Nem sei qual deveria ser o título

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Era uma vez um mundo onde as pessoas
Esta que até poderia ser uma boa ideia e que me poderia levar a algum lado interessante, mais para um que para outros, mas agora não estou com disposição para falar sobre isso. Porque, afinal, eu não sei nada da vida, ou tão pouco que pode encaixar numa qualquer metáfora ou hipérbole, comparativas e diminutivas, ou seja, sei coisa nenhuma da vida.
Bom, porque, afinal, a vida é feita também de sacrifícios e somos todos mártires e eu não quero perceber isso porque tenho preguiça e não gosto de. E porque os tenho de fazer, porque todos temos.
O que eu gostava de ter era alguma vontade de viver, era algum objectivo neste mundo
Era dançar à chuva sem ser olhada de lado
Era dançar à chuva e parecer linda, artística e alegre, como parecem nos filmes
Era dançar e parecer louca, mas a loucura ser algo bom, porque, afinal,
Era acabar o que começo
E era não dançar sozinha, não quero invejas, só quero dançar à chuva e à Lua, à luz da Lua e à sombra da Lua, sem que ninguém me aborreça com olhares ou risadas
O que eu adorava era não estar tudo categorizado e mandado
Gostava que não fossemos autómatos a responder às normas sociais,
Gostava que fossemos todos loucos
LOUCOS
LOUCOS!
Mas tristes são estes dias, tenho de ver tudo com a minha calma, perfeitamente serena, estranhamente compreensiva. Tenho de estar no meu lugar e fazer como me mandam.
Então vamos todos acorrer ao masoquismo que, no fundo, esses sacrifícios que nos clamam são puramente egoístas.
Faria um sacrifício por alguém que precisasse de um?

Faria?

Eu sou tão egoísta e mimada, tal como esperam de uma filha única como eu.
Eu sou tão obediente e bem comportada e nunca passo os limites e nunca falo demasiado, aliás, nunca falo,
eu nunca
eu nunca
Eu nunca tenho os pensamentos que era suposto ter.
Podem fazer de mim a vossa marioneta, mas nunca deixarei de ser a minha alma e a minha consciência e isso nunca saberão domar.
A menos que consigam.
Nesse caso, pobre, triste de mim.
Estarei vazia da personalidade que foi e tudo o que fizer vai ser falso, não fingido, falso.
Pobre eu que perdi uma amiga.
Precisava tanto de ti, agora.

Poço dos desejos

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As histórias que vamos ouvindo que já há muito se passaram
São histórias não nossas que contaram aos avós dos nossos avós
Que nunca souberam quem somos nós

Porque longínquos que tão longínquos que nós estávamos...

A nós nos perguntam, porém, as nossas histórias
Ser velho mal ajuda a conhecer,
Porque descobridores são as gerações que vêm

Que amam aqueles que andam
Que nadam pelo gelo e nada e puro e céu triste

E oh, que triste,
Que tristeza deslumbrante a do fogo do nada,

Do fogo gelado e cristalino,
Das pétalas que caem constantemente
No fundo do poço
Espreito

Espreito
Empoleirada,
Como se tivesse cinco anos
E grito para o fundo
Do fundo da minha alma

-JÁ VOU TER CONTIGO!

Do fundo da minha alma,
Grito para o fundo do poço,

-ESPERA POR MIM!

E do fundo da alma,
Deixo-me atrair para o fundo
Estou a cair,
Estou caindo,
Estou no fundo do poço.

Trecho do Suicídio

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Escrever e escrever sobre a escrita e sobre o escrito, quão redundante é, mas é o que sobra. Assim passo dias e dias, assim o meu tempo se passa, porque nada nele faz sentido. Vivo a vida apenas para morrer, pouco importa o que faça ou diga ou sequer escreva, pouco importa tudo, porque no fim irei morrer e no fim nada há-de importar. Viver a vida até ao fim, esperar pela morte, é penoso, como atravessar uma febre ou um deserto ao sol. O pior, é que me impõem este sofrimento, não me deixam morrer já. Pouco me importa o que dizem, porém, não poderia ignorar o sofrimento da minha família. É a consequência desta idade e destes tempos modernos, em que as pessoas demoram ainda mais a morrer, curam-lhes tudo. Em suma, tenho uma família viva que desesperava se eu morresse. Ignorá-los é uma opção, mas como posso tapar os ouvidos aos soluços da meia-noite, como encolher os ombros às lágrimas incessantes de pais sem filhos? Não consigo e com eles vivendo lá me vou conformando com a minha triste sorte, esperando a vez deles para depois provocar a minha.
Há quem diga que é preciso estar muito à beira do desespero ou não ter amor à vida. Posso desmenti-lo já: amo a vida e não desespero assim tanto, simplesmente vejo que não há nada que se possa somar a tudo, o fim será sempre o mesmo, as alegrias passam rapidamente, a dor mantém-se constante ao longo do tempo, a alegria é cada vez menos, a dor cada vez maior.
Se eu for o sentido da vida dos meus pais, que eles mal conseguissem continuar sem mim, só significava que até a vida deles já não tinha o sentido deles. Continuar a viver a partir da existência de alguém que deixamos só revela o quão pouco estamos preparados. A morte está sempre à espreita e é real e é quando menos se espera que atinge. Por isso a espero de braços abertos, sabendo que poderia continuar a viver mesmo depois de todos terem morrido, se quisesse viver. Assim, como não quero, é a morte dos outros que espero. Se ela me apanhar primeiro, será por acidente e a única coisa que posso esperar é ter a noção de que a minha hora está a chegar, para poder saborear a doce certeza de que a minha existência há-de cessar por completo.
Também se diz que é estupidez. O que eu acho é que é a decisão consciente mais importante da vida de alguém, achar se viver vale ou não a pena, para que se possa construir tudo a partir disso. O que eu acho é que a nossa vida deveria ser só nossa e que ninguém deveria interferir na decisão de decidir continuar ou não vivo. Tanto pior, os preconceitos não deveriam ser transmitidos com tanta facilidade por gerações. E nunca, nunca, o suicídio de uma rapariga de quase 18 anos deveria suscitar mais choque e falatório que a violação de uma rapariga de 16.
Só mostra o quanto as mentes das pessoas são fechadas e tamanha que é a preguiça de pensar por si mesmo. Demonstra a decadência deste povo. Pobres de nós se alguma vez se pudesse proibir o suicídio.

Delovina

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Eu sei que vocês ainda não sabem quem é a Delovina, mas se tudo correr bem, não vai faltar muito para que a conheçam.

Esta é a música que lhe dediquei ;)

Tocada e composta por mim, ao piano, ainda não é a versão definitiva.
(O desenho também é meu :p)

Boas Mortes

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Boas notícias, óptimas notícias, excelentes, fenomenais, indescritivelmente agradáveis.
Parece que o mundo vai acabar dentro de uma semana. Semana que vem, não serei mais pessoa e, então, serei a pessoa mais feliz que alguma vez em tempo algum existiu.
-Tem a certeza, senhor doutor?
-Eu lamento imenso, é irremediável e irreversível.

Magico em tudo o que posso fazer. Matar-me já é uma tentação bastante grande, avizinha-se como um sonho antigo espreitando e fazendo-me as delícias. Mas não devo morrer já. Esta morte não é minha, ainda. A data do nosso casamento já está marcada, o dia em que te vou aprisionar-te em meus braços e beijar-te docemente, triste, amiga morte.
Poderia matar-me já, sim, podia, abreviar o tempo de espera, mas este tortuoso mundo também reserva estranhas condições. Com uma semana apenas, parece que a criatividade excede os limites do possível, do que antes era possível.
Saio do meu triste apartamento com um sorriso na face, com o sorriso de quem sabe que vai morrer em breve.
O Sol refugiado atrás das nuvens brilha com muito mais intensidade e hoje é apenas meu. Comigo levo pouca coisa. A carteira, a caneta e o bloco de notas. Corro para o autocarro que me há-de levar à estação. Caminho sobre os carris do caminho de ferro com o equilíbrio de outros dias. À minha volta, as pessoas preocupam-se e deixam a urgência tomar conta dos seus rostos, as caras ficam deformadas e eu rio.
A triste sorte seria somente o não poder fazer nada, estar impedida pelo meu corpo de ir a lado algum e ainda assim se poderia fazer algo, escrever e viajar na mente.
Mas, felizmente, tenho esta porção de tempo e vou fugir com ela.

Aqui, além, mais além, que importa, esta semana é minha.

Saio no comboio rumo a uma cidade por conhecer. Telefonei-lhe de casa, ele deve estar à minha espera. À minha espera. Vejo a paisagem e absorvo-lhe cada traço, apesar de ir tão depressa. Já vi tudo isto noutros lugares, quase com a mesma forma, mas nunca perde o brilho, o esplendor e a essência de ser. Adoro ver a paisagem, nesta viagem particularmente, nesta viagem sabe bem, porque eu vou para parte incerta, vou para o desconhecido fazer tudo.
Tenho uma semana, tenho tudo. Tenho corpo ainda com forças, tenho tudo. Tenho companhia, tenho tudo. Tenho dinheiro como mo exigem estes tempos modernos, tenho tudo.
Se desço do comboio ou voo ainda pela janela, não sei. Acho que voo. Ele está à minha espera, corremos num abraço apertado.
Tenho uma semana, tenho companhia, tenho o mundo, tenho tudo.
Apanhamos um táxi porque estou farta de autocarros e de esperar e de parar em todo o lado. O meu tempo é todo mas todo não é assim tanto para quem tem uma semana. Vamos para o aeroporto, o grande centro dos aviões, não há tempo a perder.
A planar, sobre as nuvens, nós seguimos.
-WEEEEEEEE, fazem os meus braços, imitando o movimento de um avião exagerado, sou criança de novo, criança que vai atrás de paisagens.
Aquela terra nova, estrangeira, está coberta de frio e de gelo.

Palavrão Negro da Loucura

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Apetece-me dizer um palavrão, daqueles altos que se diz chocar muita gente, daqueles bem cá do fundo porque estou farta de existir calada. Apetece-me gritar a podridão e decadência, a dor de cabeça e as larvas entranhadas, e as feridas não saradas e as merdas que as lágrimas não lavam. Por isto tudo quero dizer que nada que coise, fogo, estou farta, bem farta, vou dizê-lo, vou gritá-lo, bem alto para que todos me ouçam,
BIZARRO!
Vou repeti-lo para o caso de não me terem ouvido,
BIZARRO!!!!

Que treta de vida e de emoções e de instintos, perfeitamente parvos e caquécticos, decadentes, cadavéricos. Que inconstistência do ser que me obrigam a ser, odeio-vos profunda e eternamente e convosco podem bem levar as vossas regras, normas, leis e morais, eu quero que vós todos se

BIZARREM!

Porque estou farta, fartíssima do comum, desnaturado comum, não mais vos posso suportar, dor de cabeça tremenda, odeio-vos genuinamente,

BIZARREM-SE!

Eu sou BIZARRA e com tanto orgulho de não vos parecer bem, eu sou um ser tentando erguer-se dos escombros a que nos conduziram, tento fugir da prisão onde nos aprisionaram, tento metaformear-me das literais mentiras que constroem e nos fazem engolir e assim

BIZARRA

Assim BIZARRA não há ninguém que possa fazer frente nem regras nem lavagens cerebrais, porque nada faz sentido, porque tudo é

BIZARRO

Por isso façam-me um favor e

BIZARREM-SE!!!

Oh, poor girl

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(Sorry about the bad english)


Stupid, silly girl
Why do you keep doing this to you?
You know that it will be worse anyway
Why do you insist playing this game?
Stupid, silly girl
Stupid, in love girl

You love nobody, I can tell you
That is true
But you don't hear a word
You just want to love
You just, you just.

You think you need it, maybe,
Yes, maybe you need it.

But who would ever love you?

You are a good girl, good friend, good sister.
But love you? I'm sorry, it can't happen.

You're just not that one.
You were made to live alone
And now your learning
What happens
When we do things
We were not
Supposed to.

Girl, your like dead inside
You play dead
While you play some music

Your soul is dead, isn't
Like you feel?

À procura de concentração

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estou à procura de concentracção
e de um tema
basta uma frase
basta a primeira
para aparecer tudo
como uma torneira mal fechada
que não quer parar
e por vezes
por coisas simples
um mero pensamento
um erro, riscar, voltar atrás
e essa torneira já fechou sem vermos
e queremos voltar mas já não dá
forçamos, mas está enferrujada
e a isso ainda não se chama bloqueio
deve ser perder o fio à meada
bloqueio é mil vezes pior
é sentires-te numa bola enorme e oca e tudo está longe
és só tu e o vazio
e a folha branca, em vez de promessas
das promessas que normalmente te traz
a folha branca é uma sentença de morte
morte do escritor
folha branca, condenada a ser branca para a eternidade
e tu chegas com a caneta e a caneta foge-te, tu dás voltas à cabeça, mas os pensamentos páram
tu fazes um movimento automático de levar a caneta à folha
e a folha parece troçar de ti...

To you, my love

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Espero estar viva quando chegares. Estou à tua espera à tanto tempo... Eu jurei que ia esperar por ti. Talvez por te ter abandonado sem dizer nada, uma palavra que fosse. Eu tinha medo porque não sabia nada. Nada sabia e agora sei muito. Sei o bastante. O bastante para não ter medo de dizer, amo-te. Espero estar viva quando chegares. Porque viver entristece-me e julgo que não vou continuar assim muito mais. Acho que não vou aguentar muito mais. E seria tão triste se chegasses à minha beira demasiado tarde. Tão enternecedoramente triste, porque nunca vi um rapaz a chorar. Seria tão triste não te poder ouvir a pedires desculpa por teres chegado tarde de mais. Não, tu nunca saberás quem eu sou. Isto sou eu que me iludo na ilusão de que um dia tu e eu pudessemos partilhar alguma coisa. Mas quem eu sou mal eu sei e tu também não queres saber, apenas finges que sim, enquanto viras a cara para o lado para ver que mais linda menina e muito mais interessante aí vem, uma menina que sabe como se vestir e como se comportar, tão ao contrário de mim. E assim fui embora porque não nos suporto mais. Amo-te mais que devia. Amo-te, por que hei-de amar-te? Adeus. Vou só espreitar pela janela para ver se lá vens. Não, a janela só está cheia da minha respiração, naquele embaciado escrevo uma última palavra que ninguém compreenderá, uma palavra que não faz sentido, estranha e bizarra, essa palavra está lá e é só uma e diz quem eu sou, quem eu sou numa palavra. Tu não vens, não estarei viva quando chegares porque me resta pouco tempo, porque eu já só sou uma sombra. Mas amo-te. Até que a morte, bendita amiga, me separe de este corpo, trapo, tão cheio de emoções e de sensações. Até lá, amo-te, mesmo que não chegues. E a palavra ficou gravada na janela, está lá se a quiseres ver, se me quiseres ver. Até sempre, que esse nunca chegará.

Pseudo-livro

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Por mim. Aqui: http://aleatorionaoexiste.blogs.sapo.pt/1449.html

Não quero Falecer.

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Façamos falecer as cores pálidas e bizarras deste mundo. E todas as mentes que não nós, que nos aprisionam. Falecer é a palavra mais feia que já ouvi dizer, é seca e áspera, parece dita pelo próprio falecido que pelos vivos. É daquelas palavras que deveriam ser abolidas do nosso vocabulário por se demonstrarem tão abomináveis.
Que divagações são estas?
São as de quem nada espera a não ser a morte.
Não a morte, a desexistência, existir farta. É um fardo. Odeio.

como me apetece acabar com tudo isto e escrever do modo que prefira, para não ter mais de olhar para nada, disto estou farta.



AAAAAARGH!!!!!!!!!!

pouico falta pois a isto para ser uma especie de piano, mas eu tenho dcada vex menos parciencia para corricir o que estcrevo ou dfe ohlar para o telclado, volas, venoho maisl que vvafazerm,


fim da narrATGICVA

Teoria das Caixas

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Depois do choro,
Depois da tristeza,
Depois do desespero,
Depois da angústia,
Depois da raiva,

Há o tudo, há nada,
A vontade não existe,
Apenas este peso de existir.

Encolho os ombros,
Encolho-me.

Abraço-me num canto.

Se um dia o universo
Fora uma caixa negra
Encaixotada numa branca,
Encaixotada noutra negra,
Encaixotada noutra branca
E assim pela eternidade,
Em caixas cada vez maiores,

Hoje sou eu que me escondo
Dentro de caixas cada vez mais pequenas.
Dentro da caixa do mundo,
Dentro da caixa do país,
Dentro da caixa da minha terra,
Dentro da caixa dos amigos,
Dentro da caixa da casa,
Dentro da caixa da família,
Dentro da caixa do meu quarto,
Até, por fim, na caixa só minha,

Fechada a fita-cola,
De onde não saia,
Ninguém me aborreça,
Não veja o que está lá fora,
Não tenha de sentir nem de pensar.

Aguentando o fardo da existência
Tão mal-vinda, tão maldita.

Sempre é melhor viver numa caixa,
Apenas comigo e com o pouco ar que respiro.


Não há pais, opiniões,
Falsas pessoas, preocupações,
Não há medicamentos,
Psicólogos ou psiquiatras.

E, na verdade,
Que diferença faz
Viver numa caixa
Ou a vida que nos atiram,
Não será também ela
Uma espécie de caixa?

Desespero para toda a vida, malditas decisões definitivas...

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Um assunto urgente que me deixou paralisada. A suspirar... Ora bolas! Quem me mandou atrever-me a desejar o impossível? Eu própria, e agrada-me a minha mente aberta, mas deixo-me entristecer e volto para casa, tocar piano.
E penso naquilo que terei de escolher, a decisão já tão próxima, sabendo que vou errar, quer dizer, nem sei se vou saber conseguir. Para onde quero ir? Agora? Arquitectura. Ontem? Antropologia. Amanhã? Quem saberá?
Por isso toco acordes mais alto, porque só gosto do que não tem saída.
Já é muito tarde para ginástica, não sou suficientemente boa para música, a ciência está descuidada, a escrita caminha ao esquecimento, a psicologia está longe.
O futuro que desapareça com o futuro! Quero é ir para Paris, trabalhar num café em Montmartre, como soube desde que li The Lollipop Shoes, como confirmei quando lá estive e como assegurei quando vi Amélie.
Não quero mais que isso, por que não percebem? Nem que tenha de pedir esmola a tocar violino.
21.04.2009

Afinal não sou - Bernardo Soares

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De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.
Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.
Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.
Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de
quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.
Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.
É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo - desde a nascença e a consciência -, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Mas a cidade é-me incógnita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente e natural.
Foi um momento, e já passou. Já vejo os móveis que me cercam, os desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Vi a verdade um momento. Fui um momento, com consciência, o que os grandes homens são com a vida. Recordo-Ihes os actos e as palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo Demónio da Realidade. Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da palavra mágica da alma. Mas essa luz súbita cresta tudo, consume tudo. Deixa-nos nus até de nós.
Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Conto do Pequeno Pianista

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Era uma vez um menino de 11 anos que passava o tempo livre a tocar piano. Já o fazia desde muito pequeno e aprendera quase tudo por ouvido. Todas as pessoas que o ouviam elogiavam-no profundamente, todas excepto o pai, que voltava costas a resmungar:
-Em primeiro os estudos, primeiro, os estudos.
Era daquele tipo de pessoas que se aborrece facilmente em museus e que na rádio só ouve notícias. Para ele, o filho podia ser mesmo o mais conceituado músico a nível mundial, nunca aceitaria tal como profissão respeitável. Contudo, o pequeno amante da música era o melhor aluno da classe, pelo que o pai nada mais podia fazer que não consentir que ele passasse horas a fio brincando com as teclas.
A mãe, por outro lado, vivia deliciada pelo dom do filho. O seu próprio tio fora pianista e, não tendo mais família, deixara o grande instrumento de meia cauda à única sobrinha. Ela lamentava nunca ter aprendido, mas, felizmente, o gene musical parecia ter sido transmitido ao seu pequeno. Gabava muito as suas capacidades, de cada vez que ia ao mercado, e quem já o ouvira podia confirmar que ela não exagerava nos elogios.
O pequeno pianista nutria um carinho especial pela grande colecção de discos do tio-avô que a mãe guardara no sótão. Quando não estava a tocar, ouvia uma daquelas preciosidades musicais, deitado, saboreando as melodias.
Adorava Vivaldi e as suas Quatro Estações, venerava Mozart e a Flauta Mágica, arrepiava-se com Beethoven e a Quinta Sinfonia, descontraía com Bolero de Ravel e acelerava com o Voo do Mosquito de Rimsky-Korsakov ou Gayane de Kachaturiam. Porém, de longe, o seu preferido era Tchaikovsky. Adaptar músicas do bailado Quebra-Nozes para piano apenas fora um desafio e uma aventura. Terminar havia sido uma conquista. E um marco.
A primeira vez que apresentara aquele conjunto de seis músicas que, no total, duravam quinze minutos, fora num restaurante de uma cidade das redondezas. Encantara todos os que estavam presentes e o conservador do teatro municipal convidou-o a tocar aquela peça, na semana seguinte, no próprio teatro. A mãe não queria acreditar e perguntou se haveria pessoas a assistir. Com a resposta afirmativa, o pai, por sua vez, perguntou se iriam receber algum tipo de remuneração. Ambos satisfeitos, aprovaram a proposta e levaram o filho a casa, para ensaiar sempre que tivesse algum momento disponível.
No primeiro espectáculo, a peça apareceu enquadrada dentro de um programa de recitais dos melhores músicos das redondezas, mas foi decididamente ele quem recebeu mais aplausos. As pessoas queriam ver outra vez aquele prodígio. "E sem nunca ter aulas!" admiravam-se.

Foi assim que as sextas-feiras à noite se tornaram uma rotina. Durante a semana, escolhia as músicas que adaptava a piano com cada vez maior facilidade. De manhã, a mãe ia buscar o fato à lavandaria, de tarde fazia-se o ensaio geral, com a supervisão de um músico qualificado, que o corrigia em um ou dois pontos. O pai conduzia.
-Vamos chegar atrasados! - era o discurso da mãe, todas as noites. Chegavam sempre com meia hora de antecedência.
Um pequeno toque de maquilhagem nos bastidores. E ali estava.

Aquela sala era um abismo. No palco, o som dos seus passos ecoaria não fosse abafado pelo enorme aplauso da multidão. Plateia, balcão. E aquelas varandinhas adoráveis.
O piano, pronto para o receber. O banco já ajustado.
Fazia uma pequena vénia e sentava-se. Respirava fundo, como lhe dizia a mãe.
Qual quê. Aquilo era a sua brincadeira preferida, era o que mais gostava de fazer. E havia pessoas que o adoravam. Era fantástico, ele não conseguia estar nervoso, apenas sentia um formigueiro antes de cada espectáculo, nunca mais começa, nunca mais começa.

Havia um pequeno jogo que gostava de fazer de cada vez que entrava em palco. Percorria a multidão com os olhos até encontrar uma menina da sua idade, talvez acompanhada pelos pais, talvez pelos tios, pela irmã mais velha, pela avó, e fixava-a, distinguia-la de todos os outros. Era para ela que sorria, para ela que orientava todas as vénias, todos os olhares. Por cada concerto, havia uma menina incógnita que, sem o saber, seria sua namorada nos minutos em que ele era uma estrela aos olhos de todos.
Dentro de si, havia uma pequena esperança de que, algures no mundo, uma rapariga se enamorasse secretamente pelo pianista enquanto duravam os concertos que via. Dentro de si, havia a esperança de, um dia, os seus olhares se cruzarem e aí seriam verdadeiramente namorados por uma noite.
Eram sempre diferentes, não queria perder a oportunidade de a escolher só por se ter decidido pelo tipo de rapariga que mais gostava. Havia a menina triste do nariz pequenino, a lourinha dos olhos verdes, a do cabelo cor de cenoura, a da pele cor de chocolate, a que não parava de sorrir, a do vestido com flores, a da borboleta a atar o cabelo, a das tranças. Só não a escolhia entre as que estivessem aborrecidas, as que parecessem obrigadas a estar ali, as que odiassem aquele tipo de música. A pequena que o procurava por todas as salas de espectáculo do mundo certamente que gostava de ouvir boa música.
Daquela vez, nada de mais. Olhos castanhos-escuros, cabelo preto que se confundia com o casaco e vestido da mesma cor. Já estava sentada e ele nada mais conseguia ver. Pena. Tinha a certeza que a sua pequena trazia sapatos de fada. Não havia nada de particularmente diferente no físico dela. Era tão normal, podia ter aparecido como figurante num filme, uma personagem daquelas que passamos por ela e nem a vemos. Não teria sequer reparado nela não fosse o ar desafiador e triste. Como se toda a sua aldeia tivesse sido posta em chamas e ela fosse a única sobrevivente, desesperando por vingança.
Viu-a enquanto caminhava até ao piano. Hoje, é só a ti que vejo, é só a ti que amo. Esta noite, tudo o que eu tocar vai ser para ti, profundamente dedicado à tua pessoa. Ela não aplaudiu com a multidão quando ele chegou. Claro que não. Ele ainda não a merecera. Virou os passos na direcção dela e inclinou-se numa vénia. Olhava para ele. Muitas os faziam, na realidade, quase todo o auditório.
Começou. Eram aquelas seis músicas adaptadas do Quebra-Nozes de Tchaikovsky. A primeira. Sabia as teclas de cor, apesar da complexidade, raras eram as vezes em que consultava o lugar das mãos. Na maioria do tempo, fechava os olhos, abrindo-os para encarar a multidão. Corrigindo, para olhar para a sua pequena por uma noite namorada.
Segunda música, a ela dedicada, a dança da fada do açúcar. Se lhe pudesse ver os sapatos, tinha a certeza seriam azuis, brilhantes, pareceriam feitos em porcelana, ou talvez fossem apenas como o piano. Sim, aquela música era perfeita para ela, porque parecia descrever o modo como daria um passo após o outro, cauteloso e sorrateiro, deslumbrante. A escolha daquela peça era perfeita.
Olhou para ela, na pequena pausa entre a música seguinte. Os olhos tinham amansado e ele pôs-se a viver o ritmo frenético que o esperava. O piano era dele, mas isso não importava, era aquilo que lhe oferecia, tecla após tecla, grandes acordes, os dedos leves e pesados ao mesmo tempo, sempre fiel ao original, sem um único erro. De olhos fechados, sorria. De olhos fechados, conseguiu imaginá-la a sorrir sem mostrar os dentes.
Esta nova era uma pequena música de amor. Imitar uma harpa no piano era uma tarefa fastiosa, tinha de ser tão delicado e tocar tantas notas de seguida, mas os olhos de ambos cruzaram-se e a música era para ela e para ela nada menos que perfeito, nada menos que o que ela merecia. Saberia que era uma canção de amor? Claro que sabia, aquele olhar dizia tudo, dizia que se derretia e desfazia e que cada fechar de olhos não era mais que puro deleite. Esta música é só para nós, saltou para a parte mais difícil, acompanhando a música com a cabeça e o corpo, de olhos fechados, saboreando e aperfeiçoando cada tom. Os dedos fluíam tão naturalmente pelo teclado que a única coisa em que pensava realmente era nela.

Agora a dança chinesa, algo de tão mais divertido que certamente a animaria um pouco. Fez os possíveis para conseguir gestos abertos e esforçou-se nas caras engraçadas, tal como vira fazer tantos pianistas famosos. Era uma música muito pequenina, mas todos se riram. Havia algo de cómico. Com um sorriso nos lábios, passou à última. Mais uma de amor, mais uma com harpa de fundo, que espelhava delicadeza e que variava por toda ela. Quis tanto saboreá-la que acabou antes que desse conta.
Já aplausos? De pé, da sua namorada daquela noite que o ia deixar para sempre em breves momentos. Como passara tão depressa aquela última se era a maior de todas? Prendera-se no pensamento e agora tinha de se levantar, porque estava tudo acabado. Ele era o menino do piano que acabara de tocar Tchaikovsky e tinha lágrimas nos olhos, mas ninguém estava suficientemente próximo que as pudesse ver. Ela já ia de costas, uma vez mais, no fim todas iam, no fim, os sapatos de fada não eram mais que vulgares sandálias.
Voltou-se para os bastidores, para os braços da mãe.
-Vá, não correu assim tão mal, só tropeçaste numa nota, ninguém reparou.
-Tu dás-lhe demasiados mimos. - resmungava o pai - Se é para continuar a sério todas as semanas, não podem haver erros.
Virou-se para a sala vazia, sem luzes, sem barulhos. Largou o aconchego da mãe.
-O papá tem razão, tenho de treinar, este piano é um pouco maior e eu não estou habituado, mas tem de sair perfeito na semana que vem.

Perfeito. Para ser perfeito, aquela música não podia acabar nunca. Era a sua parte preferida porque parecia conter uma história dentro dela. Era a que o fazia viver mais, a mais poética, a mais expressiva. Precisava de a tocar as vezes que fossem precisas até ficar completa, até ficar perfeita.
Sentou-se e voltou àquela escada feita pela harpa. Começou a misturar mais instrumentos, tornando-a cada vez mais difícil. Viveu cada sensação deles, como se cada um contasse uma história. Deixou-os lutar um pouco uns contra os outros, até os juntar na construção do mesmo, tentou escalar as emoções até ao cimo. Lembrou-se da menina de verdadeiros sapatos de fada que um dia o estaria a ver, sentiu aquilo de que a música falava e sentido conseguiu tocar ainda melhor, sem nunca desistir. Depois, lembrou-se do fim de cada noite, em que todas elas se iam embora e tocou aquele trecho destroçado. Enfim, voltou a esperança de um dia a encontrar, era só esperar, e para ela tocou até não mais poder, chamando-a. Abrandou o ritmo, preparando-se para o final, suave, como os passos de uma fada. Aquela tinha sido perfeita e tinha a certeza que, quando abrisse os olhos e espreitasse para trás do piano, ela estaria ali.
Abriu os olhos e, espreitando, a menina dos olhos em desafio triste estava a olhar para ele. Não disse nada nem aplaudiu. Os sapatos eram azuis, eram tal como os havia imaginado, eram brilhantes e pareciam porcelana.
Levantou-se. Ganhou coragem. O coração batia a cem à hora, mas podia ser a única oportunidade.
-O concerto de hoje foi dedicado a ti, tens de saber, deves saber disso.
-Eu sei. Tu construías a música conforme a expressão dos meus olhos que deviam espelhar o que sentia. Mas a última música passou demasiado depressa, eu fiquei distraída com um pormenor, uma lembrança antiga. E tinha esperança de a ouvir outra vez.
-Tinha esperança de que viesses. Esta noite, foste minha namorada.
-Fomos namorados enquanto tocavas.
-E agora, continuamos a ser?
Ela hesitou e desviou o olhar.
-Não pode ser. Não posso.
-Porquê?
-Porque eu gosto de raparigas.
Calaram-se os dois. Foi ele que recomeçou.
-Mas, enquanto tocar, nenhum de nós vai ser pessoa, nem homem nem mulher, vamos ser música, vamos ser só o ser que toca e o ser que ouve, ambos os seres que sentem. Aí, poderemos ser namorados?
-Enquanto tocares, sim. - concordou.
-E durante o resto do tempo?
-Eu serei eu, tu serás tu, se quiseres podes ser meu amigo e podemos ter longas conversas à beira do lago, podemos ouvir música, podemos ler e fazer histórias. Mas namorada tua não poderei ser.

O pequeno pianista voltou ao teclado e tocou o trecho melancólico da última música, aquele em que se parecia desfazer em tristeza.

Conto da noite (ou a morte da borboleta que caiu enquanto ascendia aos céus)

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por Adriana Gaspar de Matos, composto após a meia-noite do recém-chegado dia 10 de Janeiro de 2010, à memória de Joanna Sophia de Carvalho Matias, querida amiga, (e)ternamente nos nossos corações.

1h00 "Olha," aponta um dos irmãos para a janela em frente, "que é aquilo no parapeito? Será uma estrela?", "Não, é uma borboleta." Debruça-se a borboleta para o voo. "Oh, mas mano, a borboleta caiu.", "Pois foi, vê, tinha as asas partidas.", "Mas quem teria tamanha crueldade que despedaçasse as asas de uma linda borboleta? E que fez a inocente de mal para o merecer?", "Nada, mano, a justiça é uma ilusão, nem todo o dinheiro do mundo lhe poderia devolver as asas e o imbecil até já anda em casa."
1h23 "Há luzes lá fora.", "São as ambulâncias?" O irmão hesita e responde "Não. São fadas que a levam a voar de volta ao céu."

Lindo dia de chuva

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Estava um lindo dia de chuva, um cinza pastel choroso.
-Maldita chuva!- comentou a mãe.
A pé seguiam, mas ela não se queixava porque ela efectivamente adorava sentir aquelas lágrimas a escorrerem, geladas de nos gelar por dentro.
A chuva é que a ajudara naquele mau momento quando quisera deitar tudo cá para fora, gritar o mundo com a força que trouxera apertada na viagem de comboio, a chuva que com ela chorara a sua perda, que com ela gritara contra quem lhe roubara a melhor amiga. A chuva que com ela cantava, a chuva que com ela desenhava movimentos, gestos que as outras pessoas não apreciavam ver na rua, abria os braços e cumprimentava as pessoas com uma larga vénia, e a chuva parecia imitá-la, a chuva sempre tivera um tanto de loucura, pois os loucos é que adoram passear à chuva.

Os carros seguiam e atiravam a água aprisionada no alcatrão contra elas, uma onda no meio do nada, no meio de lado nenhum, uma onda citadina, de poesia nenhuma gerada, apenas do horror da cidade, porém uma onda poética.
As calças salpicadas em lama, encharcadas em chuva.Está um bom dia para não lavar a roupa, pensou, ao mesmo tempo que a mãe dizia
-Quando chegarmos a casa, tiras imediatamente essas calças e pões a lavar.
A mãe não-louca, a normal mãe. Dava-se feliz por ter uma mãe assim: se fosse louca, talvez tivesse a tendência a ser o contrário dela, ou seja, monotonamente normal. Ou talvez não.
O céu eram nesgas pintadas e eu gosto mesmo, mesmo muito, mas agora não é a minha história, é a dela, bolas, e ela gosta mesmo mesmo muito. São tão doces tão frios dias de chuva.
As cores de tudo mais definidas: as folhas amarelas mais amarelas, o castanho mais castanho, o verde musgo ou verde pinheiro mais vivo, o cinza das pedras um pouco mais escuro, um contraste acrescido comparado com o daqueles terríveis dias de calor.
O que ela gostava mesmo era de, no fim do dia, quando tudo parecia acabado, digitar tudo o que se lembrava por meio de palavras, gravar tudo na folha, atirar os dedos ao teclado e traduzir os pensamentos em algo legível, tal como faz agora, e, de tão habituada que está, não erra uma única letra, não falha e mesmo de olhos fechados sabe que não falha, pois é como que uma melodia tocada ao piano. Em dias de chuva.
Melodia tocada ao piano em dias de chuva, daqueles em que a luz vai abaixo e não sobra mais nada senão o piano e o violino e a máquina de escrever.
Pequenas coisas estas que me ajudam a não dizer não à vida nem aos meus pais, que me ajudam a não ficar para trás, não quero viver, mas, muito mais que isso, não quero magoar quem tanto gosta de mim.
Piano à chuva, piano ao luar.

2009

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O feio do belo é que a aleatoriedade não existe e sabes eu não quero fazer algo belo, quero escrever apenas, escrever livre quase freewriting como não faço desde a minha prenda de anos e hoje é último dia, hoje é dia parvo de tristeza, porque quero e não quero só escrever sem sentido, assim a modos que disparatar e odiar a noite e amar a noite.

Mas que raio é isto?, perguntam, com toda a legitimidade. E respondo, é nada, é tristeza atirada em forma de palavras de uma escritora que já era, uma ex-critora. Uau, palavras novas, o ano vai acabar, o que não significa nada, apenas convencionaram que sim, nem é um dia especial nem nada nem nada nem nada, olha as vezes que me repito, como suo parva e estupidifico, olha, feliz natal. Bah, o natal já passou, tretas de tristezas. Bah.

Estou farta disto, estou com dor de cabeça de tentar escrever tudo o que me vem à cabeça e de interromper posteriores pensamentos. Por isso CALOU.

bom 2010.

O Jardim Estranho da Minha Terra

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Na minha terra há um jardim estranho. Onde as flores não crescem, porque não são plantadas. São as pessoas que, em romaria, as levam.
Há dias de cortejo e, nesses dias, é quando as pessoas são mais generosas e levam mais flores. São os dias em que plantam sementes de madeira, num buraco fundo.
Que regam com lágrimas.

Neste

Neste jardim estranho, não há casais de namorados.
Oh, não,
Este jardim estranho não recebe muitas visitas.

Raramente pessoas mais novas, só em dias de cortejo.


Neste jardim estranho, há casasinhas baixas, de pedra, na alameda principal. Têm uma porta, nenhuma janela.
Neste jardim, não há bancos, mas há mesas baixas, para as flores.
Neste jardim, não há luzes eléctricas, mas há velas. Mesmo de dia, há velas acesas.

Não são apenas flores e velas e sementes de madeira que se plantam. Também letras e números. E fotografias, pequenas. Pequenas esculturas, também. Como anjos.

As mesas baixas, as casinhas, os amontoados de terra, tudo está devidamente numerado. tudo tão organizado. Nem parece um jardim.

O muro que rodeia este estranho jardim não é como os outros. É alto e não tem grades e só podemos ver para dentro dele pelos grandes portões. As pessoas não falam muito deste jardim. Não há visitas de estudo, só mesmo cortejos esporádicos.

Há um segredo escondido. Foi a minha avó que me contou. É que, em cada casinha, mesa baixa ou amontoados de terra, há uma história, como um tesouro, enterrada. Cada uma dessas histórias está guardada na memória daqueles que visitam este jardim.




E os anos passaram desde que este estranho e estranhamente belo jardim deixou de se chamar jardim. Agora, toma outro nome, algo mais feio. Para mim, porém, será sempre o meu estranho jardim.
Nestes dias, assim ultimamente, é mais frequentado por jovens. Não muitos, mas mais. Com uma certa regularidade. Jovens que não esperam pelo cortejo.

Eu também o visito. Tomo sempre o mesmo percurso, nada de mais. Seguir pela alameda principal, até à última das casinhas de pedra, virar à esquerda, número 20.
Dou um longo suspiro e deixo-me encostar. A rir ou a chorar, repito para o ar, a cantiga de todas as vezes:
- Então, Joanna?

Perguntas do Depois

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@@"Onde estou?"
Acho que era a pergunta mais acertada a ser feita.
A pergunta certa.
A pergunta do momento.

"Onde estou?"

Por toda a eternidade, tem sido essa a pergunta feita por tantos milhares de almas.

Eu, porém, não fiz essa pergunta.
Havia algo naquilo tudo que me queria fazer disparar centenas de frases de tudo aquilo que me atravessava a cabeça. Não tinha problemas em agarrar tais pensamentos. Muito pelo contrário, fascinante e surpreendemente, pareço conseguir vê-los todos, todos em simultâneo, perfeitamente organizados, correndo e desfilando, num círculo que deixa de o ser para se transformar num cone imenso, erguido como que desde os céus, um tornado, um furacão de pensamentos.
O meu problema não era agarrar, era libertá-los, porque como que se prendiam a mim de cada vez que os tentava soltar. E, mais importante que tudo, porque, pura e simplesmente não parecia fazer sentido dizer o que quer que fosse. Era inútil, de que servia falar?

A maioria deles fala, sinto-o. E perguntam "Onde estou", mais outro aspecto estranho acerca deles. Se eu tivesse falado, teria, certamente, perguntado, "Quem sou eu?"
Quem sou eu, certamente, mas o que sou eu seria igualmente uma opção.

A maioria deles, chega nas formas com que partiu. Os homens são homens, os cães são cães, as árvores são árvores. Espantoso, observar que o conformismo e o egoísmo são característicos de todas as coisas.
Chega com a forma e assim vê respondida a pergunta o que sou eu. E, para além do mais, passam a existência convencidos que sabem quem são.


Passei o equivalente à formação da Terra desde o Big Bang para conseguir achar-me. Não me pareceu uma eternidade porque aqui não há tempo, apenas constância. O tempo é algo que vem emprestado do lugar de onde viemos. Tal como o espaço e tal como todo o resto. Aqui, tudo obedece às nossas regras.


Há quem chegue e veja anjos, há quem veja demónios, há quem veja escuridão, há quem veja luz. Mas, na verdade, tudo isso são visões emprestadas do que esperariam encontrar. Há, até, quem julgue que continuou vivo.

Eu sempre neguei o mundo a certo ponto e, depois da passagem, não fiz mais que apagá-lo. Livrei-me de todas as coisas e significados, mas também esvaziei demais e perdi-me.
E, depois de algum tempo ilusório que pode ter sido 15 mil milhões de anos ou dois segundos, reencontrei-me.


Foi por minha preferência que regressei a pequenas coisas do que fora.
Tinha à minha frente um leque infinito de possibilidades, portanto, por que não começar pelo início?

Há regras, claro.
Há uma regra.

É que tudo o que ainda não tiver passado e guardar a sua alma na vida aí está confinado.
Podemos ter tudo, excepto almas.

Podemos construir a cidade de onde voltámos, as pessoas e os animais e as plantas e todo o mais, mas, sejam eles ainda vivos e não mortos como nós, as nossas cópias construídas não terão alma, serão ocas.

E, mesmo que uma alma haja morta, não a podemos forçar a participar no nosso pequeno cenário.
Assim, recomendo não fingir figuras. Apenas a nossa que já tem a nossa alma.
A nossa que será como nós quisermos.

Porém, é com agrado que vejo que, quando se passa a este nível de percepção, todas as pessoas acolhem com um certo conforto o aspecto que tinham. Por mais defeitos que em vida se colocassem, é agora que fazem cópias exactas, sem alterarem um único detalhe.


Depois de me haver encontrado ou reencontrado, deixei-me levar para esse mundo que é o mundo que deixara. Começar pelo mais simples e fútil. Por que não?



Iniciei pela altura que me fora mais cara. Neste espaço de imagens, tornei-me a adorável Adriana de cinco anos, correndo num vestido branco e lilás em direcção a um baloiço. Fingi o vento, fingi o assento, fingi o ar, só não fingi paisagem. Porque eu adoro balançar-me com os olhos fechados, sentir apenas a altura e o perigo. Só que, desta vez, não havia perigo.

Formaram-se os dinossauros e pereceram nesse intervalo de tempo fingido em que andei de baloiço. Imaginem-se milhares de anos apenas baloiçando, baloiçando, baloiçando.





Cessou esse balançar com um latido. Adriana de cinco anos saltou no ponto mais alto e voou um pouco, planando para aterrar.

Disse a minha primeira palavra na voz alta fingida disto que é isto:

-Snoopy!

Tínhamos o infinito para brincarmos e a eternidade para o fazer.
@@

Um corredor. O chão em madeira, as paredes brancas. Um corredor estreito e eu. Eu, num corredor estreito, perante uma porta. Aventurei-me.

Estava tudo igual, a janela, a cama impecavelmente feita, a poltrona ao canto.

E, mais importante que tudo isto, o avô.
O avô enorme, a maior pessoa que eu jamais conhecera naqueles cinco anos.

O avô, o risco de cabelo que caía, os óculos enormes que enchiam toda a cara.
O avô com o seu grande redondo nariz.

As mãos, pousando o cachimbo, os olhos, intensos, como se me pudessem atravessar.


Aquela estranha figura no seu estranho lugar, tal como sempre me recordava dele.

Achei-me a seu colo em menos de nada, agarrada às roupas grossas com cheiro a naftalina.
Eu fui a neta mais velha. Uma das poucas que ele conheceu. Poderia dizer-lhe que agora havia uma Francisca, um Rui e uma Inês, mas, com os meus cinco anos, esses nomes eram-me desconhecidos.

Para completar o magnífico cenário, juntei-lhe um último pormenor.

Fingi uma tossidela.

O avô cedeu, como sempre fazia. Levou a mão ao bolso e entregou-me uma pedra preciosa, embrulhada em papel branco. Desembrulhei o rebuçado e senti o sabor à infância. Parecia mel sólido com baunilha, mas era só rebuçado da tosse. Mas isso são detalhes, aquele é o verdadeiro sabor da minha infância na casa do avô.


Um dia, mais tarde, poderei contar-lhe que a avó mudou de casa, que mais netos nasceram, que tive boas notas e nunca deixei um ano para trás e que consegui entrar na faculdade.
Um dia, poderei dizer-lhe que nunca ninguém me disse que tu morreste e que eu continuei por anos convencida de que continuavas numa operação muito difícil que demorava muito tempo, no meio das paredes de tijolo do hospital.


Quando, por fim, estiver satisfeita e completa, pode ser agora mesmo, vou continuar por outros caminhos.

Vou até ao fundo do corredor, espreitar para aquele quarto ao canto, quarto escuro. Na cama vejo uma sombra e um feitio de mulher, mais que mulher, de velha. Até aqui está louca, permanece louca. Não me aproximo, limito-me a ver. Quase que tenho medo da minha bisavó.

Virando costas, dou meia volta e chego à entrada.
Um espelho, uma mesa, um tapete e um telefone.

Pego no braço do instrumento mágico e marco um número.
Ao ouvir uma voz desconhecida, desligo de imediato e quase choro.


Abro a porta e subo a escadaria até à minha divisão preferida.

O sótão está cheio de luz e pó, como um nevoeiro de âmbar.
No chão estão os legos do meu tio.

Está tudo uma confusão, uma agradável e confortável confusão.

Subo à cadeira de baloiço, demasiado alta e larga para mim, e dou impulso para a frente e para trás. Só que, de cada vez que a sinto voltar atrás, ganho medo que caia. Fecho os olhos e finjo que comando um barco de piratas.



Sou eu, em casa dos avós, baloiçando-me na cadeira, num barco de piratas.
@@

Gostaria de ir à escola. Mas a professora ainda é viva e os meus amigos também. Seria um lugar vazio, corredores abandonados, escorregas inutilizados, salas desertas, casinhas de brincar ocas.

Vejo a grande cabana de madeira e prometo um dia, quando todos reunidos na morte, regressar por uma eternidade para brincar.


Assim, segui para uma terra distante, onde quase não há casas.
Normalmente, seguiria para casa da minha prima inglesa, mas ela não estava. Quando ambas existíamos no mundo, isso acontecia, por vezes, estaria lá na Inglaterra. Ali, porém, a verdade era, com lógica, outra.

Também os meus tios eram vivos, tal como os meus avós, tal como outros primos, aliás, tal como todos aqueles que conhecera.

Todos?

Se o tivessem sido, não estaria ali.

Subi as escadas da casinha vermelha e puxei o cordão que fazia de maçaneta.
Espreitei para a cozinha e deixei-me inundar por aquele tão característico cheiro de velho, de muito, muito antigo.

Sentadas à mesa, estavam duas figuras, vestidas em tons de preto e cinza.
Ao verem-me, com um sorriso, disseram a minha expressão preferida, naquele tom de vós ideal adequado ao que me lembrava:

- Olhai!

Não sabia ao certo o que aquela pequena palavra significava, mas, para mim, era o olá dos tempos dos pais da minha avó.
Ri-me e corri a abraçá-los.

Contei-lhes que era boa aluna, que adorava ler e que tocava violino. A bisavó deixou-se deliciar pelas minhas palavras e contou-me as histórias que lhe pedi nos últimos dias de vida. O bisavô sorriu e pediu-me para pôr as tranças que levei ao funeral dele.


Quando fiquei só na cozinha, levantei a toalha da mesa, na certeza de que quem esperava encontrar já se encontrava connosco.
O gato amarelo repetiu os gestos da sua vida, levantou a pata e tentou arranhar-me. Passou a menos de um dedo do meu olho.

Eu estremeci.


Saí.
Um dia, teria a oportunidade de conhecer o irmão da minha avó que tão cedo partira, tal como todos os antepassados meus, tal como toda a humanidade, tal como todas as almas. Havia tempo para tudo, naquele nível de percepção.
Mas esse dia não era aquele.

Era tempo de visitar a casa em frente.

A mamã do meu avô.
O sorriso magnífico sem dentes.

E uns óculos maiores que o que pudesse imaginar.

Mais outra eternidade a ser saboreada.

@@

Cresci um pouco mais.

Apesar de saber que ainda não havia vizinha do lado com quem brincar, fui até à minha rua.

Era Outono.
Talvez fosse o meu aniversário, mas isso não se lê nas folhas das árvores.

Como sempre, entreguei-me à minha brincadeira preferida da rua.

Juntei as folhas secas do chão, aquele remoinho colorido, num monte apenas. Quando atingiu uma altura considerável, dei uma corrida e atirei-me contra elas.

Continuei o festim, atirando-as ao ar, atirando-as ao meu cabelo, sem nunca parar de rir.
Tão agradável que é ser criança no Outono.

Poderia passar o resto da minha vida saboreando aqueles momentos. Se tivesse vida.


O vestido dos cinco anos mudara.
Agora, era aquele amarelo cor dos girassóis com flores azuis salpicadas.



Chegado, enfim, o momento.

Podia ter dez anos, mas esse não era mais que o meu aspecto.
Era uma ilusão, uma criação, uma imagem da minha imaginação, que aqui a imaginação vale tudo.

Escolhi um jardim.
Um jardim com um parque infantil.
Sentei-me ao baloiço, à espera. Ela não se demorou e vinha com um vestido, também.

Um vestido cor do céu salpicado com girassóis.

Sorrimos. Nunca antes fôramos tão iguais.


Tínhamos muito a dizer, muito a contar. Tínhamos tudo, mas, ao olhar uma para a outra, julgo que nos compreendemos instantaneamente.
Começou ela.

- Olá, Adriana.

A voz dela, por fim, não por um gravador nem por um vídeo.
Ela, ali, ela. Apenas, ela. A minha amiga, a minha melhor amiga.

- Olá, Joanna. - disse. - Olá, Joanna Sophia.

Dito isto corremos a abraçarmo-nos.


Estávamos no mundo dos mortos, éramos as melhores amigas, abraçadas.

Estávamos diferentes, porque a minha alma não estava a sofrer e porque a dela estava inteira.

Ela estava inteira. Haviam-se passado mais que ano e meio desde o dia em que a alma se despedaçara e parte morrera ao dia da morte da réstia da alma e do corpo.

- Foi a primeira coisa que fiz, quando cheguei. Procurar o pedaço de alma que me abandonara.

Está forte. Está mais forte que nunca. E é a minha melhor amiga, tal como a conheci.

A minha boneca preferida caiu

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(A imagem foi retirada por opção da autora. Leiam os comentários, falam por si.)

Arrotar & Conversas à beira do abismo

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Na manga trazemos o ventre mas não contamos. Escondemos. Na manga trazemos ideias clandestinas, espreitando. Escondemos, há polícias por todo o lado e todos os cantos, escondidos em busca da morte do pensamento. Na manga trazemos a vida mas fingimos também autómatos. Como os outros, disfarçados, escondidos. Na manga trazemos os nomes de todos e o segredo, aquele segredo de quem vai esmagar o arroteiro.
O arroteiro.
O Arroteiro.
O Arroteiro arrota ordens. Arrota exigências de submissão. O Arroteiro aloja-se em qualquer cérebro que queira, porque é um modo de pensar. Aloja-se e contra ele ninguém pode. A não ser quem pense para além do que o que lhe apresentam. E nós trazemos as ideias na manga e os escravos do Arroteiro que não nos vejam ou arrancar-nos-iam os olhos. E nós trazemos alguém e esse alguém é todos nós juntos e vem na manga.
É agora.
E eu não estou sozinha. Antes pensava que sim e com nervosismo espreitava pela manga ver se ainda repousava o pequeno. Dorme, dorme, pequenino. Pensava que estava até encontrar o génio, sob a forma de folhas debaixo da pedra tumular. Pensava que era a única viva até encontrar o gémeo, o meu irmão gémeo. Pensava que éramos os únicos até encontrar todos os outros e agora o segredo é nosso e o pequeno já não é só o meu, é o que ia em todos e de todos o melhor e o melhor é o melhor de todos e irá ser maior que o Arroteiro, porque é a força de todos nós que pensamos e todos juntos e conseguimos, mas temos de manter isto em segredo, senão chamam-nos loucos e saltam-nos e arrancam-nos os olhos e deleitam-se em puro prazer a devorá-los. Escondamos na manga o nosso segredo, longe da vista. Ninguém sabe nem desconfia, porque somos mais um, apenas.
Só que não somos mais um. Somos todos. E todos um apenas. Mas não mais um.
Somos o um que te vai destronar e destroçar.

Cuidado.
Cuidado para a manga não subir.

Cautela aí onde pões os pés.
Dá-me a mão, senão caio.
Desculpa.
Isso não importa agora. Apenas chegar ao fim.
Meu querido irmão, olha onde chegou a nossa família.
À beira do abismo, bem vejo.
E os outros que existiam caíram todos e sobrámos só nós contra o monstro arrotador, não foi?
Não olhes. Não olhes. Não chores.
A culpa não é deles, eles é que ganharam a inércia e a inércia é quase inata…
Pois não é deles.
Eu não quero cair.
Então não olhes para baixo.
Somos tantos e antes pensava que era só uma.
Tu sabias que éramos tantos, só não sabias que nos íamos encontrar.
Somos tantos e somos tão suficientes. E há neve.
Há neve e nuvens.
O mundo ainda é bonito, não é? A natureza não pensa e assim triunfa sempre.
Dá-me a mão, vais cair.
Queres sentar?
Tu queres?
Eu sento sozinha.
Eu sento contigo.
Eu amo-te.
Eu sei.
E, se nos pudéssemos ver, verdadeiramente, seriamos iguais, seriamos gémeos.
Somos gémeos. E eu amo-te, irmã da minha alma.
E à nossa família.
E à nossa família.
O Arroteiro é fúria.
E nós fúria contra ele.
E quem ganha?
O que vencer. Isto não é um conto de fadas.
Eu conheci-te, irmão, e conheci a nossa família. Eu ganhei. E tive ideias por isso também ganhei. Porque o Arroteiro quis uma sociedade desprovida delas.
Então, eu também ganhei. Ganhámos os dois. E ganhou toda a nossa família.
E o Arroteiro?
O Arroteiro perdeu quando quis escravos.
E as pessoas?
As pessoas perderam quando se deixaram cair.
Então somos nós os vencedores?
Somos nós.
Só nós?
Só nós.
E de que nos vale isso?
Nada vale, como a vida. Mas lava a alma.
E a alma vale tudo, certo?
Vale o fim e o início.
E nós estamos no fim?
O fim chegou, o Arroteiro está perto.
Então perdemos?
Nunca, maninha. Nunca perdemos. Nunca mais.
Somos os maiores.
Pois somos.
Somos tudo.
E o tudo está a chegar ao fim.
Somos o fim.
Somos o fim.
E depois?
Depois, um novo início.

Sou e não sou

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O mundo é uma ferida na face das pessoas, porque é o que lhes oferecem quando nascem e elas o odeiam. Fingem que não, porém. Fingem tudo belo e tiram milhentas fotos. E o que são fotos que não prisão?
E o que não é fogo senão ferida nas faces das pessoas?
Contigo levas nada e vais sozinha. E ir sozinha é medo e é triste…
Mas não era, pois não?
Ser não sozinha é prisão e também é triste.

Tu hoje és flor, mas durante quanto tempo serás flor?
Hás-de cair, porque as flores duram pouco e são frágeis…

Hás-de cair porque todos os dias te vez ao espelho e vez com os teus verdadeiros olhos esse golpe de alto a baixo que é a desilusão que o mundo te deu como presente de nascimento e de existência… nula.
Podre.
Fétida.
Pobre.

Esquece, olha, tudo se há-de resolver sem tu seres mais flor. Ajuda a sarar as outras pessoas. Assim será porque, não te mintas, foste talhada para isto, para entreter e ajudar e não te mintas, porque achas que sabes fazer tanto?

O violino e o origami e a ginástica e o desenho, que é tudo isso senão entretenimento para sarar as faces? Que é isso senão enternecimento desigual por tudo o que existe?
O mundo não é uma ferida, as pessoas é que o julgam assim.

Enterte e enternece. Dá consolo à existência das pessoas.
E à tua.
E sê positiva, por um texto que seja.

Sê fresca como a brisa, encantada como a moira.

E sê a glória que a todos falta.

Sê mais que a esperança: o objecto de espera.

Reflexões multiplo-estúpidas

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Vivemos num tempo feio de gente. Porque gente? Sempre gente, ora. Noutro tempo, mais bonito seria ver estes barcos a partir. Mas gente tem de ser má e deixar os outros. Estou em grave greve do mundo e das pessoas tão cheias de escrúpulos e preconceitos. Odeio pessoas, como não?? São bichinhos repugnantes. Comem-se uns aos outros e depois cospem e voltam a engolir, como moscas. Mas moscas são mandadas. Gente não, gente mete nojo e eu odeio. E não posso, não consigo vê-los sofrer. É como uma desesperada tentativa de matar o Gatinho Mau – ele não deixa de ser um gato, pois não? Um fofo e lindo gato, um gato horrível que persegue a minha Pantera, mas ainda assim um gato peludo e aprazível.

Assim são as pessoas que não consigo deixar a sofrer. Pobres pessoas… e assim as amo e assim, do tão mesmo modo, odeio. E assim tudo, tudo assim, em forma de contradição. Tudo junto como um fascículo de revista que desejava ser melhor, ser uma pêra doce, docinha, paciência, existe e existe – ainda bem. Sou eu mas sem saber quem tenta escrever que me vai ditando palavras, é o pensamento?, e de onde vem o pensamento? E assim me debruço a coleccionar palavras em telas, para tê-las, para matá-las, para morrê-las, para morrer-me, para morrer. Caída. Em telas. Em telas de escrita. Caída. Morta. Queimada. Como um trapo que se deixou à lareira. Nada melhor. Sempre. Para sempre morta. Que se quer da vida? A morte.

O que vejo com os olhos da mente

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Tenta alegrar e tenta ver o que vejo. Vejo tudo, só que não com os olhos. Os olhos são úteis, mas não para ver o que vejo. Vejo calma. Vejo calma despreocupada e calma. Nada de excessivos. As pessoas passam e acenam e sorriem, sorrisos tristes ou alegres, mas sempre calmos. Não há pressa. Não há nada para fazer que não possa ser feito já. Está tudo bem, tudo o que possa estar. As pessoas passam em pequenos passos e não há carros nem autocarros em corridas frenéticas. Não há estradas, sequer. Há caminhos e bilhetes para ver pessoas a morrer. Há tudo o que precisássemos. Não há pressa, porque nada precisa de pressa. Ninguém precisa de pressa porque há tempo para nada e nada é o que se passa. Acalma.

Não é triste, é livre. Cada um é livre. E cada um, depois de reflectir longamente, assim escolheu, esperar a morte a cada segundo que passa. É que esse é o único propósito da vida. Esse e o de continuar a existir. E, cumprido o dever, esperam a morte.
Este mundo não se vê porque não é nosso.

Este mundo onde vemos e vivemos chora e tem pressa e as pessoas não pensam. Então, tenho de me agarrar ao que vejo com os olhos da imaginação. Deixar-me desolada por esse ser não mais que utopia? Não vale a pena. Utopia é visível aos meus olhos e posso vê-la claramente como te vejo agora. Utopia é real como tu és real, porque vive em mim e na imagem que tenho dela, tal como a tua figura e o teu toque vive em mim e assim adquire a sua realidade perante o meu ser. Desejo que seja real aos meus olhos do corpo, mas esse desejo é impossível e é o que me faz sorrir assim. É uma ambição que não me deixará desiludida porque nunca fui iludida com a hipótese da sua concretização.

Estou em paz comigo e com o meu pensamento e como teu mundo.

Queres sentar aqui ao lado e fechar esses pouco úteis olhos comigo?

Não cabem mais pessoas

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Não cabem mais pessoas. Já estou em desespero. Já não há mais espaço. Quem queira, quem sabe, não pode, porque não há espaço. Já não há vagas. Fechou, tudo, cessou a actividade e eu não consigo aguentar mais um segundo, estou apertada contra vós, pessoas, e não sobra mais espaço para mais ninguém.
Estou cheia de pessoas. Elas passam por mim e riem ou falam ou choram ou morrem. Alguns mandam beijos e abraços. Alguns evocam um tempo futuro suposto em que voltaremos a passar juntos. Só que eu não quero passar junto. Nem quero rir nem chorar, nem quero falar, nem quero sentir nem ouvir, nem quero beijar nem abraçar. Não quero nem quero pessoas. Pessoas ocupam espaço e querem espaço no meu coração, mas a procura é em vão porque não há. Não há mais. Não quero mais. Pessoas estorvam e prendem e pessoas mais, mais tenho preocupações. Pessoas não. Pessoa sim, mas Pessoa já cessou de exercer. Pessoas não, coração nada, não mexe, não há espaço. É que tenho feridas de alto abaixo, rasgadas e cosidas à mão de muitas lágrimas, e pelas brechas sai sangue, goteja sangue, coração aperta sangue para todo o corpo, sangue sai por veias mas também por brechas e eu não aguento mais cortes, mais feridas nem mais lágrimas, não há espaço para mais enquanto quiserem que viva, que seja viva e que haja viva, e não há, não há espaço.
Aaaaperta e bombeia.
Bombeia e rebenta.
Rebenta e despedaça.
E não sobra
Senão
Estilhaços
Destroços
Pedaços
De alma ferida pelos cantos.
E não sobra
Senão
Um coração rasgado
Parado
Para sempre, até ao dia da sua decomposição total.

E, aí, já há muito estarei morta e já há muito que não haveria espaço.
Só despedaço.

Mensagem de PPPFestejo

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Neste dia o mundo festeja o dia em que tu chegaste à Terra e ainda não sabias nada. Nessa altura, nada te disse, o mundo, porque tu ainda não eras tu e ele não tinha modo de saber quem tu serias. Depois tu cresceste e continuaste a fazer anos e a festejar esse dia em que tu nada sabias mas que chegaste à Terra, mas, ainda assim, o mundo não tinha como saber quem tu eras e deixou-te a festejar sozinha. Hoje, o mundo és tu. Hoje, festejamos, pela décima oitava vez, esse dia em que apareceste perante a luz e as cores e os festejos e o frio e a fome e o desconforto. Coisa tola de se festejar, enfim, tu festejas, é como uma desculpa para ser e não ser. Um dia, quem sabe, há-de o mundo festejar este teu vigésimo terceiro de Novembro, só que o que te há-de valer? É que, por essa ocasião, já estarás morta. E ninguém festeja os aniversários antes de morrermos, pelo menos não os dos escritores. São datas fúteis. Serão? Depois, quando já não vos vemos, é que se lembram das homenagens.
Oh, repito, têm algo a dizer, contem agora! E depois esqueçam que existi, depois de existir! Aproveitem o que vos hei-de deixar do modo que preferirem, porque já não me podem prejudicar. Plágios e tudo o mais, que mal me farão à consciência se ela já não há?

Esqueçam-me, post-mortem. Recordar é sofrer, porque eu não existo mais. Se não estou no presente, convosco, celebrando, então esqueçam o passado e desprendam do passado. Festejem hoje, como tu fazes, Adriana :D Parabéns, Parabéns!

E um dia os véus, será que descobrirão...

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E, um dia vamos afogar em terras que caminham e escondidos em mantos, porque ninguém nos consegue ver. Mas nós não vamos escondidos, vamos clamando o nosso ser, então porque não nos vêem? Não somos nós que vamos escondidos, são os olhos deles. Vão cobertos em preconceito. E nós vivemos em harmonia e eles nada conseguem e nada vêem. Nós sorrimos e por dentro choramos. É que as pessoas lavadas no que vão lavadas não vêem não só nós mas o mundo todo, o mundo de miséria que se estende a estes confins de pálidos desertos. É que as pessoas vivem em esferas espelhadas e é que as pessoas querem viver em férias e não sabem de quê e não gostam de nada e não ajudam ninguém e fecham os olhos, mais, cerram-nos com força de quem não quer ver. E mais, tentam obstruir a vista de quem vê e fazem da ajuda um estereótipo para dar a ilusão aos descontentes de fechar os olhos, uma ilusão de que ajudam, mas, sabes que mais, ajudam uma merda e encolhem os ombros perante nós e perante os outros. e é isso que fazem, ora encolhem os ombros ora fecham os olhos. Esses são os gestos de quem tenta limpar-se da moralidade e de quem quer ignorar e de quem não quer saber do rosto além do nariz. Esses são ainda mais pobres que nós.

São pobres de espírito, pobres coitados. Mas desses não tenho pena. Porque esses criaram a lama e o lodo onde vão vivendo e passando estes anos.

E nós seguimos, desfilando pela paródia e pelo circo e vamos ver a Lua e vamos ver as casas e voamos sem asas e vemos sem olhos e sentimos sem tocar e choramos sem lágrimas e amamos sem paixão. Somos o coxo que corre sem pernas, somos a luz que arde sem fogo e somos o mudo que grita sem voz. Somos mais do que aquilo que nos deixam sonhar sermos e assim somos e assim vemos e assim sentimos e assim vivemos.

Cândidas Baladas das Noites Tristes

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Agora é a hora em que chegam estas horas de desglória, por quanto, quanto tempo mais? Por quantos infinitos vou ter de esperar? Por quantos olhares e dores e incertezas? Por quanto, quanto mais? Bolas, mais. Mais. Outro dia, outra noite, outro desliga. Ora, sempre, mas não quero sempre.

O que interessa o que quero, porém? Sou uma pequena formiga que corre contra os outros. Contra outros e ela apenas vê esses, porque vão contra ela, é tão difícil ver quem vai no mesmo sentido com o mar de gente que contra nós se insurge e aparece…

Bolas, que raio de contas são estas?

Só quero mais cinco minutos, sempre mais cinco minutos, só quero não dizer boa noite outra vez, quero convosco para sempre. Para sempre, toda a noite e todo o dia e poder ver tudo e comentar e sempre juntos. Sempre juntos…

Boa noite, mais uma vez. Boa noite boas noites, durmam bem, adoro-vos, amo-vos e tudo o mais… e todos os dias e é penoso, ora. Ora. Porque pessoas contra mim, não percebo…

Amor em palavras

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Amo papoilas douradas ao sol que não são douradas, mas lembram os cinco anos. Amo estrelícias pelo arco-íris espectral de cores. Amo amores-perfeitos, então se forem roxos e laranja, deliro. Amo hortências, que parecem gorros de criança ou dentes de leão, e amo os tons que adquirem. Amo narcisos, a tocar trompete. Amo flor do maracujá, rainha de algum coisa, não sei o quê porque não sei ler perfeição. Amo os dourados reflexos de aveia do trigo e amo todas as cores porque são da natureza e naturais. Amo os tons de prata que a água deixa escapar do passeio e atingem os meus olhos. Amo a quietude de um mundo adormecido que vou percorrendo ao som do vento acariciante. Amo perder-me em labirintos onde a razão não chega nem sequer os olhos e muito menos a realidade, amo ver jardins de lírios e árvores em choro calmo, amo imensamente os tons lava e fogo da lava e do fogo e da fogueira a arder e amo ouvir o crepitar, o estremecer dos troncos. E amo as pequenas coisas que assim tornam uma paisagem bela e dão descanso aos olhos e calma. E acalmam e não são excessivos porque não são excessivos. E amo as claridades matinais contra o negro das sombras que ainda povoam, os contrastes da luz, o céu todo branco e o mundo todo negro, como as asas de um corvo cor de carvão. E amo esta maldita beleza que cresce em toda a naturalidade com toda a naturalidade, sem reflectir ou hesitar ou planear ou pagar imposto. E amo a pequena gota que cai e atinge o mundo terreno em não outro lugar que não o meu nariz erguido às nuvens. E amo profundamente tudo isto, sem reflectir ou hesitar ou planear ou pagar imposto. E amo os caminhos lavados e amo os sorrisos e amo os olhos e amo e não posso deixar de o fazer. E então dizem-me que esta paisagem é feia e que sentem falta da modernidade de linhas e cinzas e eu choro o mal que querem a tudo o que amo.

Amo o que escrevo, o que é lindo =)

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Vou olhar para vós todos e guardar-vos comigo. São como gotas de água cristalina e amo-vos perdidamente. São meus filhos, meus e de todo o mundo. Escrever-vos é um transe, as palavras surgem, a caneta escreve e eu deixo-a pensar, a caneta pensa e eu dou-lhe movimento, mas depois apenas os meus olhos lêem, porque bico de caneta não foi feito para ver nem ler nem amar, rasgar o papel até brotar sangue, é esse o propósito de bico de caneta, construindo os meus textos, meus filhos. A caneta pensa e pensa e eu escrevo e escrevo, deixando a fonte de tinta satisfazer os seus caprichos.

E o que sobra.

Sobra enfim, dou descanso à caneta, fecho o pequeno caderninho e suspiro, completa. Acabou, pois claro, acabou mais um texto. É sobre quê? Não sei, ainda não li, ainda é um bebé, depois hei-de compreendê-lo, mais, hei-de vê-lo crescer a meus olhos e a transbordar de alma e significado.

Gostaria de vos abraçar todos, são tão tudo o que tenho e tudo o que significa, porque são eu verdadeira, a verdade todos os dias trancada. Se eu eu e eu existisse e não fosse pessoa, se fosse eu verdadeira ao que sou, não seria pessoa, nem gente nem humano, seria palavras em forma de textos, seria tinta de caneta, jorrando do ferido papel, por aparo de pena, rigidez sangrenta que não é mais que beleza em estado mórbido.

São textos os meus textos e são meus filhos e do mundo e da caneta que assim se chega, e eu sou eles, estou neles, são o meu espelho e meu reflexo em verdade contada, porque não há verdade nem mentira, há apenas ser e ser só tem uma dimensão e nada mais se nota e ao olhar para vós é como debruçar-me a uma varanda e ver um rio ou um lago ou um mar ou o gelo ou uma nuvem e ler-vos é mergulhar nessa vossa imensidão transbordante é ir ao céu ver a Lua e as estrelas de perto, é tomar boleia da nuvem e pensar sobre isso e deleitar-me nisso e no conhecimento de saber que a vossa mãe sou nada mais que eu, mãe de todos vós, meu espelho da minha alma onde me espelho e onde a sabem reconhecer, como irmã e como gémea e digo, olhem para os meus filhos e esqueçam quem vos parece que sou, porque quem eu sou são eles e não há mais, é só, é simples e não há mais a dizer, apenas o cessar do discurso, pousar a caneta, fechar o caderno e suspirar, de harmonia, completa, inteira.

A vida - pessimismo realista - 12.11

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A vida não vale a pena.

E esta é a triste verdade de todas as coisas.

A vida não vale a pena. E não podemos fugir dela.

Mas, oh triste e vã esperança de um sentido, só que não existe.

Não há mais que oco. Oco. Oco. É o fim mas não é o fim. Querias fim, mas não podes.

A vida não vale a pena. E tu nada podes fazer. A vida foge por entre os dedos.

Querias tu. Mas não. Tens de a viver e sofrer com os outros.

Tens de ir com os outros sofredores. A adivinhares o final.

E tu já só vês o final. Só queres fim. Finito.

Mas finito não há. Não mais.

É uma tormenta.

É tortura.

É a tua desgraça.

Em forma de corpo e carcaça física.

Em forma de átomos, de vasos e sangue,

De frescos químicos à força da electricidade.

De vontade vontade vontade. Só que vontade não há.

Porque a vida não vale a pena e a vida está fora de moda.

E tu sabes e não queres mais, só que isso era egoísta e as pessoas.

Oh, as pessoas. Como mandam e são cegas e buscam sentido que não há.

E, assim, encaixam em modelos de sentido por outros ditados, sentido que não há

E muito menos é verdadeiro. Encaixam e os modelos dizem que vale sim a pena

Então repudiam-nos pelo nosso pensamento e chamam-nos egoístas

E nós não podemos partir sem eles, porque seriamos egoístas.

Eu quero, mas não posso, eu quero e não aguento.

Eu tenho de aguentar. De cabeça baixa,

Para sempre caloira da vida.

Sempre a perder.

Sempre perdida.

Sempre na merda.

Sempre cumprindo.

Sempre mobilizada.

Sempre chorando.

Para sempre viva.

Mas que vida?


Dois Pequenos Mini

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Escrevo-te porque um dia esquecerás porção e não mai sverás estes escritos até lá. Até lá, bom fixe de vida... =)


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Corvos e coveiros são pedaços da mesma paisagem e essa paisagem é bela e cinza.

Divago

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Parabéns, Adriana.
Tens 18 anos.
Sabes o que isso quer dizer?
Quer dizer que já se passaram 18 anos desde o dia em que abandonaste o conforto da barriga da tua progenitora.

Quer dizer que vais ter de acatar novas regras, porque vives numa sociedade estupidificada.

Eu.
Eu poderia ser tu que vais ler isto, só que não.
Eu sou algo, neste momento.
Tu serás outra, tu és outra.

Saúdo-te, cumprimento-te e, já agora, dou-te os parabéns.

Os átomos que faziam parte de ti nesse 23 de Novembro de 1991 já não são os mesmos, apenas os elementos. Células? Acho que nenhuma, só de anos posteriores começaram a ser guardadas.

Já viste como essas pequenas células são as que fazem de ti quem tu és?

Quem tu és?
Quem és tu?

És eu com mais células atulhadas em memórias.
És eu e tens mais que eu.

Parabéns, parabéns!

Poderia tentar adivinhar quem és, atrevo-me a dizer que não serás muito muito mais.
Não em termos de socialização, não. Lá daquilo das tuas ideias, as tuas belas ideias.

Atrevo-me a dizer que amas a Natureza.
Atrevo-me a dizer que amas Pessoa.
Atrevo-me a dizer que amas ler.
Atrevo-me a dizer que amas escrever.
Atrevo-me a dizer que não tens namorado.
Atrevo-me a dizer que odeias a branca de neve.
Atrevo-me a dizer que odeias modas.

Olha, estou para aqui a escrever-te, passa da uma e eu a escrever-te.
Não sei quem és, posso apenas adivinhar.

E adivinhar que isto te há-de chegar às mãos.

Parabéns, tens dezoito anos.
És, oficialmente, maior de idade.

E levas-me contigo, não é lindo?
E ensinas-me o que acabas de descobrir.
Como é cinza e cinza espero que seja o teu dia.
E que não chova, ou que não tenha chovido, depende de quando leres isto.

Adoro-te, de qualquer das formas.

Ou talvez não.

Parabéns, Didi, Adri2..9, AGMattvs.9, Zozie, Nanou, Aiandra, Anairda, Nanveqn, Adóriana, DiMattos, Gaspar DiMattos, Adriana, Adriana Gaspar, Adriana Gaspar de Mattos, Adriana Maria Pires Gaspar de Mattos.
Parabéns, querida.

O sorriso mais lindo do mundo

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O sorriso dela era mais que viciante, era mais que querido, era mais que contagioso, era mais que lindo.

O sorriso dela era mais que um sorriso de alguém mais.

O sorriso dela era o meu tesouro de cada momento, era um mundo que se abria à minha frente, era uma luta ganha contra a nuvem que tomava conta dela, cada vez mais.

Era o Sol que despontava.

Era uma raridade e uma preciosidade.

O meu mundo era o maior por cada sorriso.

Por cada pedaço de mundo.

Amo-te amo-te e tu és a minha querida borboleta.
O teu sorriso para sempre desapareceu, mas isso é só o que as pessoas vêem.

Porque o teu sorriso estará sempre na minha memória, guardado como o meu maior tesouro.

Sinto

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Sinto-me como um peixe abandonado na areia, tentando respirar o ar, desesperadas tentativas de aspirar o todo à sua volta, sem conseguir, sentindo-se cada vez mais afogado.

Sinto-me assim, e assim me deixei cair em desespero, com lágrimas preguiçosas escorrendo, em silêncio apenas interrompido pela minha tentativa de respirar, respirar, aspirar o ar, tentativas espaçadas, cada uma mais intensa e curta que a anterior. O ar deveria ser-me familiar, mas parece que não que não que não :-(

Isto assim é tristeza das palavras que ficam por dizer. Oh, tristeza de palavras, poucos, tão poucos os momentos restantes para o juízo final, eu tiritando de medo, como um espanta-espíritos ao sabor do vento.

Como odeio e odeio que fique algo por dizer.

Comentário

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Os dias passam, porém, a adoração que nutro por ti não diminui com elas: é ampliada e multiplicada. Como te adoro, álgebra!

Chegada

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O comboio pára, num último solavanco, agarremo-nos ao que pudermos.
Um livro ou outro que cai, uma velhota que, depois do esforço para se levantar, aterra de novo no assento.
Tento espreitar para a rua, mas a janela devolve-me a minha própria cara, aquela face retorcida que me segue por todas as superfícies espelhadas.
Meia dúzia de empurrões depois, estou às portas, de saída daquele, apesar de tudo, lugar confortável - é suposto sair depressa, parece que nos dão pontapés até o fazermos - num salto, porque é tremendamente mais divertido que descer os ridículos íngremes degraus, estou fora. Cheira a noite e a óleo. Cheira a borracha. Com sorte, cheira a serra e árvores, mas hoje não.

Uma vez mais, sou abandonada no apeadeiro, largada pela lagarta que com vagar se afasta. Com vagar, não, com muita pressa. Olho sempre para trás, vê-la partir deixa-me melancólica. Depois, sigo contra a torrente de pessoas: vão todas para outro lado, qualquer que seja, não é o meu. Eu vou sozinha. Fico sozinha.

É noite, agora. Sempre de noite. Sempre sozinha.

Sigo pelas ruas amargas. Não há passeio, sequer, só estrada, casas e linha. Os carros passam numa corrida desesperada. Não há luz, a não ser a de um ou outro candeeiro a avariar.

Vou ouvindo os meus passos, esperando que sejam os únicos que vá ouvir. Conto-os. Ou canto baixinho.

Sozinha, aconchegando o meu "livro do comboio" que não é livro do comboio coisa nenhuma, isso não é mais que um pretexto para o aconchegar contra mim, é o meu preferido.

Sou eu e ele, numa rua de fábricas abandonadas, tentando ignorar o que vejo. Aqueles olhos verdes que me seguem.
Imagino-os sempre verdes, ou qualquer outra cor que me faça estremecer em medo.

Acelero o passo.
Sozinha, de noite.

E com passados de outras vidas a atormentarem-me.
"Podia ter sido eu. Podia ter sido eu."
E os olhos verdes vão-me seguindo.

Querem fazer uma ideia?
Eu vejo cabeças de dragão em osgas.
Imaginem, então, o que verei na sombra da presença de um monstro de pessoa.

Nunca há passeio.
E as ruas estreitam e a luz é cada vez menos.

E o frio que tanto adoro, torna-se desconfortável, prende os movimentos.
Tento ignorar tudo e observo a minha sombra cintilante. Na maior parte do tempo, não há sombra.

Vou sempre só, mas não estou só.
Tenho os olhos verdes que tanto odeio, tenho o medo e a angústia. Tenho uma torrente de pensamentos e de recordações inventadas, que não são minhas mas serão de alguém. De alguém tão próximo...

Fecho os olhos.
Nestes dias, não cheira a nada. Nem a lavado, nem a serra, nem a puro, nem a arvoredo.

Comigo vêm os cheiros do comboio, à falta de outros: a tosse, a rugas e pele a sair, a mofo, a velho.

Já nem há animais a cumprimentar.
Recolheram ao conforto.

Está tudo molhado e cinzento, excepto que não é cinzento porque é de noite.
É tudo negro ou cor de lâmpada quase a avariar.

É tudo gotejante e não há uma única estrela para amostra.

Dou os últimos passos.
Em casa, por fim.

Estes dez minutos a pé cansam mais que o resto do dia.


E é tudo tão feio...