Já foste

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Ele olhou para o céu. Era um dia especial.

A árvore já estaria farta da sua existência. Decidiu sair.

Chegou-se mais para a ponta do ramo.

Finalmente. Era a primeira vez que ia voar.

Abriu os braços e saltou. Abanou muito as mãos.

Fechou os olhos. Sentiu o ar a bater-lhe na face e a despenteá-lo.

Um pensamento de um segundo atravessou-lhe a mente:

"Não deveria ter começado mais em baixo?"

Depressa o abandonou. Não iria falhar o seu primeiro voo.

Ouviu um grito dentro de casa. Parecia-lhe a sua mãe.

Sorriu. Teve outra hesitação, mesmo ao pé do chão.

Ia-se estatelar. Convenceu-se a um metro do chão de que conseguia.

Abriu os braços e impulsionou o corpo para a frente.

Deve ter batido num pássaro, ou assim, porque sentiu uma pancada.

Mas, depois, voou como nos sonhos se voa.

Mini-contos em 6 palavras (ou menos)

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*Ele gostava de Beatles. Eu não.
*Aos sábados, ouviamos Antena 2.
*A minha vida foi um beijo.
*Eu morri. Reincarnei como um gato.
*Separaram-se e um foi viver para Carnaxide.
*Deitou-se cedo e nunca mais acordou.
*Reformou-se velho, paralítico. "E agora?" perguntou-se.
*Ele veio viver para a cidade. Matou-se.
*Ouvia vozes. Deram-me medicamentos para esquizofrenia.
*Fui ao psiquiatra pedir um autógrafo.
*Resultado da autópsia: cancro da mama.
*A minha vida foi em vão.
*Almoçámos peixe. Engasguei-me e morri, lentamente.
*Ruínas majestosas, imponentes. Demoliram-nas. Construiram prédios.
*Declaração de expropriação: tem até amanhã.
*"Amo-te". E seguiram as suas vidas.
*Há formas melhores de se morrer.
*E nunca foram felizes para sempre.
*Ganhei fama e fortuna a escrever.
*Ele saiu e nunca mais voltou.
*E acabou terrivelmente mal, como sempre.

"Libertos das amarras do arrependimento"

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"-se morresses amanha, arrependias-te de nao teres feito algo?"

Se adoeço até pensar dói,
Não por o sofrimento provir do pensamento,
Mas porque as ligações sinápticas lá estão
E parece que acentuam a dor de cabeça.

Eu sei que não é verdade,
Que o cérebro não dói,
Mas hoje estou doente,
Mal consigo pensar
E os irrealismos podem-me sempre parecer realidade.

Hoje ainda estou doente,
Não tanto como tenho estado,
Nem conseguiria escrever;
O suficiente para magoar.

Agora, mais que sempre,
Que tantas são as vezes que penso nisto
Quase nunca com esta intensidade,
Reflito naqueles momentos desperdiçados
Com aulas, trabalhos de casa, estudos
Que me foram ocupando a vida
Sem que eu me pudesse defender.

Se eu morresse de febre
Hoje, até, quem sabe
E esta tivesse sido a minha vida
Que vida teria sido esta?

Se houvesse uma bomba no metro de Paris
Qualquer outra desgraça
Que me tirasse a vida
Ou qualquer outra capacidade
E se eu o soubesse de antemão
Que teria eu feito?

Mas chego sempre à mesma conclusão.
A de que, afinal,
Não importa quando morra
Que tem tudo sido em desperdício,
Excepto, talvez, Paris, Vigo e mais,
Que o tempo não volta atrás
Nem pára
Que não posso voltar à minha infância,
Minha juventude
Que, enfim,
A minha vida é oca
Que ma impuseram oca
Que a planeio oca
Que todos oca, oca sempre

É como se morresse um bocadinho
A cada bate do relógio
Porque não posso recuperar esse momento
E choro esse momento a cada seguinte.

E os outros dão-nos os modelos
Os pressupostos momento de felicidade
Os casares, os teres filhos, os tirares boas notas
Os seres aclamados, os tantas, mas tantas
E tantas que eu não me sinto feliz com elas.

Queria uma vida que valesse a pena
Queria ser mais que um esteriótipo, marioneta
Que faça o que faça
Não serei digna de saber qual a minha hora
Porque não será o agora pelo depois,
Para compensar o antes
Que merece ser chamado de vida humana
Mas agora pelo agora,
Simplesmente por agora,
Libertos das amarras do arrependimento
Porque o antes não interessa
E o depois está para vir.

Mas quem nos deixa ser nesta sociedade?
Lá vamos nós pela mão dos adultos,
Dos crescidos,
Dependemos deles
E são eles que nos enchem,
Como foram, outrora, enchidos
Desses momentos de desperdício,
Dos quais nunca nos libertamos.
Coitados, querem-nos fazer felizes,
Dar-nos um futuro.
Fazem-nos pensar que o objectivo é ser adulto,
Quando, mais que o agora,
O objectivo da vida é claramente a infância
E a restante vida é um mero objecto
Para dar origem a mais infância.

Quando o descobrimos é tarde de mais,
Tentamos alegrar o mundo com mais infâncias
E o mundo agradece-nos
Desperdiçando-lhes todos os momentos,
Relembrando-lhes de que têm de pensar no seu futuro.

A dor de cabeça já fraquejou um pouco.
Sabes que mais?
Não choro estes momentos que não prestei atenção
Às coisas da aula,
Que escrevi, ao invés,
Porque escrevi um bom escrito
Que valeu bem a pena de viver,
E não foram desperdiçados.
Já posso ser feliz
Se morrer agora, morro descansada.

"-isso não seria um bocado hipócrita?"

Claro embaraço

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Todos os dias a tortura

Vestir-me conforme;

Não premite mais a loucura

Que não saber como fazê-lo.

Falho na adaptação.

Mas tenho esperança

De que se representar

Talvez possa fingir sem ser

E ser sem me trair

E saber ser (fingir) socialmente.

"E mentira está em ti."

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Para Alberto Caeiro.
Em jeito de resposta minha.

"«Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?»

«Que é, vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?»

«Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram.»

«Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti.»" - Alberto Caeiro

Tal como um livro é menos vazio
Do que letras pintadas a tinta,
Também o vento me diz mais que
Ar em movimento.

"É o frio que vem!",
Diz-me o vento de Inverno
E despenteia-me, saboreio-o,
Suspiramos.

Vamos partir ambos,
Ele mais cedo e depressa que eu,
Mas um dia juntos.
Despeço-me, até para o ano.

Devaneio Inverno

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Passa o vento, em devaneio,

Esfria o mundo, gelo por dentro.

A chuva vem, mas não cai neve,

Lava o mundo de desilusões.

É Inverno mas não faz mal.

Agasalho-me, e é confortável,

Sento-me confortavelmente à lareira.

Só a pura neve branca

Teima em não cair

E assim se passa o Inverno

Com o nariz gelado.

Se eu falo (eternamente incompleto)

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[eternamente incompleto - por causa do Samuel ¬¬, e que ninguém mais se atreva a distrair-me quando escrevo]

Todos me dizerm que estou maluca
Se começo a falar sozinha.
E eu calo-me.
Porém, não me acharia íntegra
Se não ficasse a remoer
(Que fico),
Sobre quem será mais maluco
Se eu, que penso e falo para mim mesma,
Se os outros, que são ocos, quem sabe,
Ignorantes do mundo,
Atrevendo-se a não pensar.

Estreia

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Não tenho coragem para escrever nem um vocábulo
E enfrento o medo de mim própria,
Da caneta a roçar o papel,
O medo de tentar ser e assim não ser,
De tentar ser grande
E escolher o caminho à estupidez.

Por isso escondo-me de me estrear
Num mundo de pensadores
Para que não nos estraguemos,
Tanto o deles como o meu,
E para que possamos viver em conformidade,
Sem que eu me avarie.

Boa sorte (se fosse), Adriana

A Esquizófrenia é a Alma do Negócio

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[Para o Rafael]
O que é essa gente que procura Deus senão esquizofrénica? O que distingue aqueles que falam com personagens imaginárias e creem nelas daqueles que rezam, falando com Deus, e que vão à missa?
Só porque muita gente me diz que o senhor deus é real, não quer dizer que eu acredite nele.Só porque muita gente me garante que Edgar Perry não é real, não quer dizer que eu deixe de pensar assim.
Só porque são muitos, não quer dizer que tenham razão.
Ora, sou esquizofrénica e tenho todo o direito a sê-lo.

Simples

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A explicação psicológica para os meus escritos resumem-se nos seguintes propósitos (É assim): O meu cérebro transmitiu, para o meu organismo, informação para se movimentar (Eu fui), num momento em que o Sol, lá tão alto, iluminava tantos seres e lhes dava vida (um dia), para, na verdade, eu me cingir às funções realizadas pela zona frontal (ao mercado) e encontrar-me para que pudesse trazer ao papel (comprar) inspiração para mais um (meio quilo de maçãs). E assim se resume a minha simples mentalidade, regateando e perdendo.

Os Insectos são Deus

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[Para o Samuel]
O corpo inicia a sua decomposição. O banquete começa. As moscas põem os seus ovos. As pupas eclodem e vão para Sul. Sudeste e Sudoeste, por vezes, mas nunca para Norte. Os Insectos são Deus porque recebem o corpo com o seu banquete divino. Os Insectos são Deus porque fazem da morte vida e prosperam. Os Insectos fazem tudo e vão a todo o lado. Os Insectos viveram desde sempre e para sempre. Os Insectos estão em todo o lado e sobrevivem em todo o lado. Os Insectos sabem tudo porque compreendem o que realmente importa: viver aquilo para que somos feitos.

História de uma folha

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[Para a Giselda]
Uma árvore criou, um dia, uma folha e várias irmãs.
Durante a Primavera, manteve-se verdinha, como as irmãs.
Chegado o Outono, ela e as irmãs mudaram de cor e prepararam-se. Prepararam-se para cair. Prepararam-se para lutar.
Quando os primeiros ventos se ergueram, a folha resiste. Depois apareceram as geadas e a folha não aguenta mais e cai. A folha começa uma nova aventura, num mundo desconhecido, fora dos ramos da mãe árvore.
O vento passa e a folha, que mais poderia fazer?!, deixa-se levar, varrida pelo sopro que atravessa as ruas.
O vento acalma e pousa a folha, no jardim.
Então, aparece o varredor que apanha a folha e deita-a fora.
Qual quê? É uma folha que, por mais insignificante que possa parecer, já tem experiências, já tem uma história. É uma folha que ultrapassa o seu valor. É uma folha que se deixa viver.
[V2,E2,O5ºI,SMS,FP]

Ainda me lembro.

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[Para o Francisco P.]
Já passaram 3ooo anos. A infância já se foi, o que foi?, mas é a única que me lembro. Era um riso eterno por uma palhaçada. Uma brincadeira, por tudo e por nada, de qualquer maneira. E uma tristeza rapidamente esquecida, pois nenhuma é importante. Agora crescemos. Tanto que mudou em 3ooo anos! Mas ainda nos rimos por menos de nada. Agora, és um extraterrestre marítimo cuja espécie comunica através do riso. Longe e o que importa? Ora, esquece lá isso! Dá cá um abraço e até à vista. Até daqui a 3ooo anos.

Manifesto Outono

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Sentada e melancólica. É como o vejo. As árvores perderam o monótono uniforme. O verde tornou-se verde, amarelo, laranja, vermelho, castanho, roxo. O todo tornou-se na parte. E o vento, macio e rebelde, abraça as folhas e deixa que a gravidade as pouse no chão. E o caminho enche-se dessa camada, desse tapete colorido, num quadro mais belo que qualquer cidade. Depois das chuvas lavandeiras, vem o manto branco e fresco que anuncia um bom Inverno.
Assim se vai Novembro.

A Verdadeira Conspiração (ou Esperança)

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[Dedicado a Edgar Perry]

Tentamos. Começamos por nos parecer com eles. Procuramos. Encontramos o seu controlo: filmes, livros, TV. Avançamos. Começamos, aos poucos, a introduzir coisas novas. Modificamos. E as mentes vão mudando, inconscientemente. Infringimos. Determinamos o que é fixe em função dos nossos interesses. Prevalecemos. Somos grandes e invejam-nos. Reinamos. Nascem novos seres com linhas de pensamento. Dominamos. Cultura mudade. Sociedade desestupidificada.

A verdadeia inspiração (Corrigida)

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[Também não foi a minha ideia inicial, mas sempre está mais próxima.]

Cagai no mundo, nas mentes e nas pestes.

Desprezai os vazios, os que quizerdes e os outros.

Escutai aqules, os que não vos abandonaram.

Mas principalmente falai alto e grande. Pois sois vós que realmente importais aos vossos olhos.

Reflecti neste conselho para vós.

A verdadeia inspiração (Conselho)

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[A verdadeira inspiração veio quando não podia escrever e, quando pude, foi-se. Por isso este não é a minha primeira inspiração, nem a dor fingida.]
Cagai nas vestes, no aspecto. Desprezai essa gente que se preocupa com isso. Escutai o outro, quando é correcto. Confrontai aquele que quer ser submisso. Acabai com aquele que quer dominar. Preincipalmente, falai com alma e persuasão, convencidos de que tendes razão, para as multidões que hão-de chegar.
Para que vos preocupais com o mundo, com os pensamentos do mundo, com as opiniões do mundo?
Libertai-vos do mundo, e sereis felizes.

Desensaio sobre a morte

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Não quero falar sobre o fim,
Vou ter depois muito tempo para o matar.
Mas surge uma dúvida em mim:
"Como será acabar?".
E não respondo, por agora,
Não é nisto que desperdiço o meu tempo.
Mas reflito, pela vida fora,
Desperdiço um bom momento,
Só na dúvida do que demora,
Do destino de toda a gente.
O meu cérebro há-de perecer
Sem que descubra o meu eu
E, sem que eu descubra o meu ser,
Para os outros, só mais um morreu.

Para quem servir

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Eu não te quero estragar com o mundo. Pena quereres fazê-lo sozinho. Nunca poderei falar contigo, nem perguntar "será que viver vale a pena?"
.Não poderemos ter pena dos ignorantes felizes nem invejar a sorte dos loucos. Não. Estragado com o mundo, serás como os outros, um triste de um feliz estúpido. Viverás como se nunca fosses morrer, morrerás como se nunca tivesses vivido. Sem pensar. E eu, para já, vou continuar sozinha, comigo e com o espelho, a pensar...

O que eu queria agora era...

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[Para a Ângela]
Eu fui um dia ao mercado comprar meio quilo de maçãs. Entrei no mercado e era tanta a algazarra que não encontro a tenda das maçãs.
O Mercado cheira a maçãs.As maçãs sabem a algazarra. A mercado.
No mercado, encontro a tenda das maças e compro meio quilo. De maçãs. E, com meio quilo de maçãs no saco, saio do mercado. Já não volto hoje ao mercado, fui naquele dia comprar maçãs. Mas...
Roubo a última maçã do saco. Vou ao mercado comprar mais.

[o3.12.2oo8 - o:35 - finalmente descobri o que são as maçãs... custou mas chegou]

ATÉ ATINGIR A PERFEIÇÃO

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Parados. Ocos. Nada Mais.

Vazios. Repetidos. Que mais?
Pois.

Nem aqui. Nem além. Nada!

Nada! Só... O que me falta?
...
Caminhar à perfeição, desejoso já finito, visão poética que não estagna, que repara, nunca dogmática à perfeição.

Noite sem Lua

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Noite sem Lua.
Um cometa flutua.

Paro, um pouco, à beria-mar,
E deixo-me, por enquanto, levar
Por um discurso
Que nada me diz
E, enfim, escapo por um triz
A uma mentira com garras de urso.

Volto para casa à Meia-Lua,
Perdão, à Meia-Noite
E caio em mim.
Enfim.
Não saí.
Quem és tu?

Imaginação.
É de dia, ainda.

Ensaio

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O arco salta alegremente de corda em corda. Para cima, para baixo, depressa, mais depressa!

E os dedos deixam-se levar pelo ritmo, formando a mais espantosa melodia.

O ser já não é ser, é uma máquina impulsionada pelo ramo musical da arte.

Não há consciência, não há vontade própria.

Só um transe.

E uma melodia fantástica de Vivaldi, Mozart ou Bizet.

O meu Sonho caiu

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O meu sonho caiu à beira-mar, num dia de chuva. Ele caiu e eu aborreci-me. Não sonho mais à beira-mar, porque não há mais que sonhar quando se existe no sonho.

Aborreço-me.

Aborreço-me, porque, sem sonho, mesmo estando num, não há esperança, e, sem esperança, a vida é só vida, vida oca.

Porque, sem sonho, não há loucura naturalmente chocante.

Que aborrecido que é estar agora à beira-mar!

os vencidos II

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O inimigo não foi vencido e pretende continuar. Para nós, mais uma batalha perdida, tão grande a guerra para travar.
Um inimigo que subsiste através de gerações.
Um inimigo tão difícil de pôr travões.
E apesar de lutarmos por nós, sinto-me a fraquejar.
Já não sei, já não posso, não consigo continuar.
Quem somos nós?
Somos os pensadores, os poetas
os pintores, os atletas
os escritores, sem limites, sem metas
quem procura a fuga à decadência
num mundo
onde cada vez menos
se pode viver
sem se ser
outro
sem se fingir
não ser
quem é
quem sou?
já nem sei.
já não sei se vale a pena.

os vencidos

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(Nota: ler com Sonata ao Luar de Beethoven)

deixa-me morrer um

bocadinho. só um

bocadinho. só por

morrer. deixa-me

alguém a substituir.

uma marioneta, não faz

mal, é só para imitar.

ninguém dá pela

diferença.que me importa morrer? só

com o que cá ficar. por

isso põe um fantoche

no meu lugar. não

precisa de falar (eu não

falo), não precisa de sentir (eu finjo que não

sinto), não precisa de

saber (eu não sei se sei).

para eu parar. para que

eu morra sem medo do

que vou deixar.Sucesso é quando eu faço o que sempre fiz, só que todos percebem.

Gosto de mim

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Um certo mal que me faz
Perdendo este tempo que não sei de quem é
Sem sentido, sem rumo, sem orientações

Mas se à felicidade não sei se a quero
Ou talvez como a alcançar
Tudo me envia rumo ao desespero

E triste e desorientada
Arquitecto trampolins na estrada
Como quem gosta de voar

Um dado ópio que me atravessa as veias
As traqueias, um leve fumo
Penso e descanso
Pois o futuro há-de chegar




E um ridículo sempre ajuda
Um apetitoso rasgo de demência
Tiquetaqueando pela casa fora

Num hospício de insanidade mental
Prevejo que o meu ser deveria estar
Mas um ponto me impede

Nada me impede de ir pelo abismo
Excepto o quê? Eu ou os outros?
Morte certa de quem é louco
A loucura é um dom que tende a invejar

Marcho pelo fumo adentro
Já fiz quatro tercetos e três quadras
Sem rimas nem métrica, não-poesia
Sou eu, sou eu, viva! =D

Quem és tu?

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Vamos estar aqui com os pés bem assentes na Terra. Vamos estar aqui com cabeça, tronco e membros.

Está bem, então. O meu corpo vai ficar na cadeira até ao toque da campainha. Entretanto, porém, vou matá-lo por algum tempo.

Vou deixar o meu bem mais antigo nesta sala, oco, desprovido de vida, e vou-me iluminar bem longe, onde não há nuvens, nem cores, nem estrelas, nem pássaros, nem flores, nem glândulas endócrinas, nem Deus, nem louvados, nem abençoados, nem circo, nem vida, nem morte. Só eu.

Muito para além da filosofia, da psicologia, a verdade única. Cá, compreendo como funciona toda a matéria, cada mecanismo, cada lei, mas que me importa, agora, a matéria? Cá, desprovida de hormonas, estou desprovida de sentimentos. A matéria comporta-se de um modo tão simples d'entender. Mas, mas cá, sou só uma consciência. Não há corpo, pensamento, não há vapor, não há escuro. Não há, simplesmente.

E, uma vez cá, para quê voltar à aulinha? À vida?

Não vou revelar o único segredo que acho devido guardar. O motivo para que o meu corpo seja animado por uma espécie d'alma. Não o vou revelar.

Mas houve um motivo. E por esse mesmo motivo, tenho de voltar.

Através do conhecimento adquirido lá, que desde sempre conheci, reanimo o sistema nervoso. Foi como que um sonho que durou tempo nenhum. Para as outras pessoas, o meu corpo apenas piscou os olhos. Pessoas que não se apercebem do extraordinário milagre do corpo que, perante eles, ressuscitou.

Um único ser soube. Um de pensamentos e impulsos. O software que ajuda a animar o meu corpo. Ego. Ela tenta imaginar a minha viagem, imaginando um fantasma a sair do corpo que partilhamos, a voar, até às estrelas. Mas duas palavras bastam para descrever o lá: não há.´

E tu, Ego, imaginas luzes d'iluminação, campos verdejantes, um sorriso. Falta-te imaginação, Ego. A espécie humana tem lapsos d'imaginação.

Possui grande criatividade, sim, mas falta imaginação.

Eu sou o nada, Ego. Sou o vazio na tua vida que não compreendes. Sou nem um arroto d'ar da tua lata de refrigerante. Sou o nem. E, no entanto, sou tudo.

Por que não?

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Por um momento, gostava de saber, para além de quem sou, que tipo de inteligência criativa tem o ser humano. Olho à minha volta e não compreendo. Talvez seja da idade, à qual tantos se prendem, que ainda não me permitiu amadurecer o suficiente para que eu perceba, enfim, coisas de adultos. Coisas de adultos. Não compreendes porque és muito nova. Achas que era bonito as pessoas andarem por aí aos saltos cada vez que lhes apetecesse, Diana? Achas que era bonito fazermos todos figura de palhaços?
Acho.

Acho muito bonito. Saltar à chuva, enquanto caminho na rua. Saltar de uma casa para a outra mal pondo os pés no chão. Achas que isso são comportamentos de uma pessoa séria, Diana? Pois isso não acho. Mas acho extremamente bonito. Mamã, por que não há trampolins nas ruas para saltarmos de vez em quando? Por amor de Deus, Diana, isso não são conversas de uma menina crescidinha!
Eu só queria um pouco de liberdade. Mas quando falo dela, enchem-me os ouvidos com "no meu tempo é que não havia liberdade" ou "se tivesses vivido antes do 25 de Abril, não dizias esses disparates" e tantas histórias do 25 de Abril...
Foi bonito, o 25 de Abril. Foi um pouco mais de liberdade. Mas o mundo evolui. Por que despreza o ser humano a sua criatividade?Por que não aproveitamos a liberdade que nos foi dada para a usufruirmos totalmente?
Acabou a conversa, Diana. Os trampolins nas ruas não são bonitos e ponto final.
Mas eu vejo-te, mamã, a chegares a casa, todos os dias, tão cansada...
tão triste...
Não será pela falta de coisas bonitas?

Os grandes e superiores

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O senso comum... grande diferença entre o povo e os filósofos. Oh, sim, a Filosofia questiona, a Filosofia reflecte, a Filosofia é grande!Que profunda é a Filosofia! Que iluminados são os Filósofos!Que acéfalos!"Temos cabeça é para pensar" - e lá vão eles, balançando o seu cu de escola em escola, sempre tão inteligentes, tão superiores!Mas eu vejo-os... será que só eu os vejo?... vejo-os a viverem a mesma vida que o senso comum. A adaptarem-se à vida que lhes mandam viver ou, então, abominam a mudança e tornam-se "conservadores". Tal como o povo. Só eu imagino e crio trampolins nas ruas e vou de sala em sala por trapézios e deixo que chova num quarto e tenho aulas ao ar livre... e caminho à perfeição... à reversibilidade... à verdade instintiva, sem problemas. A maior beleza de uma teoria não é, com certeza, ser refutável."Nós pensamos mais. Nós pensamos melhor." Eu crio. Eu invento mundos. Eu descubro verdades.

Só hoje, um mimo de nervos em franja

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Pressão, hoje depois de sair. Com problrmas a pesar mais que a gravidade, como poderia sentir-me leve como ontem? A gravidade é relativa e eu estou nervosa, pregada ao chão. Não vos consigo ver nem ouvir, porque hoje fiquei nervosa e caio e choro, triste Diana. Não há chave que não a mimnha e agora, outra vez, fiquei nervosa e o que faço agora para aliviar? Inspiro e expiro e o meu corpo fecha-me cá dentro e eu não posso sair e ele só pode escrever, mas não o que eu quero, não obras-primas, só lixo, lixo, lixo. Lixo e nervos.

Eu quero

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Eu quero
Escrever
Escrever
Sempre que me apetecer
Escrever
Escrever
Até não mais poder
Escrever
Escrever
Fazer uma pausa para ler
Escrever
Escrever
Mesmo sem nada acontecer
Escrevinhar
Rabiscar
Errar
Riscar
Até a aula acabar
Escrever
Escrever
Rebentar co'a escala
Escrever
Escrever
Com HERROS
Sem eles
Sem 20 a Português
Escrever
Escrever
Q'é o que me faz viver
Assim
Feliz
Escrever
Eu quero

De uma avó para a outra

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Também tu morreste
Avozinha
Diz-me, para onde foste?
Aquela debaixo da terra já não és tu
Avozinha
É só um corpo de ossos
Que eu ofereço flores
E eu quero saber
Onde estás a morrer
Avozinha
Que a viver não te vejo
Como podes ter desaparecido
Avozinha?
E as tuas histórias
E a tua mãe
E a tua irmã
E o teu filho
E só eu fiquei
E a minha mãe
E a mãe dela
Que tu
BisAvozinha
Desapareceste
Dos olhos daquela que recebe as minhas flores
E todas as noites me pergunto
Onde estás tu,
Avozinha?

Do mundo que me deixam

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Que somos nós a geração futura. Que a nós nos cabe decidir. É o que vocês dizem de nós. E, consequentemente, vai ser em nós que vão depositar os vossos problemas, os vossos erros. Em mim, no meu irmão, nos nossos amigos e em toda a nossa geração. Para que os responsáveis sejamos nós e não o pobre e velho moribundo que hás-de ser. Cá estão as consequências das tuas acções. E "Já não vou estar vivo quando isso acontecer.", mas vou estar eu. Não quero saber se um dia vais morrer, porque é por tua culpa que eu vou ter de aguentar o que aí vem. Não sei nem faço ideia do que vou herdar, mas quando isso chegar... é algo que vai acontecer, sabes? Ou não sabes? Mas sou eu que vou ficar mal, sou eu que vou ficar num mundo sem solução. E que mais hei-de fazer? Porque és tu, que não te preocupas comigo nem com o meu irmão, só contigo, tu é que tens de mudar o mundo primeiro. Porque não vês o que fazes aos teus semelhantes, podias ser tu!

Agora eu, primogénita, estou sozinha. Não, estou contigo, meu irmão, vamos fazer o quê com o legado dos nossos pais? De braço dado, pelo único caminho que nos deixaram, vamos nós para o abismo, caminhando, um passo à frente. Olha para isto! Daqui do alto do abismo, olha para o mundo escuro que nos deixaram... Diz-me, agora, o que fazemos? De braço dado, para o fim do mundo, eu contigo, só nós dois... E a neve, lá em baixo, é a única visão bela do fundo do abismo. Senta-te aqui, ao meu lado, a contemplar o fim do mundo.

Chanson du Vent

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Uma massa de ar sobe, desce, leva tudo à sua frente. Sobe, desce e sibila por entre o espanta-espíritos, como que a chamar alguém... V’là l’bon vent... O Vent du Nord, vento da coragem, traz os meses do Inverno, traz o frio, o gelo, traz o cheiro a florestas e sabor a hortelã. O Vent du Sud, vento d’amargura, traz os meses de Verão, traz o calor, as tempestades de areia, traz o cheiro a baunilha e sabor de chocolate-pimenta. V’là l’joli vent... tocam os timbales e as charamelas e as campainhas tilintam. É o vento a sonhar com quem ele quer... chama-o, chama-o, assobia nas casas, tilintam os espanta-espíritos. Arranha o cabelo e voam capuzes. V’là l’bon vent... As folhas batem-me e faço as malas para o mundo à minha frente. Ma mie m’appelle, mon vent m’appelle.

Amargura

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Uma mancha que, por mais que a queiram ignorar, há-de destroçar-me, até desaparecer.

Num canto funesto dos meus sonhos, lá está ela. Oiço-a a soluçar, a suplicar, a pedir ajuda, e a sua dor torna-se na minha dor, os gritos não desaparecem e vêm comigo de casa para a escola para casa. Basta-me piscar os olhos, para ver a sua imagem, aquela menina, bem mais nova do que eu, atirada para o chão, como um trapo. Sei que foi vendida, pela família, por pouco mais de um euro, a um desses bordéis de onde ela nunca vai conseguir escapar. Sei, porque estes não são sonhos comuns, aparentam ser clarividências, visões, rasgos de revelação do que vai no mundo. A raiva, a dor, a angústia latejam, apertadas, no meu peito, e quem sou eu para sorrir perante a desgraça da pobre Radha? A crueldade de que alguém é capaz contra uma criança atormenta o meu coração. Subitamente, uma sombra abate-se, imensa e escura, naquele lugar de sofrimento, e a menina cala-se. Ela sabe e eu também sei quem é: a mulher gorda, dona do bordel. Traz mais um dos clientes, um porco javardo imundo asqueroso que não merece sequer tocar em Radha. Para a velha gorda, porém, as prioridades avaliam-se pelo dinheiro que lhe oferecem pela pequena. Com que dinheiro se compra a dignidade de uma menina? O homem usa e abusa dela, ela nada diz, mas pensa, com dor, pesar, angústia, tristeza, medo e raiva e as lágrimas, que não pode confessar, sou eu que as choro, como se uma força maior que eu me ajudasse a sobreviver a tanto mal... pois eu tenho de a chorar. É o único apoio que consigo transmitir. Se ela pudesse, ao menos, saber que, no mundo, alguém chora por ela...
A toda a hora, vejo aquela imagem, aquele vídeo. Nunca, nem por um segundo, me esqueço de Radha, da dor de Radha, comigo, aqui, tão confortável, e Radha, lá longe, na longínqua Índia. Vejo-a cada vez mais ao longe, mas, à volta dela, estão todas as meninas com menos de 18 anos, ilegais, daquele bordel, todas aquelas Radhas, presas, contra sua vontade, à volta da que eu conheço. E esta fica ainda mais longe e eu vejo, primeiro, todas as meninas de todos os bordéis da longínqua Índia, depois, todas as indianas menores que são forçadas a ser prostitutas, mesmo nos sítios mais horríveis. O grupo é inimaginável, a figura não desaparece dos meus olhos, mais abertos que nunca; já não tenho voz e não sei que força é essa que não me deixa morrer por toda a desgraça deste mundo. Mas o grupo cresce, ainda há mais, muito mais, para chocar o meu frágil coraçãozinho de lebre. Vejo todas as crianças que, na Índia, são exploradas, violadas, traficadas, vendidas, negociadas, escravizadas das mais brutais maneiras, e sofro violentamente. Claro que há mais, esta visão não pode ficar na Índia... Então, todos os meninos e todas as meninas de todo o mundo que de qualquer forma sofrem, que das mais variadas maneiras vêem os seus direitos violados emergem aos meus olhos. Vejo a guerra, a fome, a pobreza, a exploração, a destruição, a injustiça, mas vejo sem ver, porque, apesar de o ver, nada vejo, pois a verdade, o seu tormento, o seu medo, a sua fome, a sua angústia, só eles podem saber, não eu, um ser imbecil que nada sabe. Perante eles, só vejo que os meus caprichos são arrogantes e que a racionalidade do ser humano, de que tantos se orgulham, é a causa maior deste pesadelo.

Espaço em branco

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Folhas e folhas
Inúmeras páginas
Que nunca hão-de ser escritas
Folhas quase intactas
Saltam do caderno para o lixo
Sem a ponta do meu lápis
Sem criatividade
Sem significado
Sem poesia
Folhas que, com certeza, não são minhas
Q' eu não sei brincar co'as rimas
Mas escrevo o que me apetecer
Folhas brancas, em branco, vazias
Tão brancas
Tanto espaço para eu escrever!
E, assim, peço às minhas colegas:
-Dás-me as tuas folhas?

O dia bom

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Branco. Branco fresco, hortelã-pimenta. O chão, os pinheiros, o céu... Saio toda de branco, mas descalça, porque não há-de tardar até que os meus pés fiquem brancos. Só os meus lábios contrastam. O meu sorriso vermelho de tanto o morder por um vermelho mais vivo. Beijo a neve, vermelha do meu sangue. Rebolo encosta abaixo, deixando o meu sangue escorrer, num momento bom e limpo que parece ter durado o dia todo. Porque até já está a escurecer.

Depois do adeus

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Maria espera, impaciente, o fim do discurso do padre, do barulho das pás na terra, do seu choro forçado. Agora que a avó morreu, ela é livre de ir ao velho sótão da casa que já é da sua mãe.
Sai da necrópole, desce a rua, até chegar aos portões enferrujados. Entra sem dar satisfações. Numa aldeia pequena como aquela, as pessoas não conhecem o significado de fechadura. Sobe as escadas e, pela segunda vez em toda a sua vida, respira o cheiro a velho do sótão. Sabe exactamente onde procurar. No mesmo sítio onde a encontrara à muitos anos atrás, está uma caixa de sapatos.
-Sabia que não me ias desiludir, avó!
Lá dentro estão recordações do passado: fotografias, cartas, documentos, bilhetes de comboio...
Maria pega no primeiro papel caído e começa a ler: