Bela Adormecida-de-olhos-abertos PARTE 1
Zozie
Dança do Puré
Quieta como uma estátua.
Não mexe, senão estala.É do brilho desta sala.
Colher e prato sem se tocarem.Engolindo sem fazer barulho.Tento ignorar mas não consigo.
É aquele tremelicar, o tlim tlimde uma colher de sopano prato da sopa.
Não se ignora.Então olho.Está velho, velho.
O braço treme, todo o corpo dança.Como se um sismo abalasse(Ou o comboio fosse eterno)
Fecho os olhos, mas o somnão se ignora.Está velho, velho.
Eu não me mexo,estátua de cristal,senão estalo.
Olho para outro lado.Movimentos agora ágeisDe quem já fez muitas rendas.
-Quem?Repete e faz repetir.Outra vez.
-Eu já lhe disse.Movimentos ágeis,mas o que se esconde?
Mera ideia
Ok, ontem estava a pensar e tive uma ideia.
No ano passado e nos anteriores ganhei o hábito de escrever notas nos livros da escola. Notas em forma de pergunta. Perguntando por qualquer coisa que fosse acontecer, por exemplo, "Como correu a apresentação de filosofia" ou "Qual foi a nota do teste de biologia". À frente deixava um espaço para a resposta.
Quando chegava a esse ponto do livro, já sabia a resposta.
Enfim, era um modo de aliviar os nervos, saber que um dia responderia.
Baseada nisso, ontem tive essa mesma ideia: fazer uma lista de perguntas destinadas a um dado ponto no tempo futuro para responder quando lá chegar.
Coisas idiotas, do tipo "Que fizeste no teu último aniversário" ou "Qual é a tua cor preferida" ou "A gripe apanhou muita gente", coisas mais sérias, como "Qual é o livro de que mais gostas", "Para que curso entraste", "Continuas a chinelar", ou perguntas realmente sigificativas, por exemplo "Já publicaste alguma coisa", "Já chegaste com os cotovelos ao chão", "De quantos MB são as tuas conversas", "Conseguiste mais alguma coisa da lista de desejos", "Já tens sapatos de ballet".
Aposto que já alguém me roubou a ideia.
Que se lixe, para mim é original.
Boas tardes.
Fantasmas da Noite (Reduzida)
Descortinando a noite os seus segredos.
Para já, fétidos.
É deste calor estrangulante.
Deixam-se os sonhos e pesadelos guardados a um canto. Dormir não serve, por isso escreve-se. Pensamentos vão e voltam pelo canal descortinado pelo escuro.
Não há luz que me distraia à noite.
Vem, vem, monstro, de mansinho. Demónio nocturno de pensamentos de cristal que de dia não fazem sentido. Dentro de ti tens tudo, trazes tudo, memórias, associações, estranheza pura e clara, como cristal.
Agridoce monstrinho. Contigo os meus medos, de pequena, regressam, ávidos de sangue que lhes escapou por entre os dedos, outrora.
Mas isso foi outrora.
Agora não me escapas, fedelha.
Mamã, tenho medo.
Tens medo de quê?
Do escuro. Digo. E o que não digo é: das bombas, do fogo, dos ladrões, das trovoadas, dos vulcões, dos meteoritos, da dor, da tortura. Tenho medo de ficar como a rapariga que roubava livros, receio-o acima da própria morte.
Cala-te e vai para a cama.
Ingenuidade dos adultos que desconhecem-me os pesadelos antes de adormecer.
Tagarela (cont.)
(Continuação)
Foi como se me tivessem bloqueado o corpo e a mente. A surpresa abalou-me de tal modo que todo o resto se apagou. Em primeiro, o vazio confuso da não coincidência com a minha recém formada conclusão. Depois, o choque arrepiante de quando fazemos, inconscientemente, algo proibido. A sensação de tentar apagar, proteger de situação desconfortável.
Maravilhoso cérebro.
E, mas só na esquadra, a repulsa de tão ridícula ideia. Consegui, finalmente, articular:
-Sair sem maquilhagem é crime?
Ele olhou-me com o mesmo prazer com que olharia um verme. Era bastante evidente que não gostava de insectos.
-Está, por acaso, a fazer troça de mim? Ou da Justiça? Faz parte de algum movimento?
Na minha cabeça, nada fazia sentido. A maquilhagem sempre me parecera assessória, simplesmente demasiado global para que alguém passe desprecebido sem ela.
Depois, também havia aquela treta da proteção.
Mas crime? Nunca, jamais ouvira falar em tal.
-Onde raio está isso escrito?
E, com toda a amabilidade, o senhor oficial mostrou-me o livrinho das Leis.
Não posso, assim, por Lei, encontrar-me num lugar público sem maquilhagem, por "ofensa à integridade pública". Assim. Tratam-me como se passeasse sem roupa, porque a "maquilhagem é a roupa da cara" e, qualquer dia, estamos todos a usar máscaras por Lei.
-Ofensa à integridade pública? - E, dito isto ri-me. Conheço putas, das de nome, não das de profissão, que andam mais nuas que vestidas e que ofendem mais a integridade pública do que quem quer que seja sem maquilhagem. A essas Meninas quem as prende? Não decerto o senhor polícia, babando-se de cada vez que as vê passar.
O senhor agente parecia cada vez mais preocupado com a minha ignorância e com o meu comportamento. E, quando me ri do paradoxo inscrito em "integridade pública", levantou-se, recuou e disse:
-Talvez fosse melhor falar com os seus paizinhos?
Olha-me este! Era senhora e agora já tenho paizinhos?
-Veja a minha ficha.
Porque eu não sei onde eles param agora. Mas não lho disse.
Não havia contactos de familiares nos registos. Só o meu e o do Doutor. Foi a ele quem o senhor agente ligou.
-Estive a falar com o seu psiquiatra. Ele disse-me que a senhora é esquisi... sofre de esquizofrenia.
E, de repente, senhora outra vez.
-Oh, estragou a surpresa!
Sim, sou esquizofrénica. E daí? Significa que tenho dias mais bonitos, quando me esqueço de tomar os comprimidos. Significa que vemos coisas diferentes, quer dizer, que eu vejo mais coisas que o senhor, ou seja, que vejo melhor.
E daí? Hoje tomei os comprimidos. Tal como um exame toxicológico poderia confirmar. Quando tenho episódios, não me maquilho, obviamente, mas também não saio de casa.
O mundo perde toda a importância e é tudo eu.
Dizem que é como certas drogas. Nunca exprimentei. É batota. Pedrar-se pode toda a gente, esquizofrenia genuina só 1 em 100.
Mas calei-me.
Vi nesta história uma fuga.
Toda a gente desculpa os doentes mentais, é a própria Lei que manda.
-O seu psiquiatra diz que os comprimidos bloqueiam a doença
Doença? Tenha calme, não se pega.
-mas que, ainda assim, se pode esquecer de maquilhar, algo que precisa de um espelho para reparar.
Para mim, make-up é como o cabelo:
Cada um usa como quer.
E, se não se quiser, não tem.
Mas parece que ofendo a "integridade publica", já corrompida com todo o resto, cuja existência já é, por si só, uma ilusão.
-Para resolver o seu problema
Problema? Nenhum, não me importo de ter a cara despida.
-creio ter encontrado a solução.
Era uma máscara.
Ajustável à minha cabeça.
Não sei bem porquê, fez-me pensar nas coleiras que se põem nos cães para não se coçarem.
E voltou a imagem, o pensamento de à uns momentos.
"estamos todos a usar máscaras por Lei."
Tagarela
4.05.2032
Não percebo por que sou diferente dos outros.
Não me consigo habituar.
Apesar de todos os dias repetir o mesmo.
Todos os dias desde que nasci que o faço ou mo faziam.
Já devia ser automático.
Como enrolar a toalha depois do banho ou vestir o pijama antes de me ir deitar ou ajeitar o maillot na ginástica, quando chega a minha vez, ou lavar os dentes ou fazer café pela manhã ou atravessar sempre na primeira passadeira ou afastar-me de grupos na rua.
É automático para todos menos para mim.
Porquê?
Talvez porque não ache que seja necessário como nos dizem.
Talvez porque aprecie as rugas e porque não gosto daquele brilho de plástico.
Talvez porque me sinto confortável, de manhã, sem ela, e porque quase suspiro de alívio, quando a tiro, à noite.
Porque sabe bem, como tirar o bikini no mar e sentir as ondas.
Porque não me sinto exposta por aí além, sem ela.
Seja pelo que for, a verdade é que tenho de ter um aviso no espelho para me lembrar de repetir o de todas as madrugadas.
Já me devia ter habituado, não?
E então hoje esqueci-me.
Saí à rua assim, como acordo.
Lembro-me até de ter passado os olhos pelo espelho.
Pelo aviso em amarelo. Estava lá, auxiliar de memómria, cábula do dia-a-dia, mas não lhe dei importância. Já me habituei a ele.
Ao aviso sim, não à mensagem, à semântica da coisa.
Em maiúsculas, como se o grafismo servisse de muito, "MAQUILHAGEM", qual sentença.
Não é que não tenha jeito, como acontece com a roupa, o que me faz consultar as figuras das modelos da LaRedoute, antes de me vestir. Até tenho mãos para me maquilhar. E fico a encaixar bem na prateleira de "Linda".
Não, jeito não me falta. É simplesmente algo que não encaixa. Não me parece essencial. Bolas, o ser humano não foi capaz de chegar até aqui sem maquilhagem? Não terá a mamã natura posto proteção na pela? Sinceramente, nunca fui grande crente das coisas que nos contavam na escola e sempre me pareceram particularmente absurdas as teses de que "a maquilhagem é a roupa da cara, protege-nos do frio e do Sol, dos factores externos que a podem danificar". Para mim, pega mais a versão de que a make-up "protege-nos" dos factores internos que hoje em dia ninguém deseja e que rotulam a naturalidade como imperfeição indesejável.
Pronto, já disse. Não gosto de maquilhagem.
Não estou a falar de toda ela, claro.
Venero pintar a cara para saraus gimnicos.
Encher-me de cores e explorar os degradées, fazer arte na pele.
Mas, com franqueza!, é um espectáculo, é suposto representar, esconder quem sou para além das espargatas e dos mortais à retaguarda.
É suposto usar uma máscara.
Ah, mas quando saio à rua?
Hoje, aconteceu.
Levei tempo a dar-me conta.
Olhares escandalizados que pairavam à minha volta.
Inspecionei-me. Deus, vestira-me, ao menos. Não estava nua, nem de pijama. Nem tinha uma meia de cada cor nem trazia chinelos de quarto. E lembrava-me vagamente de ter passado a escova pelo cabelo,
Em suma, estava decente e apresentável. Qual era o drama?
Não posso adivinhar quem chamou a polícia. Esta não tardou, só tarda quendo se tratam de assuntos efectivamente
importantes, e quando vi o oficial na minha direcção, chegui, finalmente, à única conclusão esclarecedora de tudo aquilo.
"Sangue"
Era óbvio, devia ter havido um homicídio no prédio onde vivo e eu devia ter a cara coberta de sangue seco do ketchup di hamburger que comi hoje, logo hoje, eu que não costumo comer hamburgers vegetarianos com ketchup, por me fazerem lembrar os do McDonald's.
Uma análise dos resíduos na minha cara, que também podiam ser dos morangos que comi depois do hamburger, iria, certamente, demonstrar que não havia ADN humano naquelas gotas vermelhas, tão desencadeadoras de olhares perturbados.
O oficial das forças políciais foi bastante previsível na sua introdução de discurso
-a senhora está detida
e logo ali me deu vontade de reclamar, porque me chamam senhora desde o primeiro dia em que me veio o período, apesar de eu ter 10 anos, e continua a não fazer sentido, porque não sou casada e ainda nem sequer tenho idade para votar e só não barafustei porque, primeiro, não se barafusta com um oficial que acabou de afirmar que estás detida e porque, segundo, a restante acusação me deixou preplexa
-por se encontrar num local público sem maquilhagem.
Tendências
Tendências
Escrito nos dois dias de 25 e 26 de Maio de 2009,
enquanto me têm durado as Tendências Homicidas.
por Adriana Gaspar
Acto I
(o das sensações fortes)
Cena I
(a maior)
Vês?
Não quero saber da justiça dos outros. Deram-me a vida, deram-me o mundo, agora bichem-se nas consequências.
Não, não me importo de matar pessoas, findar com os figurantes desta história.
Matar todos que tornam o mundo mais desagradável. Este irritante povinho é o mesmo de sempre. Que morra.
Nem a ditadura bastou para os apaziguar, porque comeu os errados.
Tomara que o mundo fosse corrido a uma ditadura decente, que dizimasse todos aqueles que fossem podres de espírito, em vez de encavernar as pessoas erradas em tribunal.
Tomara que uma faca de justiça bastasse, que a educação mudasse e que esses cabrões desaparecessem de vez! São eles que povoam este mundo de disparates! Não estão só enterrados em lama, são eles que a produzem massivamente!
A pocilga é culpa deles! E é nela que querem que viva.
Tomara que não saíssem às ruas proclamando os prazeres naturais e que se apercebessem do serem tão grotescos e se conseguissem mudar a todos ou suicidarem-se para que eu não tivesse de perder toda a minha vida à procura de justiça!
Que se lixe! Que morras tu, Homem, toda a espécie, para que se dê fim a esta dor de cabeça.
Que se encerrem todas as instituições, que se destruam todas as invenções, já que não há milagre algum que faça esta gente desaparecer!
Que me deixem ser ao mundo, eu e a minha faca, chacinar todos esses bonecos de plástico eternos. Deixai-me rasgá-los, deixai-me satisfazer esta vontade, porque eu não quero saber da justiça do estado!
Eu sou eu e ninguém mais me importa!
É a mim que devo satisfazer.
É comigo que me preocupo, por isso faço tudo à minha maneira.
Encravem esta sociedade naqueles que precisam de regras e de orientações, porque eu não preciso!
Fugir desta ditadura medíocre e trocá-la por algo de verdadeiro e essencial e vamos a ver quem resulta melhor.
Querem apostas?
Vês? Quem achas que me tornou assim? Foi o mundo que me pariu, que me cuspiu para dentro dele e me sujeitou àquilo que me fez como sou. Quem me criou foi o mundo! O mundo criou a sua autodestruição. E dar-ma porque posso!
Tomara que fizessem a tal bomba com 10 raios da Terra! Que engolisse a América, a Ásia, a África, a Europa. Todo o planeta.
E Portugal! Especialmente, Portugal! Que fosse em primeiro, para terminar a minha desgraça.
Que se rebente Mafra, Lisboa, Lousã.
Que se expludam os Algarves!
Que a Guarda saia do mapa!
Para que se deixe de tentar igualar Versailles com mediocridades!
Para que o mundo possa suspirar de alívio, e logo a seguir que se partam os Estados Unidos e no segundo depois a restante Terra e que não sobre nada, nem satélites, nem ondas, nem património para extraterrestres, merda, que nada pode sobrar deste decrépito ser que não pode jamais voltar a existir!
Que se eclipse tudo!
Ou então, deixem-me matar.
Sem vida decente não há vida alguma, somos mero animal instintivo, deixai-me matar alguém como quem mata uma pobre aranha.
As aranhas não nos obstroem a mente!
Só quem as mata!
Sim, Deus perdeu de vista o Adão de barro.
Vês? Vês como Almada tinha razão?
"E com pena fez outro de bosta de boi"
E os ratos roeram-lhe os miolos que nunca prestaram e das caganitas nasceu Eva, mãe de todas as Meninas!
Mãe Natura, nunca deveria ser crime limpar os produtores da merda onde vivemos.
Não achas, Mãe?
Deixa-me ir à caça da justiça, Mãe.
Vamos acabar com esses.
Vamos juntas, Mãe.
Cena II
O mundo julga-me porque pode,
por isso mato porque posso
ou talvez posso porque mato.
O julgamento não é mais que constatação de factos com castigo no fim.
Eu matei como pude para ter uma casa mais agradável e quem me julga não tem vontade de pensar.
Linhas guias há de um livro que lhes rege a vida.
A minhas delas não precisa, porque o mundo me ensinou assim e assim me deixou fazer.
Se nunca matei foi por não querer injustiças que metam meus pais em trabalhos.
Coitados, tiveram-me, nem sabiam que lá vinha.
Podiam-me ter matado à nascença, por acidente, pobrezinha, e faziam outro, como se faz nestes casos, mais uma produtora de lama.
Pobrezinhos, não sabiam o que faziam.
Nem o sofrimento que me davam.
Coitados, tristes, inocentes, pobrezinhos.
Não, não sou culpa deles.
Sou culpa dos produtores de lama.
Cena III
Diz-me que raio de justiça é a justiça de estado.
Um homicídio é crime?
Se pudéssemos julgar doenças, quais apanhariam maior pena?
Aquelas que te fazem adormecer, calmamente, e nunca mais acordar ou as crónicas, que dão mais sofrimento por mais tempo?
Talvez devêssemos perguntar às pessoas.
Matar um cagão de lama é como esfaquear uma crónica.
A destruição das almas já está feita, mas os que vierem a seguir já não sofrem.
(E que bem lhes faremos por privá-los disso?)
Que se danem, eles.
Quero, eu, viver sem estes cabrões comigo. O mundo cuspiu-me para dentro dele, a culpa é dele, ele criou-me.
E vou matá-los, estripá-los, desmembrá-los.
Matem-me a mim primeiro, se conseguirem. Tentem encarcerar-me, destruir-me, como fizeram aos meus amigos, vamos ver quem ganha.
Experimenta só.
Mas não tentes mexer no meu sentido de justiça.
Cena IV
Acabar com todos é poder dar o sorriso final. Malvados figurantes. Se a mesquinhes cegasse, o mundo seria governado pela mulher do médico. Mas a mesquinhes dá dinheiro.
E nós nascemos pré-fodidos.
E obrigam-nos a suportar isto.
Dividam-nos duma vez, bolas! Medíocres conformistas para longe!
Deixem-me em paz de uma vez por todas!
Não quero o mundo nem quero religiões nem quero sequer ter nascido.
Pobres dos que, como eu, se apercebem de que nos benzemos na lama e que o Lodaçal não é metáfora.
Vamos juntos! Vamos matá-los!
Por favor, dêem descanso à minha alma e satisfaçam a sede das minhas mãos. Deixem-me carregar as minhas espadas e abrir o peito dos infiéis e despojá-los do corpo onde não mereciam ter encarnado.
Dêem paz ao meu sossego, à minha cabeça. Deixem-me matá-los!, tou farta de figurantes! Já não o disse? Estou farta!
Acto II
(sossego)
Cena I
Fleur de lys
que se entranha. Gotas de rosa, espinhosa, pequenos morangos que ficam presos ao canto...
Extermínio de todos em cenário bonito, lama por sangue, lama por sangue, muito por pouco, lama por sangue, a mente acaba, lama por sangue.
Todos atarefados por calma.
E enquanto a vida se esvai pela ponta da minha faca fico um segundo mais calma, um segundo mais leve.
Com sangue se escreve, os infiéis findaram.
Com sangue se escreve, "25 de Maio de 2009, a lama foi trocada por sangue, os infiéis findaram".
Flor, faca de lis.
Finda os outros por mim, como ponta de caneta e a tinta é sangue.
Que bonito e plácido é hoje o mundo.
E os infiéis tornam-se úteis, tornam-se escritos maravilhosos.
Tomara que todos os dias fossem vermelhos e calmos como o de hoje.
Que todas as horas fossem desta paz d'alma, desprovidas de sensações excessivas.
Fleur de lys hoje está em paz.
Cena II
Boa, majestosa morte. Não há mais barulho.
Ninguém vai gritar por perdão nem por socorro nem por deus nem por futebolista nem por mamã.
Silêncio absoluto por fim. Calou, para sempre.
O sangue que escorre, sem força, e lama que já não tem quem a adore e evapora.
Boa, majestosa morte. Tão logo silenciosa, faca que rasga o ar como um lírio a acariciar a brisa, faca de lis que abre o peito como pétala de lis que tomba.
Todos mortos e agora já posso descansar.
Todos menos eu e os outros. Aqueles que têm fome de descanso, fartos da ânsia que os infiéis nutrem por nós. Sobrámos os anormais.
O corpo é bom, já livre do demónio.
Os inconvenientes foram.
Tinham-me dito para esperar uma ditadura. Estou farta de esperar. Boa, majestosa morte em primeiro.
Já não dói.
O mundo já é lindo, pela primeira vez alguém o pode apreciar.
Vês?
O mundo natural e o mundo artificial em perfeita sintonia, em perfeita beleza.
Todos mortos e eu em fim séria.
Em fim séria e com o poder na minha mão.
Em fim séria e livre.
Em fim com os meus.
Por fim nós.
Só.
Consegui, Mestre Almada.
Cena III
(Dedicado ao único tribunal que ainda me consegue castigar a alma)
Não fui má.
Fui agradável, fiz um bem ao mundo.
Vês?
Repara como é lindo o mundo, hoje.
Não fiz nada de mal. Fui rápida, de que serviam estas vidas que caminhavam à morte?
Não vieram cá fazer mais nada, estavam só à espera do fim. Dei-lhes o fim mais depressa, sem sofrimento.
Mãe, não, nunca fiz nada de mal, não fui má, não fui, mãe, não, não chores, mãe, mãe!, olha como é bonito o mundo, mãe, mãe?, mamã?, não gostaste, mãe?, mãe!, desculpa, mamã, mas não chores, porque eu fico triste, mãe, abre a tua mente, mãe, eles iam morrer de qualquer modo, eu não fiz nada de mal, mamã, olha, olha que agradável é o mundo, mãe, não percebes?, porque é que não percebes, mãe?, olha que felizes podemos ser, mãe, percebe, pára de chorar, mãe, preciso que tu percebas.
Mas, mãe, eu não sou um monstro.
Mãe, mamã, estás a sonhar, acorda!
Acorda, mãe, e vamos fingir que não se passou nada, que foi só um sonho, que esta vida não se passou e que esta gente nunca existiu, acorda!
Está tudo bem, mãe? Acho que tiveste um pesadelo.
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por Adriana Gaspar
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