quero o Freddie. O Freddie é óptima companhia. É um bom amigo. Agora que a Pantera desapareceu, há já mais de um ano, eu preciso de alguém. A Joanna desapareceu, o Yuri está longe. Não vou mentir a ninguém, não vou mentir a mim mesma. Não tenho mais amigos. Tenho o André, mas não posso falar com ele como falava com a Jo ou com o Yuri. E ele não me pode fazer companhia como a Pantera ou o Freddie. Estou a pensar voltar ao psiquiatra, à psicóloga. Quero curar-me, definitivamente. Voltei a ler. Escrevo, de vez em quando. Estou a escrever para o NaNoWriMo, mas muito pouco. Adoro as minhas colegas de casa, mas estou a ir-me a baixo, injustificadamente. Quero estar sempre onde não estou. Em casa, quero estar em Coimbra. Em Coimbra, quero estar em casa. Na praia, quero estar bem longe dali. Quero dormir o tempo todo. Para não pensar nas promessas de nunca mais me magoar. Para não pensar na vontade infinita e assoladora de parar já. Para não pensar que não há sentido em continuar. Tenho o Freddie e o Freddie vai morrer em breve, sabe-se lá quando. A mamã diz que estou a ficar como a minha prima e é quase verdade. Sabe-se lá se não é verdade mesmo - só que de maneiras diferentes. Sabe-se lá porque sou tão parva.
Sinto que me cortam as pernas cada vez que quero viver os meus sonhos com alguém. Não é que não o possa fazer sozinha. Mas quero muito mais partilhada. Quero entardeceres de outono com o Freddie.

Rapaz da bicicleta I

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Há um banco de jardim, velho, inclinado, junto à ponte. A bicicleta não cai do braço, no rio já é pouca a água, não é só de ser verão, também o rio se cansa, também o rio se morre. No início, há apenas espaço vazio. Então, começa ele, aquilo das mães é verdade. E muito ficou por dizer. Acha-las monstros, todas. Todas não, há sempre quem fuja à regra, mas nem tudo que não seja premeditado é desculpável. És muito dura para com ela, odeia-la. Não, amo-a, só que também não lhe perdoo. Devias aprender. Não. Ficam segundos em calma. Foi uma infância difícil. E que infância não é, se perguntas se me batiam, se me faziam trabalhar, se não me davam amor, se passei fome, se passei frio, se tive traumas, a tudo responderia não. Então. Esquecemos facilmente do quão difícil é ser criança, é tão fácil chorar, é tão fácil ter medo do absurdo, é tão fácil recear, a crueldade inocente dos adultos. Não achas que seja a altura em que somos mais felizes. Nunca somos, apenas achamos que sim, porque logo o esquecemos, aliás, o próprio conceito de felicidade é absurdo. Explica-te, por favor. Não sei, ao certo, no fundo felicidade é um estado tão inalcançável quanto a perfeição. Ninguém é perfeito. Ou ninguém perdoa as faltas dos outros mas desculpa, inevitavelmente, todas as suas. Já o pôs a sorrir com o trocadilho. Suponho que sim. Não seria tão radical quanto tu, não quer dizer que a perfeição exista, apenas que é efémera, se é que sabemos realmente o que é, é um estado, um momento, cristalino, onde tudo existe em harmonia e que se quebra no segundo seguinte. E aplicas o mesmo à felicidade. Essa contradiz-se a si própria, sabes, por intuição deve estar interligada com a perfeição, a tua satisfação pessoal depende do grau de perfeição do momento. Hum, estou a seguir. E a felicidade teria uma resposta mais ou menos positiva, como um riso, não. Acho que sim. Então pensa num momento verdadeiramente perfeito, que sintas toda essa harmonia cristalina, por mais curto que seja. Imagino. Consegues rir. Rir. Sentes-te mais inclinado às gargalhadas ou às lágrimas. Agora que falas nisso. Ou seja, a felicidade exclui-se a si própria. Ou a perfeição não seja felicidade. Consegues dizê-lo sinceramente. Não sei, tenho de pensar, mas não tem de ser a única fonte. Dá exemplos. Alcançar algo que se deseja, talvez, aquela alegria. Que parece durar para sempre. Sim. Mas nunca dura, nunca é permanente. Podes ter tudo quanto queiras. E nunca ser feliz. Desejar não alimenta a felicidade, mas a vontade de viver. Então, que sentiste quando eu parei a bicicleta e vim falar contigo. Incredulidade. Só. Bom, pelo meu raciocínio, vontade de viver. E felicidade. Talvez, um pequeno esgar. Como um momento perfeito. Só em sonhos imaginado. Mas desejado. Sim. E não te apeteceu sorrir, por dentro. Não. Não me mintas. Agora que penso nisso, os sorrisos só vêm depois, naquele momento é só aquilo. Lágrimas. Por dentro, como dizes. De alegria. De felicidade. Não é o mesmo. Não. Então que é alegria. Pensar que te vou ver amanhã.

Livro do Inferno - As Cores

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As cores.
Misturam-se, fundem-se, confundidas em manchas difusas, de castanho, de breu, de vermelho, talvez de verde muito, muito morto. Das paredes agrestes, do chão rude. Ela vai, enquanto caminham as pessoas. Esses espectros magoam de os olhar. Fantasmas não falam, não murmuram, talvez rumurejem para si mesmos, sem, porém, se darem. Ela vai, em passos, olhando em volta. Eles assomam à janela, medonhos, caras sem cara, secas, apenas para regressar ao interior. Sabem-se os próprios passos, só ela não sabe os que lhe pertencem.
A fome rói-lhe as entranhas. Comida a há. Suspiros abatidos aos cantos, dos que devoram o bife do prato. Os ovos enfrascados, remexidos até ao sumo. Não é que falte a comida, falta-lhe a ela.
Passos dos que sabem para onde têm de ir, não ela. Olha em volta, procurando recordar-se de algo que lhe remói a mente de há muito, muito tempo, sem saber o que é. As Galerias têm escuro apesar da luz. Têm calor, apesar do néon e da infinidade. Os corredores começam, acabam, terminam, desbocam em salões de figuras e silhuetas. As figuras são pessoas. As silhuetas são coisas.
A fome que a domina, os dentes que apodrecem.
Algures num canto há-de haver comida.
E por que não aventurar-se por outro corredor escuro, se todos são iguais e em todos há fantasmas.
Uma porta. Outra. Uma perante outra. Há que decidir-se. Pelo círculo ou pelo triângulo. De qualquer modo, são os dois o mesmo. Acaba onde começa. Matematicamente, perfeitos. Há que decidir entre um ou outro. Escolhe a porta à direita. Um bafo nauseabundo vem a seu encontro no momento em que se esvai pela curta fresta que delimita a porta e o limiar. O interior - ou exterior, da perspectiva dependendo - arde como as entranhas da própria terra: e instantâneamente ela compreende que ali não há comida. Talvez na porta à esquerda. De um passo atrás, puxa a maçaneta: e um cheiro semelhante, um vapor da mesma textura, sombras da mesma consistência vêm a seu encontro. Como portas paralelas darem para o mesmo simétrico mundo.
Já não se lembra porque aqui veio, aqui, ao mundo. Não se lembra de nascer, como se, desde todo o sempre, houvesse vivido nas galerias. Mas tem os dentes podres, pelo que se decide a uma das portas. Dos tubos exala o fumo, do chão, das paredes. Bacias marmóreas, donde escorre água. Passa-lhe as mãos. Em frente, um espelho; creme para os dentes. A água ferve. Enche os dentes em creme. Tem de se lavar nos lavabos públicos, porque não tem mais onde ir. Enconcha as mãos e recolhe líquido à boca. Espera e deita fora. As bacias, mármore; o chão, mámore; o branco, verde, em lodo. Regressará. Mas não ali, pois lavabos os há em cada corredor escuro. Não sabe como o sabe, mas sabe. Está certa da sua própria verdade.
Por agora, retirar-se-à, com a cadência da névoa ardente.

Livro do Inferno - Morte da Morte

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Mar haveria... mar...
Porém, costa aquela de um imenso, imerso, infinito corredor. Outras dessas colossais Galerias sem nome. Mar onde? Mar o quê? Mar, seco, agora, só palavra desidratada. Mar: muito, grande quantidade. Mar de calor, mar de corredores interligados, cavernas artificiais, forjadas na pedra. Como tantas palavras mortas, mar. Mortas, céu.
Céu: tecto, luz. Abóbada sem fim, pululada de luzes a todo o comprimento. Toda a extensão de galerias, corredores, céu, e céu tecto e céu luzes. Palavra morta, como tantas.
Mas não há palavra mais mora: que morte, morrer: morto.
Falar.
Falar também lhe parece morto, enquanto atravessa, em passo lento, as galerias infinitas. Pessoas, como fantasmas. Só.
Memória.
Não é que se esqueça das coisas, mas não há nada para recordar. Galerias, luzes, néon, corredores, fantasmas. Caminhar. Saber onde está: não sabe. Saber quem é: não sabe. E, depois, ecoam-lhe estas palavras soltas na memória, mar, céu, morte, outras, mas ela não se consegue lembrar do que significam, a que sabem. Sentir, nada. Sonhar, dormir, nada. Tudo confusão, como que um vidro sujo ou embaciado, que deixou ver e já não deixa. Comer. Tem fome.

Desde que se lembra, tem fome. Desde que se lembra, nunca comeu.
Decerto se lembraria se tivesse comido. Sim, de certeza. Talvez…

O Livro do Inferno - O Pobre Diabo

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As escarpas abriam numa clareira circular. O céu sangrava todo o vermelho. Do outro lado, uma caverna negra, com o fim a cair de vista, como uma grande boca de um peixe emergente, colossal.
Sentado, resguardando a entrada, uma aterradora figura, de olhos atentos, postos nela. Sentiu-se a paralisar. Talvez devesse voltar atrás, mas nem ao menos era capaz de pensar. Nenhum músculo respondia. O ar tinha fugido. O coração não parava, magoava como facas cravadas no peito.
Quis acordar. Aquele pesadelo macabro tinha de terminar. Oh, mas, para seu terror, sabia-se bem consciente. Nada podia ser mais real. Tomou coragem. A jornada fora imensa, não podia deixar-se naquele impasse, pois a besta não parecia fazer nada, limitando-se a observar. Engoliu em seco.
Um primeiro passo em frente.
Diabo seja! - berrou a criatura, fazendo-a saltar em sobressalto. Que raio és tu?
Permaneceu sem articular palavra.
Não esperava que um som minimamente humano saísse das entranhas de tão inconcebível ser. Os olhos que a fitavam, agora, carregados de inquisições.
A medo, começou.
Eu vim até aqui. Para vir morrer, pensou. Para vir morrer, disse em murmúrio.
O quê? replicou a criatura. Tens de dizer isso mais alto, porra!
Ela fez-se repetir, um pouco mais audível. Ele respondeu com cara de troça.
Anda até aqui, chamou-a com o braço. Que não entendo um corno do que dizes!
A medo, cautelosamente, avançou. Avançou até olhar, nos olhos, a besta. Foi então que reparou que este era mais baixo que ela.
Desembucha de lá.
Vim para morrer.
O medonhinho franziu o olhar.
Argh! Bah.
Lançou-lhe um esgar de nojo.
Mas será que ninguém me deixa em paz? Primeiro lá de dentro, agora do raio daqui de fora!
Ela estranhou-lhe a linguagem. Sim, era grosseiro.
De onde já se viu um ser divino tão grosseiro. Apontou-lhe a boca de baleia encovada.
Sabes que é aquilo?
O inferno?, perguntou-se, em voz alta.
A besta deu pequenos passos, de um lado para o outro.
Inferno, purgatório, submundo, o que lhe quiseres chamar. É terra de ninguém, to garanto. Quem morre, é para ali que vai. Naturalmente, põe alguém de guarda, porque aqueles danados querem voltar à vida. Onde já se viu isto? É o Diabo, o Bicho, o bobo da corte, a troça de todos que se escolhe. Estou cá, desde sempre, impedindo os tolos de voltar. Vivos e mortos no mesmo mundo! Separo-os aqui. E agora chegas-me tu, a quereres entrar. Saem uns, entram outros. Lotação esgotada, aguarde, por favor! Bah. Ao menos aqui nem há música. Aqui estou eu, para todos rirem. Do cornudo, sem maneiras.
Dizem as lendas que o Diabo é maldoso. Que causa o mal no mundo.
O mal? Já não basta ser porteiro, agora sou o mal? Achas que sou segurança de lá de baixo? Achas que não te vou deixar entrar? Qual quê! Todos os vivos seguros, comigo aqui. Protejo este mundo, assim é que é! Sem mim, eram almas penadas a vingar por todo o lado. E só espaço para essa gente toda? Ali em baixo há todo o espaço que possas imaginar! Aqui não, já mal podemos connosco, olha o que iria ser do mundo sem mim!
Dizem os mitos que o Diabo é o imperador dos Infernos, o supremo soberano.
O quê?
E isto di-lo com voz de grande espanto. Depois, contorce-se para trás numa gargalhada, meia risada, meia grunhida.
Tanta fama! Proveito, qu'é dele? Mas digo-te uma coisa. Poucas vezes estive ali abaixo e não guardo saudades. Ser rei naquilo não era reinar, era ser escravo! Lá em baixo estão todos mortos. Ah ah, eu rei! Bem bom, talvez pudesse ter descanso. Em vez de porteiro do casebre fúnebre.
Faz uma pausa para a olhar, de cima a baixo. Franze as sobrancelhas.
Com que então queres morrer, hum?
Assente. Sim, senhor.
E como descobriste o caminho para aqui?
Um mapa, responde ela. Um mapa, num anúncio de jornal. Folheio o jornal e ali está. Como morrer em cinco passos, Guia para a travessia do Vale dos Infernos.
Os tempos, Diabo!, os tempos! Já não me bastam os que passam a morte a querer viver, agora terei filinha a compasso de espera, todos para falar com o Diabo!, entrevistas com o Diabo!, 24 horas na vida do Diabo!, fora os parvalhões que não querem viver. Não o sabias ter feito com um veneno ou uma corda, como antigamente?
Ela desvia o olhar. Não quero deixar vestígios de mim. Não quero que nada fique para trás, nenhuma prova, nenhum corpo. Quero ser uma vaga memória na mente daqueles com que me cruzei. Parou para respirar. Quero que elas se perguntem se eu existi realmente ou fui apenas sonho ou imaginação, até que me esqueçam.
Tá bom, 'tá bom, já percebi, não digas mais nada. Sabes, deixa-me curioso esse artigo de jornal
Anúncio, interrompe ela.
Anúncio, pronto. Intriga-me, porque és a primeira da eternidade a aparecer aqui.
Agora, a nossa personagem vai ser um pouco maldosa para com o diabo e dizer-lhe algumas palavras de mau gosto. Nós, alheios, vamos ouvir, tentando compreender. Eles os dois entendem-se, isso é que interessa para a história, mas nós, aqui deste lado de fora, podemos ficar algo confusos. Aí ficam as palavras, de mau tom, que de mau tom só o sei serem, porque o Diabo se ressente e responde algo que não responderia a todos, ela diz
Por certo a sua mulher, ele responde com um olhar de poucos amigos, algo desconcentrado, e com o fraseado,
Cautela miúda, só se entra uma vez, dali não se sai, se a Morte é certa, porque não esperar?
Esperando, já há muito, responde-lhe assim: Porquê esperar?

Não há nada de bom lá em baixo.

Só vim para morrer.

Não encontras mais portas aqui. Só guardo para fora.
A entrada da caverna parece coberta com um véu negro, onde nem os vislumbres da vermelhidão do céu chegam. Talvez se devesse despedir, mas não sabe de quem nem do quê. Do Diabo, da clareira morta?
Só vim para morrer. Debruça-se nas portas do inferno, perante toda a escuridão. Só vim para morrer, ou assim espera que seja.

O Livro do Inferno - Nos Portões do Inferno

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Um segredo. Montas, altas, como ondas. Precipícios cor de uma laranja sangrenta. Um segredo, esse que caminha por entre os escombros. Sabemos e vemos, dando passos inseguros. Estacando, por vezes. Hesitante, outras. Confiante quando apressa. É um cabelo escuro. Ela está pronta, mas nem sempre avança. Tem arrepios. A certeza não consegue esfumar o medo. Um segredo. Ali, não há quem a detenha.
Tenho-te em passo passadiço, no passeio enfadonhado dos negados ao mundo. Já esperas a morte atrás de cada escarpa. Um vulto esquelético, um sorriso que não sorri. Esperas frio. Tenho-te ao meu ritmo, passo após passo. Esperas dor. Doença. Crueldade.
Não se apercebe da caminhada, por vezes, absorvida nos próprios pensamentos. O céu torna-se um vermelho cada vez mais vivo. Como se o sol se estivesse a pôr e a noite não mais chegasse. Não há plantas. Nem o mero vestígio de verde. Um tímido musgo, um feto. As escarpas ladeiam o desfiladeiro. Sem pedras. Sem imperfeições. Não pode ver para lá dos desvios.
Aqueles caminhos, pensa, são cruelmente labirínticos. Agarra-se com força ao papel, cheio de vincos, amachucado, que traz consigo desde ainda antes dos Jardins desérticos que atravessa.
Da vida injusta. Cruel.
Caminha ao fim, sem saber quando o fim irá chegar. Caminha ao sabor de si mesma, aterrada. Sabe bem porquê. Sabe que não há meia volta a dar. Todos os passos são em frente, os dela dados, os dela pensados. Inclinam-se as encostas, em seu redor, ora vira à esquerda, ora à direita, sem vislumbrar desfecho a tanta perambulação.
Tenho-te em minha lei e, apesar disso, no caminho certo. Irás chegar onde tens de chegar, confio-te essa conversa. Passeia-te, frágil, com os teus receios. Falta menos de nada.
Os Portões estão ao virar da esquina.
Sim, a escrita gasta não mente. As letras impressas indicam-lhe o passeio, guiando-lhe os passos. Sim, já está na última linha, as palavras ditam-lhe para continuar. Está no fim.
Perante si, a figura escura, que tanto receava.

Mundo de todos iguais (humildade zero)

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Quase nos queimam vivos se damos a nossa pouco humilde mas sincera opinião. Frequentemente me dizem: "Já imaginaste o que seria do mundo se fossemos todos iguais?". Na verdade, somos todos praticamente iguais - aliás, alguém que apareça diferente é rapidamente alienado. Os mecanismos de tortura social são activados. Imagino um mundo de pessoas todas iguais: e vejo cidades repletas de arranha-céus, vejo salas e cozinhas e quartos e casas de banho, vejo as famílias reunidas no sofá, à televisão. Por isso, dando uma outra volta à questão: imagino que já o seja. Não faço parte desse mundo precisamente por ser diferente. A entrada é-me vedada. Um mundo repleto de pessoas que aguardam as instruções: programas na televisão para verem, revistas de moda que lhes dizem que vestir, prateleiras de hipermercados que decidem o que hão-de comer, estações de rádio que ditam as músicas que se devem ouvir - e estaríamos, ainda, no princípio desta lista de instruções, do manual de viver e conviver. Se fossem pessoas como tu, o cenário seria ainda mais cruel que a realidade.

Porém, se, acaso, fossem todos como eu. Vejo um mundo como uma espécie de paraíso. Vejo músicos e cientistas, físicos, engenheiros, matemáticos, violinistas, pintores, escritores, pensadores. Vejo-nos a criar algo livre de preconceitos. Vejo-nos a construir algo com gosto. Vejo a cultura a ser mais que meros massivos: a crescer, evoluir, edificar, grandiosa, construtiva, humana. Homens que beijam mulheres que beijam mulheres que beijam homens que beijam homens. Vejo amor, bondade, criatividade. O modo sublime como eclipsar-se-iam todos os defeitos: qual truque de magia!

Pseudo-grito-por-ajuda (ficção #2)

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Já escrevi tantas cartas de suicídio que lhes perdi a conta. Desta vez, porém, não vou cair na hipocrisia de desculpar toda a gente. Não vou dizer à minha mãe que a culpa não é dela. Oh, sim, porque a culpa é tua, mãe. É tua, pai. Avós, primos, tios, de toda a família. A culpa é dos caixas de supermercado e dos fabricantes de rolhas. Das apresentadoras de programas de entretenimento familiar, das actrizes das novelas rascas da televisão. Dos catálogos da LaRedoute, das músicas sem música que passam na rádio, dos exames nacionais, dos médicos, dos relojoeiros, dos banqueiros, dos romances baratos, dos feridos de guerra, das empregadas de limpeza. A culpa é dos técnicos de manutenção de piscinas. De quem nos faz uma geração mais estúpida, a cada dia. Das gerações anteriores, por terem tantos problemazinhos. Dos padres, dos polícias, dos encenadores. Das faculdades.

Já escrevi tantas destas que me sinto afogada. Tantas vezes voltei atrás, por remorsos. Pedi desculpas, absolvi-vos do crime.

Aos modelos de perfeição dirijo esta responsabilidade. Como nos tapam os olhos. Compremos mais. Tenhamos tudo. O mundo. Sejamos felizes. Aos modelos atribuo tudo. Ao medo da dor e da morte. E como nos tentam proteger da realidade com sorrisinhos de plástico, como tudo o que existe, atrás das câmaras. Sejamos lindos. A culpa é das preocupações fúteis em manter as unhas arranjadas, simétricas, com o verniz delineado. Dos cremes para a pele brilhante e hidratada, dos anúncios que o proclamam como essencial, como qualidade de vida.

Estou farta do receio da morte. Do prolongamento da vida, para podermos apodrecer, cada vez mais sozinhos, cada vez menos capazes, cada vez mais dependentes, ao apodrecer do mundo. De anúncios, até nos noticiários, em quanto vai o jackpot do Euromilhões? Farta do que nos ensinam na escola, com professores frustrados, para depois aprendermos a fazer uma porcaria qualquer na universidade, para nos atirarem à cara que não existiam tais comodidades nos anos que passaram, para arranjarmos um emprego, para chegarmos a casa, ao fim do dia, cansados e fartos. Para aprendermos a ser professores frustrados ou incompetentes de outra área qualquer. Para o ponto alto da nossa vida ser jantar à frente da televisão, cada dia. Para o ponto alto da nossa vida ser o fim de semana, quando não sabemos o que fazer com tanto tempo livre, acabando por não fazer nada e chegar ao fim, achando que passou tão depressa. Vamos criar filhos, como quem cria ilusões e desilusões. Estou farta de Natais sem significado, de Páscoas celebradas como dias importantes - ainda se fossem! - de vizinhos e falsas amizades, falsos sorrisos, peúgas compradas à pressa para aniversário, para demonstrar o quanto gostamos uns dos outros.

À minha mãe, por querer de mim a perfeição que eu não quero. Por querer o melhor para mim que não quero. Por esperar que viva para sempre. Por ver em mim quem não sou. Por me amar, incondicionalmente, quando preciso de ser amada pela pessoa que sou.

Não quero ser escrava de uma sociedade. Não quero ter medo. Não quero seguir modelos. Quero ser livre de um modo como nunca fui. Não ter nada, porque chegamos a este mundo sem nada. Só depois nos impõem uma família, um lar, uma vida. Quero cortar laços e não amar ninguém. Não quero ser especial. Não quero andar bem vestida, não quero ter cabelo bem cortado, não quero saber das feridas, dos hematomas, das cicatrizes. Não quero esconder.

Ao viver, sinto-me um bocado como a minha vizinha. Vou contar-vos da minha vizinha, para o caso de não saberem. Ela acorda, trata das tarefas domésticas. Depois, senta-se todo o santo dia no baloiço da varanda e fica a ver as pessoas que passam e a falar com elas. Trata das flores, por vezes vai dar umas voltas. Para passar nos mesmos sítios e ver as mesmas pessoas. Por vezes, vai até países estrangeiros. Para ver coisas diferentes, numa espécie de orgia mental.

Um dia, essa senhora vai morrer e vai para debaixo de terra. E rapidamente será esquecida. Basta a extinção desta geração. Esquecer pessoas mortas é muito fácil.

Ao viver, sinto-me num baloiço de varanda. É verdade que o mundo se vai modificando e transformando, mas vejo-o como o passar dos dias, no calendário. No final, é tudo tão insignificante.

Poderia partir em busca de mim mesma, mas não acredito que haja nada. Quanto mais nos procuramos, mais infelicidade encontramos. Quanto mais verdadeiros a nós mesmos, menos há que seguir.

Renunciar à vida é o meu último acto de fidelidade a mim mesma. Despedaçar o corpo que me foi dado. Roubar-lhe toda a beleza, abandoná-lo. Sem música, filmes, livros, sem mais nada mas eu, seguir na última aventura.

Bem hajam, odeio-vos.

Dizer-te (ficção)

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Tu devias ter morrido nos meus braços. E não longe, no voo de um sexto andar de uma cidade distante.
Lembras-te de quando ficámos sozinhas no museu e passámos lá a noite? Quantas pessoas passaram a noite fechadas num museu? E não estávamos sozinhas: eu tinha-te a ti e tu tinhas-me a mim.
Tu devias ter caído a meus braços e não no asfalto duro ou na calçada suja.
Como naquele dia na praia, de mãos dadas, o mar rugindo, de mãos dadas, tu querias as ondas, eu queria beijar-te, querias que o mar te engolisse, queria salvar-te.
Tu devias ter esperado por mim. Mas não esperaste.
E assim vejo, a amiga que fui. Deste-me tudo que numa amizade tão forte poderia querer. Deste-me mais do que imaginei ser possível no mundo. E eu, que te dei de volta.
Devias saber que eu te amava. Deves, tens de saber que te amo.
Eu fui miserável para ti, mas amei-te sempre.
Tu sabias, certamente sabias. Pelo modo como te abracei, no meio de toda a gente. Pelo modo como te dei o meu casaco para não teres frio.
Tu devias ter-me dito. Porque tu sabes que eu compreenderia. Sem sentir o que sentias, sem ter passado o que passaste. Sabes que compreenderia.
E então eu haveria de apanhar o último autocarro e de correr, de subir as escadas a correr, para um último abraço, para um último beijo, um último olhar, um último sorriso. Dizer-te, amo-te, serás sempre a minha melhor amiga.
Por fim, deixar-te-ia ir, sem me veres chorar. Haveria de correr escadas abaixo, haveria de me deitar a teu lado, no chão, no teu sangue e chorar o teu crânio quebrado. Haveria de te abraçar e não querer largar, quando as ambulâncias chegassem. Haveria de sentir o teu corpo, rígido, frio.
Tu devias ter morrido nos meus braços. Deveriam ter-me levado numa confusão, já quase nem pessoa, a casa, deveriam ter falado com os meus pais. Quando as pessoas me vissem, desconfiariam sempre de mim. Porque não fiz nada, perguntar-se-iam. E eu deveria ser levada a casa com o teu caderno no bolso. E andar sempre com ele, como um guia e uma mensagem: tu amas-me e eu sou a tua melhor amiga.
Seria tudo diferente. Mas agora seria mais forte. E não teria deixado nada por dizer.
Amo-te.
Serás sempre a minha melhor amiga.

Conto a uma escritora

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Contar a história do que realmente aconteceu. Não houve escândalo, foi tudo o mais discreto possível, de qualquer modo, estava no início. Tu escreves bem, dissera-lhe a amiga. Os outros colegas leram e gostaram, alguns. Outros não, mas fizeram-se de fingidos, também passaram. Eventualmente, as páginas chegaram às mãos da professora de português. Tu escreves bem, e acrescentou-lhe agora a outra ladainha, porque não tentas publicar? Ela não ia dizer que não em frente a uma professora, baixou os olhos e corou, uma resposta tímida de agradecimento, mas sem sentido. Uma editora de segunda aceitou logo, claro, quem não aceita meia dúzia de trocos, seja pelo que for? Assim se viu saído o primeiro livro, também ele de olhos baixos, tímido, lá ao canto das prateleiras, sempre só. Sempre teve alguma saída, porque o que vai de boca em boca alguma coisa há-de levar, tantos aqueles que o compram e nem o chegam a ler, mas isso a ela nem lhe interessa, até fica feliz, continua a não dar pelo nome que se deu na capa, que raio disso é nome, claro que fica mais bonito ter um volume grosso nas mãos do que páginas perdidas rabiscadas a esferográfica ou tinta permanente, mas continua, lá dentro, uma pesada angústia a revolver-lhe as entranhas. No jantar, sagrado, dos domingos, reunia-se toda a família, eram os tios mais velhos, os primos quase licenciados, já formados na bebedeira, os tios mais novos e os primos de fraldas, que ainda não entendiam uma palavra que fosse dita, o avô na poltrona ao canto da cozinha, coisa mais estranha, uma poltrona em plena cozinha, enfim, os hábitos tomaram-se assim quando foi tempo de nos habituar, hoje se alguém tirasse a dita poltrona da cozinha, então sim, todos estranhariam, de não ver a poltrona, de não ver o avô, que é certo que o avô está onde estiver a poltrona, fumando cachimbo, que decerto estará onde o avô estiver, depois a avó que diz que o avô se casou com ela por gostar tanto da poltrona, mas depois também cora, porque recorda tudo o que já se passou naqueles almofadões e encosto acolchoado, numa cadeira tão grande dá para fazer muita coisa, que raio de pensamentos agora foi ter, anda de um lado para o outro, fingindo-se atarefada, é o modo, enfim, que tem de abafar os suspiros da nostalgia, tempos que foram há muito e não hão-de repetir-se nunca mais. Naquela cozinha, àquela mesa, onde cada vez mais são os pratos e os lugares e as pessoas, onde a cadeira de bebé nunca se chega a tirar, não porque o bebé não cresça, mas porque, dado o pulo, já lá vem outro, é o mal das famílias numerosas - mal ou bem, depende de cada um, para esta nossa tímida menina é mal, lá terá os seus motivos para não gostar da vida parida aos seus pés, naquela atmosfera sente-se a tensão, o orgulho, a senhora escritora, com dezassete anos apenas já tem um livro editado que está a ser um sucesso!, e já todos, bebés inclusive, têm um exemplar, mas, pois, os bebés não o lerão já, é para quando um dia compreenderem, aliás, ninguém admite, mas ninguém leu, ainda. Quando alguém tem um daqueles livros de capa laranja suave, letras castanhas e finas, nas mãos, dá-se-lhe um aperto, só de os ver, como se tivessem a alma dela nas mãos, não apenas um livro, se o abrem, então, em vez de se sentir liberta, incomoda-se, a alma é quase como o sexo, íntimo lugar onde mexer, não andamos por aí a apalpar o sexo uns aos outros, ainda temos respeito, mas que era feito dele quando lhe folheavam os livros e sorriam perante a mancha difusa de palavras, se nunca sequer lhe haviam sorrido antes, que era feito desse respeito, quando punham na boca as palavras, escritora, tão nova, onde estava tudo.
Mãe, não leias, mas não havia modo de a dissuadir, mãe dela tinha a obrigação primária de ler o que a filha escrevia, tanto mais editado!, e deu-lhe um beijo na fronte e afirmou que gostava muito dela, de tanto amor transbordante que o seu objecto se encolheu e resignou, de que valia tentar fazer a mãe perceber que não ia achar ali um conto de fadas, se ela até lhe emoldurara umas pinturas a marcadores, dos tempos do infantário, feias até à exaustão, e as pendurou na parede do corredor, ainda lá hoje devem estar. Mas logo nas primeiras páginas a mãe franziu o sobrolho e lembrou-se de que tinha trabalhos de casa para corrigir, desta feita ficou a filha aliviada, não era aquela a hora das suplicias - que seria do mundo se as mães conseguissem ver a alma aos filhos? Confiada a estes pensamentos, fugiu com o livro onde a mãe não o visse e não se lembrasse mais dele.
Chega em fim o fim dos exames, altura de baixar os óculos de sol da cabeleira para os olhos, calçar sandálias e um vestido mais leve, sair assim à rua festejar o verão que se avizinha. Já se passou muito tempo desde o primeiro livro, o próximo tem direito a apresentação ao público, dia vinte e cinco do mês que vem, com cinco ou seis pessoas da rádio e dos jornais, mais para a família e amigos - ora, ela não compreende porque há-de apresentar o livro novo à família e amigos, se é certo que são os primeiros a correr para ele e os últimos a perceber o que ele diz. E a mãe pergunta, o que vais levar, e a filha responde, oh, mãe, sei lá, falta mais de um mês, e achas muito?, quem o pergunta é a mãe, conhecendo-te como conheço, menina, precisas de bem mais tempo para te arranjares com duas peças decentes, sem pareceres um manhuço, é um dia como os outros, mãe, um dia como os outros!, exclama a mãe com surpresa, sim, não é nada, também não estou a pensar no que hei-de levar no dia vinte e três, nem mesmo no dia seis, que é muito mais perto, como podes dizer isso?, pergunta a mãe, de mãos na cara, trémulas, vai lá estar a imprensa!, e tu só te preocupas com o que os outros dizem, e tu nem te preocupas com nada!, não é bem assim, mãe, simplesmente não olho para as roupas como tu, pois não, e sabes porquê? porque estás gorda e nada te fica bem, se fosses elegante ias ver como gostavas de combinar as coisas como deve ser, mas fica palhaço à vontade, se gostas assim!
A isto a filha não responde nem ressente, já está habituada, conversas que começam da mesma maneira, acabam da mesma maneira, ao papel dela já o tem decorado, o guião diz que, com esta deixa, a mãe deve sair do cenário e a mãe sai, realmente, evidente que segue o mesmo guião, não se enganou nem trocou, como por vezes acontece, e andam as duas desentendidas por julgarem diferente a mesma coisa ou a mesma coisa por coisas diferentes.
Houve uma noite, um jantar de domingo, em roda da mesa, sem esquecer a poltrona nem o cachimbo, em que as emoções trouxeram até lágrimas de comoção, estando o televisor ligado, como era habitual, mas todos sabiam o que ia ser diferente, os bebés tiveram de ser forçados a silenciar o choro, pois todos ouviam atentamente o que o Professor Marcelo tinha a dizer, muitos ouvindo sem ouvir, porque só queriam ver, ver, então ali estava, um outro livro tímido, espreitando, o nome da família precedido por um feminino, o primeiro livro levado assim à televisão, a primeira vez que o Professor Marcelo se lhe referia, e lá estava ela, recebendo aplausos e abraços e lágrimas, enterrando-se no assento, como que o dia do aniversário tivesse chegado mais cedo, ali estavam todos a olhá-la e bater palmas, ela sem saber que fazer da cara, que fazer das mãos, ao menos antes podia fixar os olhos no bolo, nas velas, na chama, ali nem isso, tinha de se contentar com o lombo devorado. Apeteceu-lhe, também, chorar, mas afogada de tristeza.
Jovem escritora. Como tudo põe a cru, apesar de tão nova, tão pouco experiente, parece prever os males onde os há e não finge que não os vê. E as obras publicadas com que conta. Uma encruzilhada de histórias, para o público mais novato, chama-se Nahaia, nome mais estranho, depois uma colectânea de contos, desde meia página a meio livro, mas sempre chamados contos, o dos Pulsos está lá, qualquer outro também, se procurarmos. Um policial, estranho quebrar da corrente, mas também bizarro a seu modo, chama-se Culpa dos Inocentes, saiba-se porquê, talvez tenha sido outrora outra ideia de que depois se fez título, ainda um misto de comédia com outro mundo bizarro, As Ocorrências mais Estranhas e Extraordinárias da Vida de Edgar Perry, fiquemos com Edgar Perry, para abreviar, depois há aquele tenebroso Crónicas do Lodaçal, o das viagens de carro ao país, Desejo de Estrada, ou como se chama, e há ainda o que começa nos Portões do Inferno e não se sabe bem onde termina.
Agora a mãe quer ler. Tem de ler, é inevitável. Bate à porta do quarto da filha, diz, isto é acerca de mim?, a filha diz-lhe que não. Mãe só tens uma, por isso tem de ser acerca de mim. Essa não sou eu, responde-lhe a filha, fui eu que inventei uma e que inventei a outra. Inventaste de onde?, da minha cabeça. E sabes lá tu como são as outras mães?, por isso inventei. A mãe ajoelhou-se à beira da cama. Os olhos morriam em lágrimas, tu achas que sou assim?, perguntou entre soluços.
Tudo isto está a matar-me.
Voltei ao psiquiatra. Que vai ser hoje? Já nem me recordo da primeira razão, a minha mãe leva-me ao psiquiatra desde muito cedo, porque ele é uma espécie de amigo de infância. Que vai ser hoje? Já fui diagnosticada com depressões, fobias sociais, esquizofrenias, apetite compulsivo, já usaram todos os termos que conseguiram, dissecaram todos os meus sonhos e todos os meus textos. Os livros só fizeram pior. Agora, há material. Ele pega ao acaso numa frase de um livro e molda-a até chegar onde quer.
É verdade que fui encontrada dentro de um armário, a cheirar mal do egoísmo de me ter matado. São coisas que se fazem. Tinha a alma tão suja que já nem sabia como a haveria de limpar.

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Acho que estou a matar a minha mãe. Dia após dia. Em cada sorriso a menos. Em cada chamada mais curta. Em cada noite fora de casa. Em olhares distantes quando estou com ela. Em respostas carregadas de sarcasmo.
Morre por minha culpa, lentamente.

Q: porque não tens orgulho em ser portuguesa?

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A: Que fiz eu para ser portuguesa? Lutei durante anos pela minha obtenção de nacionalidade? Ou andei pelo mundo até decidir assentar neste lugar? Ou, ao nascer, resolvi que iria falar português como língua materna? Caramba, não. Nasci aqui. “Decantaram-me” aqui. Impuseram-me um país, uma língua, uma família, um estatuto social, depositaram expectativas e moldaram-me a essa imagem. Como posso ter orgulho numa coisa de que não sou culpada e para a qual não contribuí? O orgulho pela nação é a primeira coisa que os fascistas fazem celebrar e cultivar. É esse orgulho a primeira causa de intolerância. Esse orgulho primitivo que sabemos lá se acaso merece existir. É a primeira causa de conflitos. E, depois, já se sabe, de guerra. Por isso eu não tenho orgulho em ser portuguesa. Não tomo créditos pelo que outras pessoas fizeram. Não tenho orgulho em ser um ser humano. Nem sequer tenho muito orgulho em estudar na cidade onde nasci, porque me limitei a seguir o que esperavam de mim. Ser portuguesa é uma etiqueta, impressa debaixo da minha pele.

Cansada

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A vida sabia-lhe a insípido. Diziam-lhe o que fazer e ela fazia. Trabalhava, como uma pequena formiga que não sobressaía. Ela não queria sobressair, de todo. Mas queria ser ela própria. Queria dar de si ao mundo - e não do que todo o ser humano é capaz de fazer. Era por isso que não tinha família. Depois de ser criada, vira-se obrigada a fugir. Não suportava as paredes daquele ninho de incompreensão, expectativas e hipocrisia. No entanto, sair de casa só lhe serviu para descobrir que a sociedade era um ninho em ponto grande. Em outros países, continuava o mesmo sentimento à beira-rio de conformismo. Não dizia a ninguém, mas sentia-se sozinha ao sentar-se com outros no sofá a ver televisão. Ninguém vivia. Apenas aceitavam. Existiam. E tal não era viver. Diziam-lhe que trabalhasse e ela trabalhava. Diziam-lhe que comesse e ela comia. Diziam-lhe que passasse os sábados e os domingos a arrumar o apartamento e lavar a casa de banho e ver televisão - e ela tudo fazia. No ecrã, rostos sorridentes. Sorria com eles. Porém, esse sorriso era uma máscara, tal como as dos actores do ecrã. Nada havia de verdadeiro. Apenas ordens não ditas. E sinais de assentimento, vagos, lentos, imperceptíveis. Era como uma vida sem cores nem som. De que lhes valiam se não lhe diziam nada?

Ilegal Anormalidade (NaNoWriMo)

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Voltou tudo ao normal. Era estranho como tudo voltava ao que sempre fora de um modo tão natural, como se nada tivesse acontecido. No entanto, tal estranheza nada mudava. Se uma figura pública tivesse sido encontrada morta, todos rodeariam durante muitos dias a história, apesar de tal falta não mudar, realmente, a vida dos que o conheciam. Passado alguns dias, os meios haveriam de se render, pois o peixe já não venderia. Agora, ali, era simples. Era um imposto, imposto a todos. Na realidade, era uma multa com outro nome. A lei ressaltou de um dia para o outro. Houve queixas, houve conflitos nos arredores das grandes cidades. Houve tentativas de revolta. Mas, uma semana depois, tudo na mesma. Imposto sobre música não programada.

Havia uma pequena menina que adorava ouvir música, mas nunca a ia buscar à rádio, como todos os outros. Ela olhava em volta, há procura de árvores enormes, a que todos, de tanto habituados, já nem as viam. Ela, porém, não se limitava a olha-las, reparar nelas: agarrava-se docilmente e trepava
aos ramos mais altos. Por vezes, demorava um pouco mais até lá chegar, mas nunca desistia. Lá de cima, deixava-se embalar. E, quando voltava, trazia a cabeça muito mais cheia e poderia sempre voltar. Essa floresta é, está claro, a música, toda a música. Tudo isto não é mais que uma metáfora. Mas essa menina carregava o seu leitor com músicas e músicas, todas as que ela gostasse. Sabia que lhe davam alimento mais que tudo. Eram a alma dela em revista. O alimento, a respiração. Sem música, podia ser humana, mas não era pessoa, porque se tornava oca.

Imposto sobre música não programada.

No início não lhe fez diferença. Nem a ninguém. Com o tempo, todos se habituaram a não ouvir o tipo "errado" de música, aquele que se tinha de pagar. Música era bom. Mas não um luxo. Um imposto começa a ser um pouco demasiado para poderem ter o pequeno conforto. Dispensável, portanto. Não para ela. Continuou a dar as onças pelos segundos, longos minutos, ternas horas em que escutava quem quer que preferisse no momento. Ligava a caixinha de música e, algures na sede da polícia do governo, um cronometro acionaria a contagem. Ela ouvia sempre música fora do programa.

Conseguia ver o que estava mal, ou "errado". As letras, chocantes e incitantes, aliciantes ao lado perigoso da vida…Os sons, todo o espectro que conseguiam abarcar de sons, estranho, difícil de seguir. Ela compreendia - o governo tinha medo dos pensadores, das pessoas que fossem levadas pelas músicas a fazer o não esperado. E, assim, ninguém ouvia. Ela não o dispensava, porém. Era o ar que lhe compunha a alma. Continuou, submissa, a pagar todos os cêntimos que cada segundo valia, porque cada segundo valia a pena.
Com o tempo, deixou de ter comida em casa. Vendeu a roupa e ficou apenas com um farrapo. A música ia-lhe morrendo. Os segundos, cada vez menos. Era como uma droga, lhe diziam. Com o tempo, começou mesmo a ser vista como uma droga. A estranheza dos sons. Alienados deste mundo. Nada poderia existir realmente assim. Drogados dos músicos que só tocam e cantam o irreal, diziam. Ela via os que lhe falavam assim e notava-lhes a arrogância de se acharem maiores e que as palavras haveriam de fazê-la calar, fazê-la parar. Se antes, oh, ao menos antes, gritassem, a plenos pulmões, talvez ganhassem um pouco de razão e ela conseguisse perceber as tolas insignificantes palavras.

Com o tempo, teve de vender tudo. Deixou de ter dinheiro. Até que deixou de haver música.

No dia em que deixou de haver música, ela atirou-se ao chão sem conseguir respirar. Sofucava com as lágrimas, de olhos a jorrar de vermelho. Soluçava e tinha a garganta cheia de amargo. Todos abanaram as cabeças e ninguém a ajudou. Pobre drogada. As mães afastaram os filhos dela, repreendendo-os.

Uma semana depois, no meio da rua, começou a cantar, a mais cara das músicas que conhecia. Cantou-a bem alto, para que todos a ouvissem. Calou as lavadeiras dos prédios circundantes, cantou e calou a cantiga dos melros que debicavam as primeiras frutas, cantou e cantando mais alto calou as buzinas distantes e as sirenes de ambulâncias e cantou e calou o mundo só com uma, a mais cara das músicas, cantou até ser calada. Quando o bastão da polícia a atingiu com brusquidão, o mundo que ela calara ficou cego e negro. E sentiu a cara contra o chão. E não sentiu mais nada.

Do canto de uma estreita avenida que dá para esta cena, encontra-se uma outra menina, um pouco mais nova, tentando se esconder por detrás do vão da escada. Ela chora a morte da sua heroína e mentora e está aterrada de tão assustada. Essa menina vai crescer num outro mundo, onde já não é preciso pagar para ouvir. Ela há-de se agarrar à sua caixinha de música, com atenção e absorvendo tudo o que pode. Todos hão-de estranhar tais modos e de lhe perguntar por que está sempre de música nos ouvidos. Ela, simplesmente, irá encolher os ombros e agarrar-se com força ao que tem e aproveitar cada segundo em que pode ouvir música sem ter de pagar imposto nem multa. Ela, simplesmente, nunca vai mostrar a ninguém o que ouve, com medo do bastão da polícia. E essa será aquela que mais bem saberá ouvir música. E a que terá a alma mais cheia. E a que nunca deixará nada voltar ao normal quando o mundo mudar as regras da liberdade, mesmo à sua frente.

Mãe, tenho saudades minhas

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Mãe, tenho saudades tuas.
Dos dias em que levavas a tua pequena princesa à cidade. E aqui foi onde tu nasceste, e aqui é onde a mãe compra as meias, não toques em nada. Lembro-me de ficar quieta, à tua espera. A minha mão cabia na tua e eu mal te chegava à barriga. Quando via um pedinte na rua, chamava-te e dizia:
- Não lhe devemos dar qualquer coisa?
As tuas respostas variavam.
- Não, que é para as drogas.
- Não, que já pouco temos para nós.
- Oh, Adriana, se fossemos dar a todos...
Mas, por vezes, cedias e eu corria a pôr uma moeda na mão estendida, no chapéu, no estojo de violino ou saxofone. Muito eu gostava de dar moedas.
Eu era pequena e tinha de estar contigo. Mãe, desculpa ter roubado a tua pequenina. Mas ela teve de crescer. Tu sabias. A infância nunca é eterna. Tentei prolongar a minha, mas não deixou de ser efémera.
Com saudade,
da tua
fifi

O chapéu e o pássaro (conto)

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Uso chapéu porque estou careca. Podia ter sido pior, mas não foi e estou grata. Tenho de usar chapéu, mas até me fica bem. Se o tirar e virem a minha cabeça rapada, decerto que farão troça de mim. Não, estou segura. Protegida por um chapéu. Amanhã, posso trazer um boné, e no dia seguinte uma boina. Posso fazer uma colecção de chapéus de todo o mundo. Posso ser quantas personagens em cada dia. Estou careca. Privada dos meus doces caracóis e do seu peso gentil quando pousavam nos meus ombros com a força da rebentação das marés nas costas da areia. Os meus cabelos eram ondas suaves e deles conseguíamos ouvir o som do mar. E agora estou careca. Não levo a cabeça despida, tenho um chapéu e amanhã outro. Estou careca mas poderia ser pior. Estou careca, mas tenho saúde e tenho peito. Se bem que ainda não tenho peito realmente, um dia terei. Obrigo-me a sorrir, porque está tudo bem. Estou bem, estou segura. A mulher chorosa a meu lado na sala de espera não. Não me disse nada, mas li nos olhos dela. Está-lhe escrito em toda a cara, nas mãos que tremem, que a morte já a acolhe em seus braços gelados. Vai morrer, talvez já esteja morta. Já está pálida. Já está fria e arrefecida. Já está rija, como pedra. Esperamos sempre que continuem suaves, para alimentar a ilusão de que estão a dormir. Mas não estão. Estão mortos. Estão rígidos. E já não são vivos.
Eu estou viva.
Eu tenho chapéu e saúde e peito e estou grata.
Que mais posso que sorrir?
Tira o chapéu, diz a professora, e todos olham para mim. Já todos olhavam, eu fingia que não. Agora, é impossível de ignorar. Tira o chapéu, diz a professora. Tira o chapéu, Tira o chapéu, Tira o chapéu, repete, insiste e debita a professora. Já só é automática, agora. Tem peito e tem cabelo e não imagina a importância do que me pede. Tira o chapéu, Ana Marta, imita alguém no fundo da sala. Todos me olham e o meu sorriso desfaz-se porque o mundo parou para me ver tirar o chapéu. De súbito, deixou de importar ter peito, ter saúde ou estar viva. Não tenho cabelo. Não tenho cabelo. Palavras que murmuram ao meu ouvido, palavras que ecoam por dentro e me fazem estremecer. Deixei de ser a menina corajosa e o encanto das enfermeiras. Agora, sou a rebelde que não quer tirar o chapéu. E depois serei a que não tem cabelo. Assim posta e exposta. Não quero, por favor, não me obrigue a tirar o chapéu, por favor. Sei que o digo em voz, mas na minha voz, tímida e baixa. Tenho medo de a gritar. Mas ela ouve-me. Tem a prática de apanhar mexericos. De dois passos e um gesto, arranca-me o chapéu. O silêncio. Ninguém se atreve. Todos eles compreendem, agora. A cara dela, choque. Vai devolver-me o chapéu sem uma palavra e o mundo vai prosseguir, arrependido. Vão perguntar-me, mais tarde, se tive de tirar alguma coisa e vão contar como a antiga porteira teve de tirar o peito. Eventualmente, vão compreender o quão perto estive da morte e vão ficar assombradas.
Se ao menos a realidade fosse como a esperamos.
Se ao menos a humanidade fosse prática, lógica.
Agora, surpresa. Choque estampado nos rostos. A professora é a primeira a avançar. O choque tornou-se fogo. Então, grita-me uma voz carregada em fúria, então é por isto, menina mal encarada, que te escondes atrás de chapéus? Virou-se para a turma toda. Ninguém, numa aula minha, há-de esconder os seus actos arrependidos atrás de um ridículo chapéu! Vejam, vejam bem este vosso exemplo! Vejam, e isto disse-o como que para o abjecto mais nojento que ela alguma vez vira, a beleza de uma menina careca!
Todos me olham e não consigo dizer nada, porque o meu sorriso se desfez em lágrimas, porque o mundo parou para se rir da menina sem cabelo. Ninguém percebe. Ninguém vê que podia não ter peito. Ninguém vê que podia ainda estar doente. Ninguém vê a mulher pálida, fria, rígida e morta comigo na sala de espera. Ninguém vê o abraço gelado da morte que nesse dia a escolheu a ela mas que do mesmo modo me poderia ter escolhido a mim. E hoje podia ser o meu enterro e a escola fechava em luto e ninguém me obrigaria a tirar o chapéu e ninguém se riria de mim e não seria eu a chorar, todos me olhariam e o meu sorriso haveria de estar desfeito em morte e o mundo pararia para me chorar. Ninguém vê nada disto. Arrumo-me no canto da sala, em choro apertado, sem chapéu e sem vida. Ou assim a desejaria.
Estou outra vez na cama da enfermaria e não sei se compreendo. O doutor disse-me que estava tudo bem. Então por que estou outra vez aqui?
Não me iludo, bem o sei. Queria estar bem e enganaram-me para viver a minha última semana feliz. Já não me enganam mais. Desta vez, sinto as penas da morte a roçarem-me e acariciarem-me e beijarem-me nas faces. Descobri que a morte é um pássaro gentil e um pássaro que sabe beijar. A morte não se ri de mim. Acompanha-me nas noites de insónias, cantando ao meu ouvido tristes melodias.
Queria ter amigas que me confortassem. Queria que elas se lembrassem, lá na escola, mas já não tenho ilusões. Em duas noites deixei de ser criança. Sou quase capaz de as ouvir, ao pé de mim. A Ana Marta está no hospital? Sim, com uma daquelas doenças em que nos tiram o peito. Tiraram-lhe o peito? Não. Então porquê tanta choradeira?
Queria que o meu pai estivesse aqui, mas ele trocou-me por outro país, do outro lado do mar. Queria que a minha mãe estivesse aqui, mas ela deixou de me olhar nos olhos. Queria que a minha irmã estivesse aqui, mas ela culpa-me pelas amantes do meu pai e pelas bebedeiras da minha mãe. Queria alguém mais para além do pássaro morte e da enfermeira que me alimenta.
Pergunto-me sobre quem irá ao meu funeral. Mas isso não interessa, porque já estarei morta. Aqui, estou viva, estou a morrer, estou sozinha.
Aqui, respirando dolorosamente, a única desta cela, não julguem que vos guardo ressentimento. Consigo ver-te. Sei que estás enternecido comigo. E amo-vos, todos, intensamente, como às vidas que não pude trazer à vida e amar.
Cai um pássaro morto no peitoril da janela.
É o meu sinal: está na hora.

Escapadela II

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(21.07.2010)

O que todos esperam de ti. Que tu, invariavelmente, não fazes. Esta é a tua segunda escapadela. Já sabes que tudo vai correr bem. Tinhas saudades de comboios. Vais de costas e deixas-te embalar pelo solavanco constante das carruagens. Respiras este som, com saudades de quando era o de todos os dias. Deixas o nevoeiro matinal na cidade onde nasceste. Aqui há Sol! Sol! As nuvens flutuam como pequenos milagres. Vês os campos infinitos, vês as linhas, sujas em óleo, gastas pelas centenas de aniversários. Sabes este mundo de cor, o cenário dos viajantes não muda.
Aqui, não há ultrapassagens perigosas, nem curvas apertadas, nem trânsito. O que poderia correr mal, com o teu companheiro de viagens eternas?
Desculpa, mãe. Perdoa-me por te mentir, mas não havia outro modo. Deixavas-me vir, se soubesses? Perguntar-te-ias pela razão. Eu amo-te, mãe, mas tu não compreendes. Desculpa. Preciso disto, porque é isto que sou: uma viajante.
As nuvens, altas, regressam. São grandes e imensas. Correm com o vento ou talvez sejamos nós que fugimos. Vejo os pinheiros, cismo onde estou. As pessoas dão demasiada importância a tudo, como se uma viagem fosse algo descomunal. Calma! Interessa-me que vocês compreendam? Só fazia bem. És louca. É só uma viagem. Viagem comigo.

Vamos às compras, querido.

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Vamos comprar um ferro de passar, querido.
Vamos comprar uma máquina de café, um microondas, um secador.
Vamos comprar, querido.
Vamos submergir na corrente da expectativa de adquirirmos ditos confortos do mundo moderno, ditas facilidades dos novos dias.
Assim julgamos.
Vamos submetermo-nos à escravidão real de fazermos nossos os hábitos de todos.
Vamos vestir, querido, o conforto dos nossos lares de igual, com os outros.
Quem nos vai julgar? Quem nos vai estranhar? Quem nos vai dizer que não podemos?
Vamos comprar uma carpete para a entrada, querido.
Vamos vender a nossa alma a esta causa.
Vamos vender a nossa honra, querido, a nossa dignidade, a nossa individualidade, para comprar as nossas grilhetas.
Vamos trocar o sangue por óleo.
Vamos vender os livros de nossos avós para comprar uma torradeira.
Vamos vender as nossas memórias para comprar copos em cristal. E vamos gritar e bater quando algum se partir, porque o cristal é insubstituível.
Vamos desmembrar o nosso cão ou gato e vendê-lo órgão a órgão a quem nos der melhor preço.
Vamos vender a nossa sombra pelo melhor preço. Para que nos serve uma sombra?
Vamos vender a nossa integridade ao melhor preço. Para que nos serve a integridade?

Diário

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Eu não costumo fazer isto. Isto, isto, isto. Esta espécie de tom de diário, não nos meus textos. Mas preciso, estou a morrer. Sinto-me a morrer. Não conseguia aguentar muito mais naquela casa. Sinto-a lá, como um esqueleto pendurado que me segue para cada canto - e me chama: Adriana, Adriana, Adriana. A suavidade das coisas que fazíamos, das coisas que poderíamos fazer. Se hoje o mar estava lindo, lembrava-me da tarde em que passeámos de mãos dadas, os meus pulsos ainda intactos, os dela dolorosos da dor que a corroía por dentro: e eu sem saber que dizer, só estando com ela e salvando-a do mar, quando eu sabia: eu sabia sempre: que ela não queria ser salva, que ela queria que o mar a afogasse ali mesmo, porque o mar é calmo e bruto ao mesmo tempo e está cheio de carinho. Porque o mar a podia matar, mas não a magoaria tanto. Nós a brincarmos com as ondas, a brincarmos com pedras, como duas miúdas, a brincar com gaivotas, os pulsos dela, eu podia ter dito, enquanto brincávamos, eu amo-te, seria verdade, eu amo-te, mas não o disse, nem sequer a consolei, os pulsos dela, eu fiz de criança quando ela tinha perdido a inocência toda, eu fiz-me de inocente, quando ela não podia, eu amo-te, eu amo-te, por vezes grito-o na rua, para o vento, para a chuva, para o mar, mas é sempre para ela, eu amo-te, no cemitério, à beira do esqueleto, eu amo-te e é verdade, ainda hoje, eternamente, ternamente to repito, mas as lágrimas doem, o peso no peito dói, os soluços, eu não quero chorar, mas até quando não choro tu estás lá, estás na praia, a fingir que brincas. No meu quarto, eu tento adormecer, mas sei que lá estás, eu sinto-te, mas sei que estás morta e estás lá, arrepio-me, não de medo, mas de remorsos, nessas alturas não digo que te amo, porque nessas alturas odeio-me por tudo o que não disse e tudo o que não fui, e por tudo o que disse e tudo o que fui, odeio-me e peço-te para me deixares embora, porque tu foste minha amiga e eu não te mereço, porque eu quero dormir e tu não me deixas, és essa grave memória.
Adormeço.
Primeiro sono.
És sempre tu e eu. Eu contigo. Tu às vezes estás morta, outras estás viva. Todas são odiosas, porque depois acordo, lavada em suor. E ainda com o sabor amargo da tua lembrança. Tento não chorar. Viro-me para um lado e para o outro, com medo de adormecer.
Segundo sono.
Não interessa em quantos sonos vou, tu estás sempre no sonho, naquela casa. E eu acordo sempre a chorar.
Último sono.
Hei-de acordar sem que os meus pais o saibam. Ouço-os a baterem as portas dos armários, a abrirem com cuidado os estores, ouço passos no corredor, vozes, ouço uma porta que se fecha, póc-póc dos chinelos a baterem contra os degraus, na luta contra as escadas, a porta a abrir, a porta a fechar. Sei que foram comprar pão e que não tenho muito tempo. Deixo o choro romper, mas tomo cuidado de o interromper. Levanto-me, lavo a cara, lavo os olhos. Estão pesados e cansados. Eu estou cheia de sono. As olheiras fazem covas, assustam. Lavo os olhos, vermelhos. Deixo-me assoar, passo a escova pelo cabelo. Não estou melhor, mas disfarça. Volto para a cama e olho o dia que amanhece, pela janela. Esse momento é de paz, é o único de paz num dia inteiro. É sempre interrompido, bruscamente. Passos a subir as escadas. Conto-os, apesar de os saber de cor. A porta abre-se e eu fecho os olhos. Controlo a respiração. Dali a pouco, há-de aparecer alguém que me vai acordar. Eu quero chorar. Ainda não deitei tudo. Mas não posso, faço por fingir que sorrio.
Doloroso. Porque, a cada momento, tenho esperanças estúpidas. Porque, a cada momento, foi tudo um sonho ou uma partida de mau gosto.
Se me chamam, se me dizem,
Adriana, desce, vamos embora!
Eu ouço,
Adriana, está aqui a Joanna!
Eu quero chorar quando me fixo no espelho, porque não me consigo olhar.
Com outros, finjo que está tudo bem. Finjo que já passou. Mas como pode passar?
Como pode passar, se ela está presente nos lugares mais imagináveis?
Amo-te. Perdoa-me, por favor.
Amo-te e não consigo evitar.
Perdoa-me, minha querida,
quem me dera poder merecer uma fracção da amizade que me deste.
Obrigada por tudo, e perdoa-me.

Novo Dia (macabro e parvo)

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Um dia novo amanhecia no largo, o mar ouvia-se ao longe e as gaivotas pousavam no topo dos edifícios, calmas, como a brisa. Esse dia que começava alinhava-se com os outros dias, no correr do tempo e assemelhava-se a tantos outros. Se o pudéssemos saber de antemão, não nos preocuparíamos tanto quando atravessamos a estrada ou quando nadamos no mar, sob o olhar perturbador da bandeira vermelha. E, por outro lado, se não tivéssemos esse cuidado, tudo seria alterado e o dia poderia ser diferente.
O Sol, as nuvens desaparecidas, a brisa calma eram todos prenúncios de bom dia. Podemos imaginar mil e uma maneiras de não ser, mas, por agora, vamos ser optimistas. Porque esta manhã começa bela.
Um gato passeia agilmente por entre os escombros. Pois, sim, esta cidade está despedaçada e não se vêem sobreviventes. Excepto aquele gato. E o mar. O gato percorre o que já foram avenidas com passo rápido, para não se deixar apanhar pelo que tenha ficado para trás. Este gato não tem destino, porque acompanha a vida pelo que ela é presentemente. Para este gato, não há passado nem futuro. A cidade está assim porque sempre foi assim, porque sempre será assim. Não é que ele não se lembre - simplesmente, não quer lembrar.
O gato avança por entre estilhaços de parede escura, caída, desfeita, desmoronada. Algo emerge daquele pedaço de terra. Uma mão, um braço, um ombro. O gato segue viagem e deixamo-lo entregue a si próprio, pois decerto que quem só olha o presente não tem grandes histórias a contar senão as que podemos ver.
O Sol ergue-se do mar, tal como a mão se ergue dos blocos de madeira e pedra degradados pelo tempo e pelas bombas. A luz esmorece, até o Sol se envergonha perante tal visão: há uma extensão de um ser que luta pela vida. O Sol esconde-se atrás da primeira nuvem que encontra. A mão procura, apalpa o ar, apalpa o chão, retorce-se e está retorcida, já não é mão, já não é braço. Está sangrada, está ferida. Será que vive?
Cai para o lado.
Está morta.

O Sol nasce, então, descansado. A brisa treme e faz tremer a areia. O Verão morre no céu e o frio inunda a terra. O Sol não diz nada, só ilumina, não aquece. A cidade apagada, despedaçada, torna-se inferno gelado.
A cidade cai para o lado.
Está morta.
O Sol está morto, já nem ilumina, está escondido, envergonhado, está morto.
E a brisa, só penteia remoinhos na areia.
Até que já nem isso, a brisa esmorece.
Está morta.
Está tudo morto.

Possivelmente natural

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Este dia é fabuloso. Podemos fazer tudo. Podemos ser tudo. Podemos comprar tudo. Este dia é o mais fantástico das nossas vidas. Comparamo-nos e vemos que somos iguais porque tudo podemos ter. Somos fabulosos porque é hoje o dia de tudo o que nos passe pela cabeça.


Neste momento em que todas as realidades me são permitidas, magico uma paisagem. Estamos no norte, no meio de montanhas alpinas, triangulares, cobertas de neve. As coníferas rodeiam-nos no seu abraço irregular. Algures, ouço o gotejar de água, o desbravar de caminhos por uma ou outra fonte algures. Algures. Acrescento-lhe, agora, flores, rasteirinhas, de todos os tipos, das que se dão bem nestes climas. Flores pequeninas, miúdas. E a água vai desaguar a um regato e o regato finda num formoso lago, num imenso espelho de pequena ondulação que se estende até ao nosso horizonte. Sentes o fresco da paisagem e sorris. Quase que és feliz.
Neste momento em que posso tomar a realidade pela mão, construo uma pequena cabana, minúscula, para ser sincera. Dentro dela - tudo o que me é essencial. Um colchão no chão, mesmo à beira da lareira. Uma porta que esconde apenas vestidos simples, que caem como folhas, como pétalas de rosa, que caem no outono. Desbravo esta pequena casa, a sua secretária onde repousa a minha máquina de escrever e as minhas penas. E os tinteiros para as penas. É com alma que escrevo nesta casa, acerca da beleza e simplicidade da natureza.
Neste triangular momento, vejo os meus filhos brincarem com objectos simples, deles tirando todo o proveito. São criativos e amam a natureza. O meu amor chega a casa - não tardou. Traz fruta para os pequenos e para nós ambos.
É fresca, esta realidade. Sorrio para o simples que se me revela.

A história daquele dia

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Fugi.
Faltei a laboratórios e teóricas obrigatórias.
Apanhei o primeiro comboio. O primeiro comboio que me havia de levar a Lisboa.
Fugi
Fugi porque é isso que quero para a minha vida. Ser clandestina da sociedade. Sou uma viajante. E uma romântica. Fui a Lisboa ter com ele. Que bem me faz? Para o curso, para os meus pais, para a minha vida, para tudo? Que mal me faz? Que consequências terá tudo isto? Em menos de nada, estarei a magoar alguém, os meus pais vão ficar desiludidos, vou-me magoar, não vou ter amigos, não vou ter família, vou cair no desemprego, a sociedade não me aceitará. Enfim. Que loucura. Não tenho o direito de tentar ir atrás dos meus sonhos? Uma vida estável não me seduz. Sou dos viajantes, dos clandestinos nos supermercados, no povo das estações de comboio. Eu sou nómada. "Conheces o nome que te deram. Não conheces o nome que tens."

Amor Suburbano

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Grandiosas forças movem o mundo, fazem dias, fazem noites, fazem Sol da meia-noite.
Grandiosas forças dão vida à vida e somos todos essas forças. Somos tão complexos que não colapsamos. Oh!, Quão belo é o mundo, afinal.
Gloriosos somos, somos todos, mesmo os doentes, mesmo os vegetais, mesmo os que morrem.
Somos gloriosos só por chegarmos aqui, só por fazermos.
Somos tremendamente horríveis e obscenos.
[...] Confrontemos o mundo perante nós. Esta excelente colecção de horrores e ódios.
Como te amo e gostaria de estar outra vez contigo! Ah, mas não to digo, pois, não to digo, poderia estragar tudo.
[...]Amo-te, amo-te e estou farta de me abster de amar. Que propósito tem esta vida?
[...]Amo-te de modos tão bizarros e intensos! Vê o fogo que me incendeia.
Amo-te de todos os modos bizarros, como roubar flores da bicicleta que passa.
[...]

És lindo. Adoro-te. És um pensador. Amo-te. És o todo. O meu todo. O meu tudo. Mais que o meu tudo.
És o meu mais que tudo.

Carta de um novo dia.

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Isto não é uma brincadeira. É uma luta que tenta chegar aos confins do mundo - aos confins da mente.
Não sei quem és. Não sei o teu nome, a tua cara, não sei o que fazes nem como és.
Não sei sequer se alguém lerá isto.
Mas arrisco. Pouco tenho a perder.
Espero que tenhas um pouco de loucura.
É sempre bom, sempre essencial.
E particularmente essencial.
Escrevo esta carta porque estou a morrer.
Não quero que tenhas pena de mim.
Vivi pouco, mas raros foram os arrependimentos. Vivi pouco, mas vivi uma vida cheia.
E a morte, que agora me leva, é calma, plácida, pacífica. Não me traz dores - muito pelo contrário, sinto cada vez menos.
Pouco tenho a perder - nada que não perca totalmente dentro de alguns dias.
Se há algo que me enche de melancolia é olhar à minha volta e ver milhões de infelizes que não conseguem pensar. Será que vim a este mundo viver como vivi, sem deixar alguma marca para o futuro? Serei o objectivo do Universo?
Decidi não levar estes pensamentos para o fundo da terra, comigo para o túmulo.
Decidi-me a escrever-te, para quem quer que sejas. Quero contar-te tudo! E esperar conseguir abarcá-lo nesta carta.
Esta é a carta de um novo dia: um dia que provavelmente será teu, mas que de certeza não será meu.
Nota importante: as gravatas não servem para nada!

Devaneios pelo meu mar doce de palavras.

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«Se eu fizesse colectânea de palavras lindas!
Casaria comigo mesma e o discurso seria de morte:
"Nos estilhaços que deslizam sob suave ternura do embalar de páginas descritas em cadernos de contos de fadas, esmorece uma névoa que afaga quem estremece. Nas melodias harmoniosas, despedaçam-se tufos de musgo, cristalino do orvalho. As infâncias vêm em bibes descolorados, ao som de discos entorpecidos numa grafonola antiquada. No meio de bugigangas viajadas com bufarinheiros, cintila uma caixinha de âmbar pitoresca. Os meus olhos deleitam-se com tais arabescos, deliciosos, preciosidades, irresistíveis.
Quanto a névoa me afoga em claridade amargurada e reluzente!
O brilho dos teus olhos são vitrais."»

Noite e Alvorada

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A noite esmorece num qualquer bar. É tarde. Já não há gargalhadas nem exaltos, apenas restos em cacos partidos, espalhados no chão. Esta é a hora em que os resistentes moem as dores de cabeça. Esta é a hora em que os poetas se afogam no desespero da existência e da vida.

Reencontro sombras nas esquinas, lamuriando-se, lembrando-me de quem sou. Estão aos cantos e espalhadas, perseguindo-me neste amanhecer. O céu é tremeluzente cor néon, como quem vai avariar a qualquer momento. Há um chio a dobradiças velhas e os gatos resmugam e rugem por um pedaço de sardinha. Tenho uma caneta e um papel na mão, mas o café ainda não abriu. É cedo, minha rica mãe!, é cedo e as silhuetas ainda são difusas e estas sombras confusas de becos escuros. É tudo oco, porque faz tudo eco, porque a noite vibra, agora não, agora não há ninguém. Nem mesmo o vagabundo sem abrigo e mal cheiroso. Nem os trabalhadores que se levantam com a alvorada. A esta hora, só há gatos nas tampas do lixo e milhentos ecos desinibidos vindos de lado nenhum. Neste silêncio, raia a manhã, agridoce, de brisa gelada, harmonia. Nem pássaros, nem cigarras, nada no meio das sombras. Anseio silenciosamente a manhã e as suas gentes. Quero, quero ver dia e mundo e não este medonho cenário. As nuvens passam a galope e o céu é branco. A cidade é negro contraste. Quero fugir daqui, mas não me atrevo, quero desaparecer, mas não posso, quero fechar os olhos a isto, mas não ver é saber ainda menos, é só escutar. Tenho medo.
16.o5.2o10

Repetindo o repetido

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A chuva cai, calma,
As gotas despedaçam-se no chão,
desfiguradas...
O alegre conforto relaxante da chuva entra janela adentro e inunda-me em cheiros e sensações.

Quero voltar às origens.
Quero chorar infinitamente com a chuva.

Pedaços de nuvens agarram-se às coisas normais do mundo. Mundânices urbanas, quaisquer coisas banais. Encharcam-se as árvores e os panos e o chão, as poças formam-se em formas disformes de salpicos. Os putos chapinham em gargalhadas de puro deleite, os mais crescidos repreendem-nos. Entro em crise de choro de depressão. Afinal, é à minha volta que tudo se desmorona, que tudo se desfaz. Agarro esses pedaços de réstias do que sobra, mas não é nada, mas que não é nada, entro em desespero e choro porque não tenho onde me agarrar! Não tenho a quem me agarrar... ela escapou-se-me em estilhaços por entre os dedos, caio de joelhos e não tenho vontade de fazer nada, não tenho vontade de continuar.
Dão-me empurrões e abanões para acordar.
Não me alegram, porém.
Eu não posso ser alegrada.

Pelas Ruas

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Passo na rua pelas pessoas incógnitas.
Está a arrefecer, as almas vagueantes são cada vez menos, a claridade esmorece. Eu escuto música de me levar ao outro lado do mundo e olho o horizonte. O Sol está a pôr-se e as nuvens são lindas, fofas, grandiosas, coloridas em todos os tons, graciosas, acarinhando o astro solar nesta última despedida. Onde estou há um banco de jardim, virado de frente para a paisagem e a música sugere-me a sentar-me nele, mas no encosto, de onde vejo mais pedaço de horizonte, mais pedaço de céu. Eu hesito, porque não quero parecer louca, mas ponho os pés no banco e subo ao encosto. Vejo o pôr-do-sol e ouço a música de me levar ao outro lado do mundo. Este é o mais belo momento do meu dia. Mas não o deve ser, não pode ser, porque não está ninguém comigo, eu sou a única a aperciar a forma disforme das nuvens, a brisa calma e fresca acaricia-me apenas a mim, ninguém mais e eu saio dali, quem sou eu para aperciar só tão grande obra? É-me demais. E onde estão as pessoas a ver aquele pedaço de beleza? Estão em casa, no trabalho, nos seus afazeres, fazer a sopa, compôr a roupa, servir os clientes, fechar a loja. Para quê? Para continuarmos a viver, dia após dia, para podermos ver outro pôr do sol e outro mais ainda? Mas de que serve viver assim, se se privam de encadear pelo pôr do sol?
A luz de frente cega-me os olhos, ou talvez sejam as lágrimas, e eu saio dali, daquele banco, daquela rua, eu vou-me embora porque nada faz sentido, porque eu estou sozinha a ver o sol na despedida. Oh, quão triste é essa despedida, porque é única e não voltará, ninguém mais vai rever os recortes das nuvens ou o modo como os montes se preparavam para embalar o astro celeste em mais uma noite, só eu o vi e quem sou eu? Sou ninguém, um rodopio no meio de nada.
Saio dali em choro e revejo esta terra visitada. As calçadas que piso já não são as mesmas, apesar de estar no mesmo lugar. A minha infância está morta, tão morta como as minhas ideias, como o meu pensamento, como o cheiro a café e torradas barradas de manteiga, como o sabor a pão com chocolate de avelã, como a voz dos velhos, como o embalar de estar ao colo, como a minha amiga, como o pôr do sol, está tudo morto, e eu não quero morrer, mas mais urgente, não quero viver.
Porque me fizeram existir?

Sophia

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Como contar-te tudo o que me foste?
Não me recordo do dia em que nos conhecemos ou sequer da primeira palavra que dissemos.
Nem da última.
Já foi há muito tempo. Porém, lembro-me daquelas horas mortas e aborrecidas para os outros, ocupadas com jogos à bola e macacas e cordas. E que a nós, as caladas e distantes, bastava olhar o céu, sentir o tempo passar. Lembro-te comigo, inventando um jogo sem precisarmos de trocar uma palavra, nenhuma de nós seguia a outra, íamos lado a lado, a não ser quando nos empoleirávamos na beira do passeio...
Já foi há tanto tempo...
A escola e as pessoas sempre foram injustas para nós. Chamavam-nos tímidas, aproveitavam-se para nos empurrarem ao canto. Mas, dessa vez, eu tinha-te a ti, tu tinhas-me a mim. Criámos mil códigos e linguagens, tu tinhas tanto jeito para criar e eu para decifrar, de certo modo completávamo-nos.
Sempre foi assim.
Sophia, estrangeira, vinda lá das Américas...
Lourinha, tão ao contrário de mim.
E, porém, foi em ti e não nos meus compatriotas que achei uma alma gémea.
Como contar-te tudo o que senti, desde sempre senti?
Os anos passaram e ficámos eternidades sem nos vermos, sem trocarmos palavra. Mas esse tempo passou e quando voltei a estar contigo foi como se nada tivesse mudado.
Oh, mas tu estavas diferente, é certo, e também eu. Mais crescidas, mais maduras. Contudo, a distância não havia conseguido fazer-nos mudar uma da outra.
Todos os dias nos descobríamos, descobríamos que éramos mais parecidas do que alguma vez antes.
Sophia... o teu nome é uma melodia cantada pelo vento... Sophiiiaa....

Mas uma vez, roubaram-te, despedaçaram-te e desfiguraram a tua alma.
Pudesse eu torturar o cabrão que te fez isso!
Tu tentaste escondê-lo de mim, ocultaste as lágrimas com o cabelo, viravas as costas e só te voltavas quando conseguisses exibir um sorriso.
Mas eu sabia, Joanna...
Sabia mas fingia que não sabia, dizia-te disparates e tu rias às gargalhadas, éramos amigas como sempre e à noite, cada uma em sua casa, sufocávamos em choro.
Um dia, o fado voltou a atirar os nossos destinos para longe. Deixaste a o lugar a meu lado na carteira, abandonámos a escola que havíamos partilhado.
Estás tão longe, agora...
A saudade agride-me violentamente.
Quero-te aqui, outra vez. Quero-te a meu lado...
Enquanto há vida, há esperança

Era de noite e chovia em torrentes.
Ia no comboio de regresso a casa.
O menino dos olhos verdes saiu de ao pé dos colegas e cumprimentou-me.
Olhou-me e disse com cuidado que a minha melhor amiga se havia suicidado.
E, se o meu mundo não acabou aí, não sei onde então. Já me não sinto viva, já não sinto nada, que esta pesada solidão.
É tudo feio e melancólico, quero chorar e desistir.
Fazer como tu, mas não posso. Tenho uma família, tenho de existir.
Pergunto-me onde estás, mas sei que repousas em nenhum lado.
No cemitério, ainda te falo, e às vezes esqueço que morreste.
Quero voar contigo, borboleta, Joanninha
Quero-te amiga, que tanto amei
Sinto agora que estarei eternamente sozinha
E não há comprimidos que apaguem o que passei

Tenho tantas saudades!

Noites de Verão

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O Sol pousa no poente, a luz estremece, o negro inunda-nos. A Lua nasce.
Saio à rua, em manga curta e calções. Está quente mas não está calor. O ar envolve-me num abraço morno e a brisa esfria todas as possibilidades de isto tudo ser demasiado insuportável.
Saio à rua, em manga curta e calções. Está escuro, só se vêem estrelas, a Lua, raras nuvens. E casas pitorescas lá ao longe. Caminho com calma sobre a terra batida. Trago sandálias simples, quase como se fosse descalça.
Ando um pouco, à luz da Lua. Cheira a pinheiros, mimosas e eucaliptos. Cheira a arvoredo e a serra. Cheira a terra quente. Quente como um abraço maternal.
Ando um pouco, à luz da Lua. Os grilos cantam, suaves, compassados. As folhas do bosque estremecem com a brisa que as afaga, ouve-se o bater de galhos contra galhos, ouve-se o vento. Ouve-se, ao longe, a ribeira que cai em pequena queda de água.
Ando um pouco, à luz da Lua. E depois corro. Deixo que o vente me penteie o cabelo, deixo que a morna brisa seja braços de um abraço, deixo que esta doce terra me seja a minha casa.
Sinto-me em casa.
Estou na terra de meus pais, em terra onde outrora se conheceram. Este chão murmura e grita as histórias de séculos passados e promete-me que estou em casa.
Sigo carroças e imagino-os na sua mocidade. Nesta pequena aldeia que deveria ter sido a minha.

Este ritmo que nos percorre, na praia

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Quero o prazer astuto de beijar o mar.
Quero a liquidez de tais lábios, magoosos de tão salgados. Quero esbracejar, entrar na areia e encher-me nela, rebolar-mo-nos, movimentos bruscos e convergentes, eu contra ela, ela contra mim, rebolamo-nos, movimentos doces de esgares de prazer. Este ritmo não pára, são os tambores do pulsar da vida, os tambores do pulsar do coração, este ritmo não pára, eu nela, ela à minha volta, abraçando-me, e esquecemos quem somos, esquecemos o que somos, somos tudo o que sentimos e sentimos este ritmo cada vez mais forte, cada vez mais rápido, cada vez mais intenso. O mar, o mar enche-se de ciúme, inunda-nos no nosso abraço, agarra-nos, está no meio de nós, percorre-nos a espinha, cavalga-nos o corpo e, naquele exacto momento, estremecemos, estremecemos em frio, em fome, em prazer do que somos, em prazer de quem somos e neste momento somos o que sentimos.

Quero afligir-me nas tuas águas
Quero afogar-te em minhas mágoas
Quero afogar-te em mim
e roubar-te a respiração.
Quero cravar-te nos meus braços.

Nos verdes campos

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Era um dia nos verdes campos. Estávamos sós, estávamos calmos. Éramos, seriamos só nós. Enfim sós.E sós que fazíamos? Conjugávamos todos os presentes do indicativo de olhar. Olhávamo-nos profundamente e explorávamos todas as variações, cada degrau da graduação, um arco-íris de modos de ver.
O campo é simples. É um céu, algumas nuvens, é uma clareira verdejante, algumas árvores. Sós estamos. No campo. Tu comigo, eu contigo - e sem querer estar mais além deste momento e deste lugar.
Tu moves-te com agilidade, uma certa destreza adquirida com o passar dos tempos corridos a pontapé. Eu vejo-te tão eficaz e por fim compreendo que tu és imaginário, és uma sombra de vapor que parte da minha própria cabeça e que se desfaz num gesto mais ousado.
Estás comprometido. E eu amo-te.
Fecho os olhos e deixo as lágrimas correr.
Antes amar e não ser correspondido
Antes chorar por não amar
Que perder de um modo tão dramático o nosso amor, a nossa alma gémea.
Adormeço na clareira, agora à beira rio. Quis contar-te algo, descrever-te a luz do sol que se espelha na água e brilha como se amanhã não houvesse, mas depois lembro que és imaginário. Amo-te e por isso te choro.Levanto-me e parto para casa.
Para a nossa cabana, para a minha cabana. O meu abrigo provisório, sempre provisórias são as minhas casas. Nela olho para as paredes ocas, para as prateleiras vazias, para o espaço que sobra em excesso da tua ausência. Recordo uma vez mais que não existes. E que nunca te hei-de ver.
A um canto, um colchão e um saco-cama. Uma almofada, uma boneca de pano. Uma lanterna, uma vela. Uma mochila meia aberta.
Ainda só pernoitei uma vez nesta casa, neste outro lar construído do nada. Quanto tempo serei capaz de ficar? Não me interessa - as minhas necessidades logo o hão-de ditar. Estou à mercê do momento, de cada momento.
E a cada momento sei que te amo e que ainda não te encontrei e que não posso estar contigo. Talvez nunca.
Comigo trago meia dúzia de livros. Os meus queridos companheiros de viagem. Três cadernos, duas canetas de tinta permanente, recargas. A história de uma amante da vida que sofreu toda a infância perdas tão duras quanto pôde aguentar. A história de duas viajantes solitárias que correm o mundo procurando melhorar as vidas às suas voltas com chocolate e toda a sua magia. A história destas duas viajantes que se tornaram quatro. A história dos adolescentes musicais. Ah, histórias! Depois, as minhas. Um diário, um de notas e um de histórias. Hoje e amanhã, tal como ontem, continuo a ser o que escrevo e é na escrita que continuo a revelar-me verdadeira.
Afinados seguem comigo vozes de cantares. "Perde a estrela d'alva o seu fulgor", canta Zeca Afonso, em doces acordes, embalando algum menino, ou menina como eu. Pequena, adormeço, após fechar os olhos. A Lua entra pelas frestas do telhado. Quis amar-te tanto e quis tanto estar sozinha que agora essa é a dor que mais me angustia.
Já nem o ter de andar nómada me causa transtorno - não, é mesmo para isto que nasci - é a tua ausência eterna, o vazio da tua não presença que nunca existiu. Quero-te algures comigo, para provares o café matinal que exala da cafeteira improvisada, para saboreares o chá da noite, o calor que conforta por dentro e prepara já o corpo para repousar.
Querido, querido.
Sinto-te tanto a tua falta, nesta casa, cada canto tem menos vivacidade por tu não estares comigo.
Liberta-te das tuas inexistências e impossibilidades e vem sentar-te comigo, vamos os dois ver cometas à nova Lua.

Natural

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Vejo pequenas estátuas douradas feitas de trigo. O pão é o nosso ouro. O nosso dinheiro, a nossa vida.
É tudo o que temos.

Vejo um imenso azulejo de lápis-lazuli. O céu é o nosso azul.

O fogo os nossos ruis, a verdura as nossas esmeraldas.

A água cristalina são os nossos diamantes.

A névoa é um véu de prata.

Para quê procurar pelos recantos e profundezas do mundo se a riqueza abunda à superfície?
O pequeno lince fita-me com cautela. Estendo-lhe a mão e imobilizo-me. Espero. Ele avança com pequenos passos e atreve-se a aproximar o focinho. Fecho os olhos e reabro um pouco apenas. Mal respiro.
Atrás de mim, um ramo é partido por um coelhinho e esse som basta para o felino virar-se e fugir de mim.

O meu verdadeiro tesouro era ser capaz de acariciá-lo.

Expectativas

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Ninguém te pede para seres escritora.
Pedem-te estudo das matemáticas, das físicas, dos circuitos.
Pedem que te apliques no teu ofício de estudante da Engenharia Biomédica.
Pedem-te para fazeres relatórios, ninguém te pede para escrever.
Pedem-te que fales com os colegas, pedem que tenhas atenção, pedem que poupes dinheiro, mas ninguém te pede a dedicação que ofereces à escrita.
Ninguém te pede para seres escritora.
Mas é escritora o que tu queres ser.

Pequeno excerto dos Renegados

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Parou dois segundos.
Ela era a má da fita, a que todos odiavam, a que só fazia mal.

E ela gostava tanto de magoar os outros.
Sentou-se ao pé do sem-abrigo, ao lado de quem ninguém se sentava. Ele estava sujo e era louco.
"Ora, estou farta disto" pensou. E, pensado isto, beijou-o.

O sem-abrigo-louco tornou-se invisível,

mas ela não o largou, "não te atrevas a fugir-me"
porque tu és a única pessoa, percebes? és o único, nós os dois somos rejeitados por todos, não fujas agora, não me escapes
E continuaram num beijo profundo

E ele deixou-se rolar pelo telhado e caiu e morreu.

Agora era ela e o rapaz morto.

Rapaz morto, rapaz morto, estás aí?
Queres falar comigo?
Quero sim, rapaz morto. Eu não compreendo.
É porque nada há para compreender.
Também o suspeitava. Então, então, que faço?
Nada. Tudo. Alguma coisa. Vai dar ao mesmo.

Rapaz morto. Diz-me, por que não sinto felicidade?
Porque não existe.
Eu beijei-te e só senti vazio, porquê?
Porque não há nada para sentir.
Mas eu queria sentir algo!
Só há desespero e vazio e sonhos inalcançáveis.

Porque, quando se tornarem atingíveis, rapaz morto...?
Sim, deixam de ser sonho e tornam-se vazio.
E o vazio desespero.
Já sabes tudo.
Sei tudo o que há para saber.
Sabes que estou morto.
Sei que estás morto.
Sabes que gostarias de me amar.
Desde que tu me amasses também.
E se isso acontecesse
Seriamos infelizes.
Nada mais.
Estás morto, rapaz-morto.
Mais morto não poderia estar.
Odeio-te.
Estás apaixonada por mim.
Claro que estou. Não percebes que te odeio?
Compreendo-te. Amo-te.
Isso é mentira.
Pois é.

Outra vez para ti

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Eu sei que prometi não postar mais acerca dela, mas é o que me ocupa eternamente os pensamentos. Desculpem esta pobre alma.

Ela morreu-se-me e eu fiquei sozinha.
Ela morreu-se-me e eu desamparada.
E se tenho família e amigos e alegria,
Sem ela só me sinto mais sozinha.

Nos meus sonhos regressas,
Caminhamos noutra praia, de mão dada,
Sorrindo, as duas, sem pressas,
Como se a caminhada não fosse acabar

Mas a caminhada acaba sempre, Joanna
Acordo do sonho e tu não estás, Sophia
Assim deixaste-me esta nova Adriana,
Sozinha, oca, distante, fria...

E não consigo parar de pensar em ti
E não consigo para de te escrever
Naquele dia acho que também morri
Joanninha, sem ti, o que me vai acontecer?

O que é que me vou fazer?
Como vou sobreviver?
Por que hei-de viver?