Tendências

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Tendências

Escrito nos dois dias de 25 e 26 de Maio de 2009,

enquanto me têm durado as Tendências Homicidas.

por Adriana Gaspar

Acto I

(o das sensações fortes)

Cena I

(a maior)

Vês?

Não quero saber da justiça dos outros. Deram-me a vida, deram-me o mundo, agora bichem-se nas consequências.

Não, não me importo de matar pessoas, findar com os figurantes desta história.

Matar todos que tornam o mundo mais desagradável. Este irritante povinho é o mesmo de sempre. Que morra.

Nem a ditadura bastou para os apaziguar, porque comeu os errados.

Tomara que o mundo fosse corrido a uma ditadura decente, que dizimasse todos aqueles que fossem podres de espírito, em vez de encavernar as pessoas erradas em tribunal.

Tomara que uma faca de justiça bastasse, que a educação mudasse e que esses cabrões desaparecessem de vez! São eles que povoam este mundo de disparates! Não estão só enterrados em lama, são eles que a produzem massivamente!

A pocilga é culpa deles! E é nela que querem que viva.

Tomara que não saíssem às ruas proclamando os prazeres naturais e que se apercebessem do serem tão grotescos e se conseguissem mudar a todos ou suicidarem-se para que eu não tivesse de perder toda a minha vida à procura de justiça!

Que se lixe! Que morras tu, Homem, toda a espécie, para que se dê fim a esta dor de cabeça.

Que se encerrem todas as instituições, que se destruam todas as invenções, já que não há milagre algum que faça esta gente desaparecer!

Que me deixem ser ao mundo, eu e a minha faca, chacinar todos esses bonecos de plástico eternos. Deixai-me rasgá-los, deixai-me satisfazer esta vontade, porque eu não quero saber da justiça do estado!

Eu sou eu e ninguém mais me importa!

É a mim que devo satisfazer.

É comigo que me preocupo, por isso faço tudo à minha maneira.

Encravem esta sociedade naqueles que precisam de regras e de orientações, porque eu não preciso!

Fugir desta ditadura medíocre e trocá-la por algo de verdadeiro e essencial e vamos a ver quem resulta melhor.

Querem apostas?

Vês? Quem achas que me tornou assim? Foi o mundo que me pariu, que me cuspiu para dentro dele e me sujeitou àquilo que me fez como sou. Quem me criou foi o mundo! O mundo criou a sua autodestruição. E dar-ma porque posso!

Tomara que fizessem a tal bomba com 10 raios da Terra! Que engolisse a América, a Ásia, a África, a Europa. Todo o planeta.

E Portugal! Especialmente, Portugal! Que fosse em primeiro, para terminar a minha desgraça.

Que se rebente Mafra, Lisboa, Lousã.

Que se expludam os Algarves!

Que a Guarda saia do mapa!

Para que se deixe de tentar igualar Versailles com mediocridades!

Para que o mundo possa suspirar de alívio, e logo a seguir que se partam os Estados Unidos e no segundo depois a restante Terra e que não sobre nada, nem satélites, nem ondas, nem património para extraterrestres, merda, que nada pode sobrar deste decrépito ser que não pode jamais voltar a existir!

Que se eclipse tudo!

Ou então, deixem-me matar.

Sem vida decente não há vida alguma, somos mero animal instintivo, deixai-me matar alguém como quem mata uma pobre aranha.

As aranhas não nos obstroem a mente!

Só quem as mata!

Sim, Deus perdeu de vista o Adão de barro.

Vês? Vês como Almada tinha razão?

"E com pena fez outro de bosta de boi"

E os ratos roeram-lhe os miolos que nunca prestaram e das caganitas nasceu Eva, mãe de todas as Meninas!

Mãe Natura, nunca deveria ser crime limpar os produtores da merda onde vivemos.

Não achas, Mãe?

Deixa-me ir à caça da justiça, Mãe.

Vamos acabar com esses.

Vamos juntas, Mãe.

Cena II

O mundo julga-me porque pode,

por isso mato porque posso

ou talvez posso porque mato.

O julgamento não é mais que constatação de factos com castigo no fim.

Eu matei como pude para ter uma casa mais agradável e quem me julga não tem vontade de pensar.

Linhas guias há de um livro que lhes rege a vida.

A minhas delas não precisa, porque o mundo me ensinou assim e assim me deixou fazer.

Se nunca matei foi por não querer injustiças que metam meus pais em trabalhos.

Coitados, tiveram-me, nem sabiam que lá vinha.

Podiam-me ter matado à nascença, por acidente, pobrezinha, e faziam outro, como se faz nestes casos, mais uma produtora de lama.

Pobrezinhos, não sabiam o que faziam.

Nem o sofrimento que me davam.

Coitados, tristes, inocentes, pobrezinhos.

Não, não sou culpa deles.

Sou culpa dos produtores de lama.


Cena III

Diz-me que raio de justiça é a justiça de estado.

Um homicídio é crime?

Se pudéssemos julgar doenças, quais apanhariam maior pena?

Aquelas que te fazem adormecer, calmamente, e nunca mais acordar ou as crónicas, que dão mais sofrimento por mais tempo?

Talvez devêssemos perguntar às pessoas.

Matar um cagão de lama é como esfaquear uma crónica.

A destruição das almas já está feita, mas os que vierem a seguir já não sofrem.

(E que bem lhes faremos por privá-los disso?)

Que se danem, eles.

Quero, eu, viver sem estes cabrões comigo. O mundo cuspiu-me para dentro dele, a culpa é dele, ele criou-me.

E vou matá-los, estripá-los, desmembrá-los.

Matem-me a mim primeiro, se conseguirem. Tentem encarcerar-me, destruir-me, como fizeram aos meus amigos, vamos ver quem ganha.

Experimenta só.

Mas não tentes mexer no meu sentido de justiça.

Cena IV

Acabar com todos é poder dar o sorriso final. Malvados figurantes. Se a mesquinhes cegasse, o mundo seria governado pela mulher do médico. Mas a mesquinhes dá dinheiro.

E nós nascemos pré-fodidos.

E obrigam-nos a suportar isto.

Dividam-nos duma vez, bolas! Medíocres conformistas para longe!

Deixem-me em paz de uma vez por todas!

Não quero o mundo nem quero religiões nem quero sequer ter nascido.

Pobres dos que, como eu, se apercebem de que nos benzemos na lama e que o Lodaçal não é metáfora.

Vamos juntos! Vamos matá-los!

Por favor, dêem descanso à minha alma e satisfaçam a sede das minhas mãos. Deixem-me carregar as minhas espadas e abrir o peito dos infiéis e despojá-los do corpo onde não mereciam ter encarnado.

Dêem paz ao meu sossego, à minha cabeça. Deixem-me matá-los!, tou farta de figurantes! Já não o disse? Estou farta!

Acto II

(sossego)

Cena I

Fleur de lys

que se entranha. Gotas de rosa, espinhosa, pequenos morangos que ficam presos ao canto...

Extermínio de todos em cenário bonito, lama por sangue, lama por sangue, muito por pouco, lama por sangue, a mente acaba, lama por sangue.

Todos atarefados por calma.

E enquanto a vida se esvai pela ponta da minha faca fico um segundo mais calma, um segundo mais leve.

Com sangue se escreve, os infiéis findaram.

Com sangue se escreve, "25 de Maio de 2009, a lama foi trocada por sangue, os infiéis findaram".

Flor, faca de lis.

Finda os outros por mim, como ponta de caneta e a tinta é sangue.

Que bonito e plácido é hoje o mundo.

E os infiéis tornam-se úteis, tornam-se escritos maravilhosos.

Tomara que todos os dias fossem vermelhos e calmos como o de hoje.

Que todas as horas fossem desta paz d'alma, desprovidas de sensações excessivas.

Fleur de lys hoje está em paz.


Cena II


Boa, majestosa morte. Não há mais barulho.

Ninguém vai gritar por perdão nem por socorro nem por deus nem por futebolista nem por mamã.

Silêncio absoluto por fim. Calou, para sempre.

O sangue que escorre, sem força, e lama que já não tem quem a adore e evapora.

Boa, majestosa morte. Tão logo silenciosa, faca que rasga o ar como um lírio a acariciar a brisa, faca de lis que abre o peito como pétala de lis que tomba.

Todos mortos e agora já posso descansar.

Todos menos eu e os outros. Aqueles que têm fome de descanso, fartos da ânsia que os infiéis nutrem por nós. Sobrámos os anormais.

O corpo é bom, já livre do demónio.

Os inconvenientes foram.

Tinham-me dito para esperar uma ditadura. Estou farta de esperar. Boa, majestosa morte em primeiro.

Já não dói.

O mundo já é lindo, pela primeira vez alguém o pode apreciar.

Vês?

O mundo natural e o mundo artificial em perfeita sintonia, em perfeita beleza.

Todos mortos e eu em fim séria.

Em fim séria e com o poder na minha mão.

Em fim séria e livre.

Em fim com os meus.

Por fim nós.

Só.

Consegui, Mestre Almada.

Cena III

(Dedicado ao único tribunal que ainda me consegue castigar a alma)

Não fui má.

Fui agradável, fiz um bem ao mundo.

Vês?

Repara como é lindo o mundo, hoje.

Não fiz nada de mal. Fui rápida, de que serviam estas vidas que caminhavam à morte?

Não vieram cá fazer mais nada, estavam só à espera do fim. Dei-lhes o fim mais depressa, sem sofrimento.

Mãe, não, nunca fiz nada de mal, não fui má, não fui, mãe, não, não chores, mãe, mãe!, olha como é bonito o mundo, mãe, mãe?, mamã?, não gostaste, mãe?, mãe!, desculpa, mamã, mas não chores, porque eu fico triste, mãe, abre a tua mente, mãe, eles iam morrer de qualquer modo, eu não fiz nada de mal, mamã, olha, olha que agradável é o mundo, mãe, não percebes?, porque é que não percebes, mãe?, olha que felizes podemos ser, mãe, percebe, pára de chorar, mãe, preciso que tu percebas.

Mas, mãe, eu não sou um monstro.

Mãe, mamã, estás a sonhar, acorda!

Acorda, mãe, e vamos fingir que não se passou nada, que foi só um sonho, que esta vida não se passou e que esta gente nunca existiu, acorda!

Está tudo bem, mãe? Acho que tiveste um pesadelo.

Tendências

por Adriana Gaspar

24 horas por tempo

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22 de Abril de 2009


Diário

Caravelas d'ouro. Cachos dourados à luz do Sol.
Do Sol que vai caindo na água, do mar, trazendo salpicos da luz dourada, reflectidamente espelhada.
Some-se o dia. Com vista para o Douro.

Noite

A eficácia das nuvens enfeitiça as estrelas com veludo negro;
e o mundo se embrenha na escuridão.
Não há Lua, não há estrelas, não há cidade, em suma, não há luz.
Escuridão angelical dá descanso aos meus olhos, que não fecho.
Desfruto do escuro.
Espanta-me a luz, não o escuro.
A pergunta não é como come o escuro a luz.
Estou à beira do Douro, mas poderia estar em qualquer lado, veria o mesmo.

Pedido de desculpas

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Desculpa se não fico extasiada com as roupas da última moda.
Desculpa se não sei todos os nomes da maquilhagem.
Desculpa se não conheço as músicas do momento.
Para ter roupas, tenho o meu armário. Desculpa não as ter na cabeça, tenho-a cheia de cultura.
Desculpa se prefiro música clássica a barulho, se prefiro queen a D'ZRT, se prefiro Jorge Palma a Tony Carreira.
Desculpa se odeio discotecas, se não gosto de sair com os amigos, se não trago ninguém a casa, se não tenho namorado.
Desculpa não ser uma vulgar adolescente de 17 anos, se não gosto de cumprir com os esteriótipos.
Desculpa se prefiro a loucura à droga, se gosto de revirar o mundo, se gosto de ESCREVER quando não "devia" (quando não seria suposto...).
Perdoa-me por nunca ter gostado de princesas.
Perdoa-me por ser tão diferente dos outros, de ti, de não me conseguires compreender e de não existirem livros a explicarem-me.
Há coisas que me custam, mas vai-se vivendo.

Balançando [entre o desespero e a esperança]

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[Depois de ler a Mensagem de Fernando Pessoa: a minha interpretação conjugada com a sua aplicação à minha Pessoa.] 

Esperar por grandeza 
É como esperar D. Sebastião 
Esperar é ter a certeza, 
Especialmente, esperar por grandeza, 
Que ver chegar tal beleza 
Há-de valer os minutos que passarão. 

Esperando, tenho esperança 
De que chegue o que não irá chegar 
Porque todos são tempos de mudança 
E a grandeza ergue-se, balança, 
(Maio de 69 na lembrança, 
Mas Portugal, assim, não avança.) 
Ter esperança é saber esperar. 

O nevoeiro de El-Rei espero, 
Mas no nevoeiro já está Portugal. 
Então, suspiro e desespero 
Farta de esperar, pondero: 
Não há grandeza, está tudo mal! 
Acorda, acorda(,) Portugal! 

Esperar por grandeza d’alma 
É como esperar D. Sebastião: 
Ter esperança sem justificação. 

Finito.

Viajar por aí

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Fazer a mala.
Empacotar a vida num caixote que custou os olhos [da cara].
A vida presente, supostamente, volto em breve.
Pelo que a caixa de sapatos onde encrava a minha vida desde pequena fica cá.
Espero voltar. É sempre bom vir morrer à nossa terra.

*

Fazer a mala.
Empacotar a vida, mas que vida?
Mudas, roupas, que vida mais podre!
Não há remédio.
Cingir a vida a uma mala partilhada por três.
A 23 kg divididos por três. [Nem lá perto chega.]
Os textos não vão na mala. Vão comigo
na mochila.
Assim sendo a minha vida não vai na mala.
Vai às costas.

*

Amanhã.
Andar de avião.
como aqueles que se veem passar no céu.
lá altos, ao pé das estrelas
ao pé das estrelas...
que versão bonita (distorcida)
vou voar, mas acho que não vou voar.
Vou apanhar boleia de um bicho voante.
Como subir às costas de um pássaro.
Não vale.
Também não valem dois valores a menos.
Vou voar mas não sou eu que voo.
Se voasse tinha de ser a fazer força.
Asa delta é mais voar que
de avião.

Estrear-me de avião.
Nunca andei.

*

Eles já lá estaram quando eu sair de cá.
Mas eu fico mais tempo.
A ver se nos vemos.
[Espero que sim]

*

Acho que estou mais pela viagem que pelo objectivo.
Aah!

Quero ver o que essa tal cidade me vai trazer.

BEIJINHOS PARA OS QUE FICAM!

*

Empacotar a vida numa mala.
A vida não, as vestes, que a vida vai às costas.
(60 e poucos textos.)
Aqueles que deixo...

Jo-So um xi, gosti.
Teruxka, porta-te e cuida-te (e defende-te). Quero ver-te quando voltar.

[Que é isto? Uma carta de despedida?]

Ybs, bichinho-da-seda, que te diga?, beijinhos.
Xico, 3ooo anos passam depressa.

Até quando vos veja a todos vós e aos restantes, não mencionados.
(Se voltar, respondo-me.)

Aniversário no Lousanense

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A minha vida está a começar, atendendo às estatísticas. Mas de todas as conversas que oiço, não há uma única que me desperte o interesse. Como são os adultos capazes de tratar a vida de um modo tão banal? Como falam apenas dos seus “brinquedos”, das suas doenças, quando existem carradas de assuntos por tratar? No fundo, só vejo iguais. Os meninos são presunçosos, as meninas têm a mania que são crescidas. Nos senhores baila aquele sorriso de malandro, soltam aqueles risos/grunhidos. As senhoras tomam, algumas, as atitudes mais porcas e indecentes de se poderem imaginar, mas em todas reside a expressão: “isto é tudo nosso”. Há quem me lance um olhar inquiridor, por estar a escrever. ha-a-a. ha-a-a. “O nosso povinho resume-se a isto!” diz a minha mãe. Nem imagina a razão que tem para este escrito.
Mergulho a cabeça nos braços e esqueço que aqui estou. Demora mais que o desejável.
Bendito seja este malvado lenço da carteira da minha mãe. Até a caneta das minhas colegas deu jeito. Se não fosse a minha escrita, não sei o que seria de mim.
Esta pobreza de espírito é DEPRIMENTE. Pobreza de espírito: é essa a expressão ideal.
Aguentar-me sozinha tem sido difícil. Porque eu tenho dois tipos de timidez: por desespero e por classe. Este último tenho-o em relação aos meus colegas. Com eles chego a sentir-me em família. Mesmo com os professores.

EQM

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Não houve visões do tempo passado, não houve verdades claras como água.
Oco vazio, só um pânico profundo e um pensar que não passava dali...
Morte lenta, o que é que eu faço?, não vou conseguir respirar, faço barulho, caio? o que É QUE EU FAÇO??!!, tento chamar gritar atropelo-me quem eu quero? sai-me mãe, na minha VOZ!, da minha garganta MÃE! sai-me e agarro-me a essa esperança e grito mais MÃE!MÃE!
e ela escorrega-me garganta abaixo e acalmo-me, está tudo bem.
Pensei que não passava desta.
Nunca mais masco pastilhas no banho.

The Dark Defender

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Indivíduos choram, no chão, caídos, despedaçados, destroçados, dis-trocidos, esquartejados, estripados.
Indivíduos choram de embriaguez de puta vida, injusta.
Indivíduos choram, vítimas.
E, então, vêm os vingadores fazer justiça pelas próprias mãos.

E enquanto mal-produzo

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E enquanto escrevo lixo
Escrevo
E enquanto as maçãs são caras
Escrevo
E enquanto as metáforas escassam
Escrevo
E enquanto todos dormem
Escrevo.
Escrevo enquanto durmo.

Das ist freewriting

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Eu falo o que escrevo
E o que escrevo é descargo
Consciência retratada
Reciclagem de palavras
Doente da vida
Sóbria do pensamento
Comportamento fúnebre
Atitude afirmada
O que escrevo não me diz nada
Hoje não tem significado
É freewriting,
Escreva livre
Mente pura
Como vem
Pensar
Não quero
Significado
Não gosto
Gosto de
Ser livre de ser.

CNS

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CNS
Como um todo. Eu? Zarabatana e arco. E um espada, para emergências.
Morte certa. Mas que importa? Caminhamos para o suicídio, propositadamente. Cinco contra centenas.
Treinos de anos.
Tiros certeiros.
O mundo é todo nosso. Todo meu.
“Guerras sem objectivos, sem inocentes”.
Gosto-me.

L2oo9 P2oo8

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Diário de viagem.
Já não disse para acabar com o tom de diário?
Esqueçamo-lo.
A vida é feia e o mundo é podre.
Sujo.
Ao contrário do meu caderno limpo e organizado.
_
Faltam cá pessoas.
O mundo é estranho e vamos morrer todos.
_
O pessoal vem para a escola
Confiante de que os amigos se mantêm
De que podem esperar sempre o mesmo.
Não me espantava se um dia chegasse
E encontrasse hostilidade.
Não me espantava, como Edgar Perry.

Passa-Tempo

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Tic-toc naquilo que sou. Regresso no tempo. “Reflicto naqueles momentos desperdiçados/Com aulas, …”.
Que tempo oco! Para que serve? Para escrever.
30 minutos a menos na minha vida. Aproveito-os para escrever.
Trabalho vou ter muito quando chegar a casa e bater o texto. (A computador.)
_
Escrevi tanto hoje! (Obrigada, Joanna). Perdoem-me os que lerem.
O Escreva!, o Escritos Dispersos.
E o Crónicas do Lodaçal, porque não estou a escrever para ele.
ACABA COM O TOM DE DIÁRIO AGORA!
_
Fim.

Irrealidades existenciais

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Palhaços até dos gostos conformistas. Porque amam tanto aqueles que têm dinheiro, mais dinheiro que eles?
Adoremos o Pai Natal, por não existir. (Como Deus? Não, os que o adoram acreditam que ele existe. Os outros não.)
Adoremos o cérebro, a maquina criativa que nos dá fogo de viver. Sem cérebro eram os insectos e ninguém se preocuparia como o mundo.
Adoremos a imaginação e a criatividade. Principalmente os sonhos. Não justifiquemos as nossas adorações com as nossas crenças.
Que interessa que nos chamem loucos?
Não acredito no Pai Natal, mas adoro-o. Não é real, mas existe.
Se não existisse, não poderia falar dele. Existe mais que algumas pessoas reais.

Quando eu era pequenina

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Há já tanto tempo que queria ter escrito isto! Porque nunca? Deve lá estar escondido numa metáfora. Metáfora da vida. Realidade. Metáfora de textos. Maças. Metáfora literal do mundo. Lodaçal.
Olha, fui eu que escrevi. Kawaii.
E os fantasmas da Nostalgia? Voltaram.
Serão nostalgia ou serei eu assim?
Um vestido como o da minha infância? Ou um vestido porque sempre preferi vestidos?
Será?
Nostalgia? Metáfora de mim?
De mim nascida para sofrer?
Fui real, verdadeira na infância. Porque não havia regras de etiqueta. Então a nostalgia não é da infância, é de ser verdadeira.
Conclusão bonita.
Linda, no meio do lodo ranhoso.
(Do mundo.)

Manifesto das Metáforas

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Metáfora da vida?
Metáfora da vida somos nós.
Pessoas.
Metáfora da vida.
É a realidade.
O físico. O material.
Nós vivemos no mental.
No psicológico.
Da metáfora recebemos sinais
Por intermédio de órgãos captadores.
Que informação não é distorcida?
Só somos nós no pensamento.
Nós, verdadeiros.
Só somos verdadeiros na massa cinzenta.
Tudo o resto é só nosso, não nós.
Meu braço, meu olho.
Talvez o mundo nem exista.
E eu esteja sozinha.
Quem sabe?
Há tantas pontas soltas.
Que sei eu?
Que uma dada activação eléctrica no meu cérebro me faz ver.
Não estará outrem a reproduzir o mundo?
Nada.
Nada sei.

Sejamos realistas no café

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Os expoentes da nobilidade, peço perdão por escrever muito, são fora ou cegos, ou não existem, agora.
São forças que nos prendem ou, não eles, a boa educação, nos prendem à mentira.Conveniência… mentimos para parecermos simpáticos, mentimos aos outros, mentimos a nós próprios, hipócritas da vida, eterna desonestidade.
Confirmado, confirmamos o nosso existir.
E eu, que sou quem mais me importa, átomos e células importantes!, bocejo e adormeço para esquecer, como beber, (d)o ranho do mundo.
Criando e imaginando, onde finjo que sou feliz…será que ser feliz vale a pena? (A felicidade está sobrevalorizada.)
Males destes tempos sóbrios.
(A realidade está sobrevalorizada.)
As ligações sinápticas existem, a imaginação é a maior ferramenta humana.
E eu sou eu. E um pouco dos outros e daqui e do antes.

Central nervous system

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Do porquê de metáfora escrupolosamente escolhidas. Metáforas ou meros pensamentos? Desde quando são os pensamentos meros? Voltando à metáfora. Não é, de modo algum. Quisesse eu uma, dizia-o. Como no Lodaçal, crala metáfora. Aqui não. É como que um desejo do vagamente imporvável. Ou antes, improvável bastará.
Um desejo do nunca vivido, do Central, neste Nervoso Sistema, tão desorganizado.
Metáfora nos CNS? Só a do Central Nervous System. Tudo o resto é verdade. *

Vos adoro.

Era, mas não

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Era
Provir do descanso
Este mundo manso
Ser imortal a inteligência
Universal a sapiência

Era
Uma tranquilidade suprema.
Mas o velho dilema
Revela-se por fim


As pessoas são ocas
E ninguém vai por mim.
Mentes puras são poucas,
Decentes inexistentes.
Que vida vencida.
Que alguém se decida!

Outra metáfora

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Minhas maçãs. Naturais, colhidas da raiz. Verdes, ácidas. Ou, então, sumarentas, graciosamente estaladiças. Três modos diferentes, todos tão deliciosos! Como adoro as minhas maçãs! Têm preço, algumas, mas não as compro com prata e ouro. Antes com lágrimas, melancolia, saudade, nostalgia. Ou com sangue. E ainda há aquelas que recolho da terra, à sombra da Macieira. Seja como for, trago-as sempre num saco de papel, daqueles que transbordam dos braços, abraçando-as com força.

Calor

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Aqueceu.Começa a cheirar a quente, um suor pegajoso, com terra e lama quente. Como odeio estes dias. No frio, o mau cheiro perde a força perante o nariz gelado, como se nos individualizasse.O frio toca-nos como mentol, frio, individualista, como se o mundo se nos cheirasse só a frio. Aquela glória dignificante do frio.Mas este calor peganhento que nos atrofia a mente, nos torna moles, é o palco dos maus cheiros e faz dançá-los pelo ar, somos todos os mesmos, o mesmo lodaçal quente.

Boas-vindas

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Que amargura de vida!
Obrigam-nos a viver esta vida porque, como dizem, "tem de ser".
Porque "precisamos de nos sacrificar", como quem? Como Cristo no espeto?

Perdoem-me, não sou cristã. Não vou em conversas dessas nem em sacrifícios assim.

Se sofro, não tem de ser como vocês mandam.

Deixai-me ser construtiva, porra!

Voltem-me com essas ideologias que vos mando a todos à merda!

Podridão de gente conformista nesta ditadura deste lodaçal, o quanto vos odeio e à vossa mesquinhez!

Já foste

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Ele olhou para o céu. Era um dia especial.

A árvore já estaria farta da sua existência. Decidiu sair.

Chegou-se mais para a ponta do ramo.

Finalmente. Era a primeira vez que ia voar.

Abriu os braços e saltou. Abanou muito as mãos.

Fechou os olhos. Sentiu o ar a bater-lhe na face e a despenteá-lo.

Um pensamento de um segundo atravessou-lhe a mente:

"Não deveria ter começado mais em baixo?"

Depressa o abandonou. Não iria falhar o seu primeiro voo.

Ouviu um grito dentro de casa. Parecia-lhe a sua mãe.

Sorriu. Teve outra hesitação, mesmo ao pé do chão.

Ia-se estatelar. Convenceu-se a um metro do chão de que conseguia.

Abriu os braços e impulsionou o corpo para a frente.

Deve ter batido num pássaro, ou assim, porque sentiu uma pancada.

Mas, depois, voou como nos sonhos se voa.

Mini-contos em 6 palavras (ou menos)

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*Ele gostava de Beatles. Eu não.
*Aos sábados, ouviamos Antena 2.
*A minha vida foi um beijo.
*Eu morri. Reincarnei como um gato.
*Separaram-se e um foi viver para Carnaxide.
*Deitou-se cedo e nunca mais acordou.
*Reformou-se velho, paralítico. "E agora?" perguntou-se.
*Ele veio viver para a cidade. Matou-se.
*Ouvia vozes. Deram-me medicamentos para esquizofrenia.
*Fui ao psiquiatra pedir um autógrafo.
*Resultado da autópsia: cancro da mama.
*A minha vida foi em vão.
*Almoçámos peixe. Engasguei-me e morri, lentamente.
*Ruínas majestosas, imponentes. Demoliram-nas. Construiram prédios.
*Declaração de expropriação: tem até amanhã.
*"Amo-te". E seguiram as suas vidas.
*Há formas melhores de se morrer.
*E nunca foram felizes para sempre.
*Ganhei fama e fortuna a escrever.
*Ele saiu e nunca mais voltou.
*E acabou terrivelmente mal, como sempre.

"Libertos das amarras do arrependimento"

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"-se morresses amanha, arrependias-te de nao teres feito algo?"

Se adoeço até pensar dói,
Não por o sofrimento provir do pensamento,
Mas porque as ligações sinápticas lá estão
E parece que acentuam a dor de cabeça.

Eu sei que não é verdade,
Que o cérebro não dói,
Mas hoje estou doente,
Mal consigo pensar
E os irrealismos podem-me sempre parecer realidade.

Hoje ainda estou doente,
Não tanto como tenho estado,
Nem conseguiria escrever;
O suficiente para magoar.

Agora, mais que sempre,
Que tantas são as vezes que penso nisto
Quase nunca com esta intensidade,
Reflito naqueles momentos desperdiçados
Com aulas, trabalhos de casa, estudos
Que me foram ocupando a vida
Sem que eu me pudesse defender.

Se eu morresse de febre
Hoje, até, quem sabe
E esta tivesse sido a minha vida
Que vida teria sido esta?

Se houvesse uma bomba no metro de Paris
Qualquer outra desgraça
Que me tirasse a vida
Ou qualquer outra capacidade
E se eu o soubesse de antemão
Que teria eu feito?

Mas chego sempre à mesma conclusão.
A de que, afinal,
Não importa quando morra
Que tem tudo sido em desperdício,
Excepto, talvez, Paris, Vigo e mais,
Que o tempo não volta atrás
Nem pára
Que não posso voltar à minha infância,
Minha juventude
Que, enfim,
A minha vida é oca
Que ma impuseram oca
Que a planeio oca
Que todos oca, oca sempre

É como se morresse um bocadinho
A cada bate do relógio
Porque não posso recuperar esse momento
E choro esse momento a cada seguinte.

E os outros dão-nos os modelos
Os pressupostos momento de felicidade
Os casares, os teres filhos, os tirares boas notas
Os seres aclamados, os tantas, mas tantas
E tantas que eu não me sinto feliz com elas.

Queria uma vida que valesse a pena
Queria ser mais que um esteriótipo, marioneta
Que faça o que faça
Não serei digna de saber qual a minha hora
Porque não será o agora pelo depois,
Para compensar o antes
Que merece ser chamado de vida humana
Mas agora pelo agora,
Simplesmente por agora,
Libertos das amarras do arrependimento
Porque o antes não interessa
E o depois está para vir.

Mas quem nos deixa ser nesta sociedade?
Lá vamos nós pela mão dos adultos,
Dos crescidos,
Dependemos deles
E são eles que nos enchem,
Como foram, outrora, enchidos
Desses momentos de desperdício,
Dos quais nunca nos libertamos.
Coitados, querem-nos fazer felizes,
Dar-nos um futuro.
Fazem-nos pensar que o objectivo é ser adulto,
Quando, mais que o agora,
O objectivo da vida é claramente a infância
E a restante vida é um mero objecto
Para dar origem a mais infância.

Quando o descobrimos é tarde de mais,
Tentamos alegrar o mundo com mais infâncias
E o mundo agradece-nos
Desperdiçando-lhes todos os momentos,
Relembrando-lhes de que têm de pensar no seu futuro.

A dor de cabeça já fraquejou um pouco.
Sabes que mais?
Não choro estes momentos que não prestei atenção
Às coisas da aula,
Que escrevi, ao invés,
Porque escrevi um bom escrito
Que valeu bem a pena de viver,
E não foram desperdiçados.
Já posso ser feliz
Se morrer agora, morro descansada.

"-isso não seria um bocado hipócrita?"

Claro embaraço

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Todos os dias a tortura

Vestir-me conforme;

Não premite mais a loucura

Que não saber como fazê-lo.

Falho na adaptação.

Mas tenho esperança

De que se representar

Talvez possa fingir sem ser

E ser sem me trair

E saber ser (fingir) socialmente.

"E mentira está em ti."

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Para Alberto Caeiro.
Em jeito de resposta minha.

"«Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?»

«Que é, vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?»

«Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram.»

«Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti.»" - Alberto Caeiro

Tal como um livro é menos vazio
Do que letras pintadas a tinta,
Também o vento me diz mais que
Ar em movimento.

"É o frio que vem!",
Diz-me o vento de Inverno
E despenteia-me, saboreio-o,
Suspiramos.

Vamos partir ambos,
Ele mais cedo e depressa que eu,
Mas um dia juntos.
Despeço-me, até para o ano.

Devaneio Inverno

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Passa o vento, em devaneio,

Esfria o mundo, gelo por dentro.

A chuva vem, mas não cai neve,

Lava o mundo de desilusões.

É Inverno mas não faz mal.

Agasalho-me, e é confortável,

Sento-me confortavelmente à lareira.

Só a pura neve branca

Teima em não cair

E assim se passa o Inverno

Com o nariz gelado.

Se eu falo (eternamente incompleto)

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[eternamente incompleto - por causa do Samuel ¬¬, e que ninguém mais se atreva a distrair-me quando escrevo]

Todos me dizerm que estou maluca
Se começo a falar sozinha.
E eu calo-me.
Porém, não me acharia íntegra
Se não ficasse a remoer
(Que fico),
Sobre quem será mais maluco
Se eu, que penso e falo para mim mesma,
Se os outros, que são ocos, quem sabe,
Ignorantes do mundo,
Atrevendo-se a não pensar.

Estreia

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Não tenho coragem para escrever nem um vocábulo
E enfrento o medo de mim própria,
Da caneta a roçar o papel,
O medo de tentar ser e assim não ser,
De tentar ser grande
E escolher o caminho à estupidez.

Por isso escondo-me de me estrear
Num mundo de pensadores
Para que não nos estraguemos,
Tanto o deles como o meu,
E para que possamos viver em conformidade,
Sem que eu me avarie.

Boa sorte (se fosse), Adriana

A Esquizófrenia é a Alma do Negócio

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[Para o Rafael]
O que é essa gente que procura Deus senão esquizofrénica? O que distingue aqueles que falam com personagens imaginárias e creem nelas daqueles que rezam, falando com Deus, e que vão à missa?
Só porque muita gente me diz que o senhor deus é real, não quer dizer que eu acredite nele.Só porque muita gente me garante que Edgar Perry não é real, não quer dizer que eu deixe de pensar assim.
Só porque são muitos, não quer dizer que tenham razão.
Ora, sou esquizofrénica e tenho todo o direito a sê-lo.

Simples

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A explicação psicológica para os meus escritos resumem-se nos seguintes propósitos (É assim): O meu cérebro transmitiu, para o meu organismo, informação para se movimentar (Eu fui), num momento em que o Sol, lá tão alto, iluminava tantos seres e lhes dava vida (um dia), para, na verdade, eu me cingir às funções realizadas pela zona frontal (ao mercado) e encontrar-me para que pudesse trazer ao papel (comprar) inspiração para mais um (meio quilo de maçãs). E assim se resume a minha simples mentalidade, regateando e perdendo.

Os Insectos são Deus

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[Para o Samuel]
O corpo inicia a sua decomposição. O banquete começa. As moscas põem os seus ovos. As pupas eclodem e vão para Sul. Sudeste e Sudoeste, por vezes, mas nunca para Norte. Os Insectos são Deus porque recebem o corpo com o seu banquete divino. Os Insectos são Deus porque fazem da morte vida e prosperam. Os Insectos fazem tudo e vão a todo o lado. Os Insectos viveram desde sempre e para sempre. Os Insectos estão em todo o lado e sobrevivem em todo o lado. Os Insectos sabem tudo porque compreendem o que realmente importa: viver aquilo para que somos feitos.

História de uma folha

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[Para a Giselda]
Uma árvore criou, um dia, uma folha e várias irmãs.
Durante a Primavera, manteve-se verdinha, como as irmãs.
Chegado o Outono, ela e as irmãs mudaram de cor e prepararam-se. Prepararam-se para cair. Prepararam-se para lutar.
Quando os primeiros ventos se ergueram, a folha resiste. Depois apareceram as geadas e a folha não aguenta mais e cai. A folha começa uma nova aventura, num mundo desconhecido, fora dos ramos da mãe árvore.
O vento passa e a folha, que mais poderia fazer?!, deixa-se levar, varrida pelo sopro que atravessa as ruas.
O vento acalma e pousa a folha, no jardim.
Então, aparece o varredor que apanha a folha e deita-a fora.
Qual quê? É uma folha que, por mais insignificante que possa parecer, já tem experiências, já tem uma história. É uma folha que ultrapassa o seu valor. É uma folha que se deixa viver.
[V2,E2,O5ºI,SMS,FP]

Ainda me lembro.

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[Para o Francisco P.]
Já passaram 3ooo anos. A infância já se foi, o que foi?, mas é a única que me lembro. Era um riso eterno por uma palhaçada. Uma brincadeira, por tudo e por nada, de qualquer maneira. E uma tristeza rapidamente esquecida, pois nenhuma é importante. Agora crescemos. Tanto que mudou em 3ooo anos! Mas ainda nos rimos por menos de nada. Agora, és um extraterrestre marítimo cuja espécie comunica através do riso. Longe e o que importa? Ora, esquece lá isso! Dá cá um abraço e até à vista. Até daqui a 3ooo anos.

Manifesto Outono

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Sentada e melancólica. É como o vejo. As árvores perderam o monótono uniforme. O verde tornou-se verde, amarelo, laranja, vermelho, castanho, roxo. O todo tornou-se na parte. E o vento, macio e rebelde, abraça as folhas e deixa que a gravidade as pouse no chão. E o caminho enche-se dessa camada, desse tapete colorido, num quadro mais belo que qualquer cidade. Depois das chuvas lavandeiras, vem o manto branco e fresco que anuncia um bom Inverno.
Assim se vai Novembro.

A Verdadeira Conspiração (ou Esperança)

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[Dedicado a Edgar Perry]

Tentamos. Começamos por nos parecer com eles. Procuramos. Encontramos o seu controlo: filmes, livros, TV. Avançamos. Começamos, aos poucos, a introduzir coisas novas. Modificamos. E as mentes vão mudando, inconscientemente. Infringimos. Determinamos o que é fixe em função dos nossos interesses. Prevalecemos. Somos grandes e invejam-nos. Reinamos. Nascem novos seres com linhas de pensamento. Dominamos. Cultura mudade. Sociedade desestupidificada.

A verdadeia inspiração (Corrigida)

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[Também não foi a minha ideia inicial, mas sempre está mais próxima.]

Cagai no mundo, nas mentes e nas pestes.

Desprezai os vazios, os que quizerdes e os outros.

Escutai aqules, os que não vos abandonaram.

Mas principalmente falai alto e grande. Pois sois vós que realmente importais aos vossos olhos.

Reflecti neste conselho para vós.

A verdadeia inspiração (Conselho)

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[A verdadeira inspiração veio quando não podia escrever e, quando pude, foi-se. Por isso este não é a minha primeira inspiração, nem a dor fingida.]
Cagai nas vestes, no aspecto. Desprezai essa gente que se preocupa com isso. Escutai o outro, quando é correcto. Confrontai aquele que quer ser submisso. Acabai com aquele que quer dominar. Preincipalmente, falai com alma e persuasão, convencidos de que tendes razão, para as multidões que hão-de chegar.
Para que vos preocupais com o mundo, com os pensamentos do mundo, com as opiniões do mundo?
Libertai-vos do mundo, e sereis felizes.

Desensaio sobre a morte

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Não quero falar sobre o fim,
Vou ter depois muito tempo para o matar.
Mas surge uma dúvida em mim:
"Como será acabar?".
E não respondo, por agora,
Não é nisto que desperdiço o meu tempo.
Mas reflito, pela vida fora,
Desperdiço um bom momento,
Só na dúvida do que demora,
Do destino de toda a gente.
O meu cérebro há-de perecer
Sem que descubra o meu eu
E, sem que eu descubra o meu ser,
Para os outros, só mais um morreu.

Para quem servir

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Eu não te quero estragar com o mundo. Pena quereres fazê-lo sozinho. Nunca poderei falar contigo, nem perguntar "será que viver vale a pena?"
.Não poderemos ter pena dos ignorantes felizes nem invejar a sorte dos loucos. Não. Estragado com o mundo, serás como os outros, um triste de um feliz estúpido. Viverás como se nunca fosses morrer, morrerás como se nunca tivesses vivido. Sem pensar. E eu, para já, vou continuar sozinha, comigo e com o espelho, a pensar...

O que eu queria agora era...

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[Para a Ângela]
Eu fui um dia ao mercado comprar meio quilo de maçãs. Entrei no mercado e era tanta a algazarra que não encontro a tenda das maçãs.
O Mercado cheira a maçãs.As maçãs sabem a algazarra. A mercado.
No mercado, encontro a tenda das maças e compro meio quilo. De maçãs. E, com meio quilo de maçãs no saco, saio do mercado. Já não volto hoje ao mercado, fui naquele dia comprar maçãs. Mas...
Roubo a última maçã do saco. Vou ao mercado comprar mais.

[o3.12.2oo8 - o:35 - finalmente descobri o que são as maçãs... custou mas chegou]

ATÉ ATINGIR A PERFEIÇÃO

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Parados. Ocos. Nada Mais.

Vazios. Repetidos. Que mais?
Pois.

Nem aqui. Nem além. Nada!

Nada! Só... O que me falta?
...
Caminhar à perfeição, desejoso já finito, visão poética que não estagna, que repara, nunca dogmática à perfeição.

Noite sem Lua

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Noite sem Lua.
Um cometa flutua.

Paro, um pouco, à beria-mar,
E deixo-me, por enquanto, levar
Por um discurso
Que nada me diz
E, enfim, escapo por um triz
A uma mentira com garras de urso.

Volto para casa à Meia-Lua,
Perdão, à Meia-Noite
E caio em mim.
Enfim.
Não saí.
Quem és tu?

Imaginação.
É de dia, ainda.

Ensaio

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O arco salta alegremente de corda em corda. Para cima, para baixo, depressa, mais depressa!

E os dedos deixam-se levar pelo ritmo, formando a mais espantosa melodia.

O ser já não é ser, é uma máquina impulsionada pelo ramo musical da arte.

Não há consciência, não há vontade própria.

Só um transe.

E uma melodia fantástica de Vivaldi, Mozart ou Bizet.

O meu Sonho caiu

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O meu sonho caiu à beira-mar, num dia de chuva. Ele caiu e eu aborreci-me. Não sonho mais à beira-mar, porque não há mais que sonhar quando se existe no sonho.

Aborreço-me.

Aborreço-me, porque, sem sonho, mesmo estando num, não há esperança, e, sem esperança, a vida é só vida, vida oca.

Porque, sem sonho, não há loucura naturalmente chocante.

Que aborrecido que é estar agora à beira-mar!

os vencidos II

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O inimigo não foi vencido e pretende continuar. Para nós, mais uma batalha perdida, tão grande a guerra para travar.
Um inimigo que subsiste através de gerações.
Um inimigo tão difícil de pôr travões.
E apesar de lutarmos por nós, sinto-me a fraquejar.
Já não sei, já não posso, não consigo continuar.
Quem somos nós?
Somos os pensadores, os poetas
os pintores, os atletas
os escritores, sem limites, sem metas
quem procura a fuga à decadência
num mundo
onde cada vez menos
se pode viver
sem se ser
outro
sem se fingir
não ser
quem é
quem sou?
já nem sei.
já não sei se vale a pena.

os vencidos

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(Nota: ler com Sonata ao Luar de Beethoven)

deixa-me morrer um

bocadinho. só um

bocadinho. só por

morrer. deixa-me

alguém a substituir.

uma marioneta, não faz

mal, é só para imitar.

ninguém dá pela

diferença.que me importa morrer? só

com o que cá ficar. por

isso põe um fantoche

no meu lugar. não

precisa de falar (eu não

falo), não precisa de sentir (eu finjo que não

sinto), não precisa de

saber (eu não sei se sei).

para eu parar. para que

eu morra sem medo do

que vou deixar.Sucesso é quando eu faço o que sempre fiz, só que todos percebem.

Gosto de mim

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Um certo mal que me faz
Perdendo este tempo que não sei de quem é
Sem sentido, sem rumo, sem orientações

Mas se à felicidade não sei se a quero
Ou talvez como a alcançar
Tudo me envia rumo ao desespero

E triste e desorientada
Arquitecto trampolins na estrada
Como quem gosta de voar

Um dado ópio que me atravessa as veias
As traqueias, um leve fumo
Penso e descanso
Pois o futuro há-de chegar




E um ridículo sempre ajuda
Um apetitoso rasgo de demência
Tiquetaqueando pela casa fora

Num hospício de insanidade mental
Prevejo que o meu ser deveria estar
Mas um ponto me impede

Nada me impede de ir pelo abismo
Excepto o quê? Eu ou os outros?
Morte certa de quem é louco
A loucura é um dom que tende a invejar

Marcho pelo fumo adentro
Já fiz quatro tercetos e três quadras
Sem rimas nem métrica, não-poesia
Sou eu, sou eu, viva! =D

Quem és tu?

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Vamos estar aqui com os pés bem assentes na Terra. Vamos estar aqui com cabeça, tronco e membros.

Está bem, então. O meu corpo vai ficar na cadeira até ao toque da campainha. Entretanto, porém, vou matá-lo por algum tempo.

Vou deixar o meu bem mais antigo nesta sala, oco, desprovido de vida, e vou-me iluminar bem longe, onde não há nuvens, nem cores, nem estrelas, nem pássaros, nem flores, nem glândulas endócrinas, nem Deus, nem louvados, nem abençoados, nem circo, nem vida, nem morte. Só eu.

Muito para além da filosofia, da psicologia, a verdade única. Cá, compreendo como funciona toda a matéria, cada mecanismo, cada lei, mas que me importa, agora, a matéria? Cá, desprovida de hormonas, estou desprovida de sentimentos. A matéria comporta-se de um modo tão simples d'entender. Mas, mas cá, sou só uma consciência. Não há corpo, pensamento, não há vapor, não há escuro. Não há, simplesmente.

E, uma vez cá, para quê voltar à aulinha? À vida?

Não vou revelar o único segredo que acho devido guardar. O motivo para que o meu corpo seja animado por uma espécie d'alma. Não o vou revelar.

Mas houve um motivo. E por esse mesmo motivo, tenho de voltar.

Através do conhecimento adquirido lá, que desde sempre conheci, reanimo o sistema nervoso. Foi como que um sonho que durou tempo nenhum. Para as outras pessoas, o meu corpo apenas piscou os olhos. Pessoas que não se apercebem do extraordinário milagre do corpo que, perante eles, ressuscitou.

Um único ser soube. Um de pensamentos e impulsos. O software que ajuda a animar o meu corpo. Ego. Ela tenta imaginar a minha viagem, imaginando um fantasma a sair do corpo que partilhamos, a voar, até às estrelas. Mas duas palavras bastam para descrever o lá: não há.´

E tu, Ego, imaginas luzes d'iluminação, campos verdejantes, um sorriso. Falta-te imaginação, Ego. A espécie humana tem lapsos d'imaginação.

Possui grande criatividade, sim, mas falta imaginação.

Eu sou o nada, Ego. Sou o vazio na tua vida que não compreendes. Sou nem um arroto d'ar da tua lata de refrigerante. Sou o nem. E, no entanto, sou tudo.

Por que não?

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Por um momento, gostava de saber, para além de quem sou, que tipo de inteligência criativa tem o ser humano. Olho à minha volta e não compreendo. Talvez seja da idade, à qual tantos se prendem, que ainda não me permitiu amadurecer o suficiente para que eu perceba, enfim, coisas de adultos. Coisas de adultos. Não compreendes porque és muito nova. Achas que era bonito as pessoas andarem por aí aos saltos cada vez que lhes apetecesse, Diana? Achas que era bonito fazermos todos figura de palhaços?
Acho.

Acho muito bonito. Saltar à chuva, enquanto caminho na rua. Saltar de uma casa para a outra mal pondo os pés no chão. Achas que isso são comportamentos de uma pessoa séria, Diana? Pois isso não acho. Mas acho extremamente bonito. Mamã, por que não há trampolins nas ruas para saltarmos de vez em quando? Por amor de Deus, Diana, isso não são conversas de uma menina crescidinha!
Eu só queria um pouco de liberdade. Mas quando falo dela, enchem-me os ouvidos com "no meu tempo é que não havia liberdade" ou "se tivesses vivido antes do 25 de Abril, não dizias esses disparates" e tantas histórias do 25 de Abril...
Foi bonito, o 25 de Abril. Foi um pouco mais de liberdade. Mas o mundo evolui. Por que despreza o ser humano a sua criatividade?Por que não aproveitamos a liberdade que nos foi dada para a usufruirmos totalmente?
Acabou a conversa, Diana. Os trampolins nas ruas não são bonitos e ponto final.
Mas eu vejo-te, mamã, a chegares a casa, todos os dias, tão cansada...
tão triste...
Não será pela falta de coisas bonitas?

Os grandes e superiores

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O senso comum... grande diferença entre o povo e os filósofos. Oh, sim, a Filosofia questiona, a Filosofia reflecte, a Filosofia é grande!Que profunda é a Filosofia! Que iluminados são os Filósofos!Que acéfalos!"Temos cabeça é para pensar" - e lá vão eles, balançando o seu cu de escola em escola, sempre tão inteligentes, tão superiores!Mas eu vejo-os... será que só eu os vejo?... vejo-os a viverem a mesma vida que o senso comum. A adaptarem-se à vida que lhes mandam viver ou, então, abominam a mudança e tornam-se "conservadores". Tal como o povo. Só eu imagino e crio trampolins nas ruas e vou de sala em sala por trapézios e deixo que chova num quarto e tenho aulas ao ar livre... e caminho à perfeição... à reversibilidade... à verdade instintiva, sem problemas. A maior beleza de uma teoria não é, com certeza, ser refutável."Nós pensamos mais. Nós pensamos melhor." Eu crio. Eu invento mundos. Eu descubro verdades.

Só hoje, um mimo de nervos em franja

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Pressão, hoje depois de sair. Com problrmas a pesar mais que a gravidade, como poderia sentir-me leve como ontem? A gravidade é relativa e eu estou nervosa, pregada ao chão. Não vos consigo ver nem ouvir, porque hoje fiquei nervosa e caio e choro, triste Diana. Não há chave que não a mimnha e agora, outra vez, fiquei nervosa e o que faço agora para aliviar? Inspiro e expiro e o meu corpo fecha-me cá dentro e eu não posso sair e ele só pode escrever, mas não o que eu quero, não obras-primas, só lixo, lixo, lixo. Lixo e nervos.

Eu quero

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Eu quero
Escrever
Escrever
Sempre que me apetecer
Escrever
Escrever
Até não mais poder
Escrever
Escrever
Fazer uma pausa para ler
Escrever
Escrever
Mesmo sem nada acontecer
Escrevinhar
Rabiscar
Errar
Riscar
Até a aula acabar
Escrever
Escrever
Rebentar co'a escala
Escrever
Escrever
Com HERROS
Sem eles
Sem 20 a Português
Escrever
Escrever
Q'é o que me faz viver
Assim
Feliz
Escrever
Eu quero

De uma avó para a outra

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Também tu morreste
Avozinha
Diz-me, para onde foste?
Aquela debaixo da terra já não és tu
Avozinha
É só um corpo de ossos
Que eu ofereço flores
E eu quero saber
Onde estás a morrer
Avozinha
Que a viver não te vejo
Como podes ter desaparecido
Avozinha?
E as tuas histórias
E a tua mãe
E a tua irmã
E o teu filho
E só eu fiquei
E a minha mãe
E a mãe dela
Que tu
BisAvozinha
Desapareceste
Dos olhos daquela que recebe as minhas flores
E todas as noites me pergunto
Onde estás tu,
Avozinha?

Do mundo que me deixam

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Que somos nós a geração futura. Que a nós nos cabe decidir. É o que vocês dizem de nós. E, consequentemente, vai ser em nós que vão depositar os vossos problemas, os vossos erros. Em mim, no meu irmão, nos nossos amigos e em toda a nossa geração. Para que os responsáveis sejamos nós e não o pobre e velho moribundo que hás-de ser. Cá estão as consequências das tuas acções. E "Já não vou estar vivo quando isso acontecer.", mas vou estar eu. Não quero saber se um dia vais morrer, porque é por tua culpa que eu vou ter de aguentar o que aí vem. Não sei nem faço ideia do que vou herdar, mas quando isso chegar... é algo que vai acontecer, sabes? Ou não sabes? Mas sou eu que vou ficar mal, sou eu que vou ficar num mundo sem solução. E que mais hei-de fazer? Porque és tu, que não te preocupas comigo nem com o meu irmão, só contigo, tu é que tens de mudar o mundo primeiro. Porque não vês o que fazes aos teus semelhantes, podias ser tu!

Agora eu, primogénita, estou sozinha. Não, estou contigo, meu irmão, vamos fazer o quê com o legado dos nossos pais? De braço dado, pelo único caminho que nos deixaram, vamos nós para o abismo, caminhando, um passo à frente. Olha para isto! Daqui do alto do abismo, olha para o mundo escuro que nos deixaram... Diz-me, agora, o que fazemos? De braço dado, para o fim do mundo, eu contigo, só nós dois... E a neve, lá em baixo, é a única visão bela do fundo do abismo. Senta-te aqui, ao meu lado, a contemplar o fim do mundo.

Chanson du Vent

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Uma massa de ar sobe, desce, leva tudo à sua frente. Sobe, desce e sibila por entre o espanta-espíritos, como que a chamar alguém... V’là l’bon vent... O Vent du Nord, vento da coragem, traz os meses do Inverno, traz o frio, o gelo, traz o cheiro a florestas e sabor a hortelã. O Vent du Sud, vento d’amargura, traz os meses de Verão, traz o calor, as tempestades de areia, traz o cheiro a baunilha e sabor de chocolate-pimenta. V’là l’joli vent... tocam os timbales e as charamelas e as campainhas tilintam. É o vento a sonhar com quem ele quer... chama-o, chama-o, assobia nas casas, tilintam os espanta-espíritos. Arranha o cabelo e voam capuzes. V’là l’bon vent... As folhas batem-me e faço as malas para o mundo à minha frente. Ma mie m’appelle, mon vent m’appelle.

Amargura

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Uma mancha que, por mais que a queiram ignorar, há-de destroçar-me, até desaparecer.

Num canto funesto dos meus sonhos, lá está ela. Oiço-a a soluçar, a suplicar, a pedir ajuda, e a sua dor torna-se na minha dor, os gritos não desaparecem e vêm comigo de casa para a escola para casa. Basta-me piscar os olhos, para ver a sua imagem, aquela menina, bem mais nova do que eu, atirada para o chão, como um trapo. Sei que foi vendida, pela família, por pouco mais de um euro, a um desses bordéis de onde ela nunca vai conseguir escapar. Sei, porque estes não são sonhos comuns, aparentam ser clarividências, visões, rasgos de revelação do que vai no mundo. A raiva, a dor, a angústia latejam, apertadas, no meu peito, e quem sou eu para sorrir perante a desgraça da pobre Radha? A crueldade de que alguém é capaz contra uma criança atormenta o meu coração. Subitamente, uma sombra abate-se, imensa e escura, naquele lugar de sofrimento, e a menina cala-se. Ela sabe e eu também sei quem é: a mulher gorda, dona do bordel. Traz mais um dos clientes, um porco javardo imundo asqueroso que não merece sequer tocar em Radha. Para a velha gorda, porém, as prioridades avaliam-se pelo dinheiro que lhe oferecem pela pequena. Com que dinheiro se compra a dignidade de uma menina? O homem usa e abusa dela, ela nada diz, mas pensa, com dor, pesar, angústia, tristeza, medo e raiva e as lágrimas, que não pode confessar, sou eu que as choro, como se uma força maior que eu me ajudasse a sobreviver a tanto mal... pois eu tenho de a chorar. É o único apoio que consigo transmitir. Se ela pudesse, ao menos, saber que, no mundo, alguém chora por ela...
A toda a hora, vejo aquela imagem, aquele vídeo. Nunca, nem por um segundo, me esqueço de Radha, da dor de Radha, comigo, aqui, tão confortável, e Radha, lá longe, na longínqua Índia. Vejo-a cada vez mais ao longe, mas, à volta dela, estão todas as meninas com menos de 18 anos, ilegais, daquele bordel, todas aquelas Radhas, presas, contra sua vontade, à volta da que eu conheço. E esta fica ainda mais longe e eu vejo, primeiro, todas as meninas de todos os bordéis da longínqua Índia, depois, todas as indianas menores que são forçadas a ser prostitutas, mesmo nos sítios mais horríveis. O grupo é inimaginável, a figura não desaparece dos meus olhos, mais abertos que nunca; já não tenho voz e não sei que força é essa que não me deixa morrer por toda a desgraça deste mundo. Mas o grupo cresce, ainda há mais, muito mais, para chocar o meu frágil coraçãozinho de lebre. Vejo todas as crianças que, na Índia, são exploradas, violadas, traficadas, vendidas, negociadas, escravizadas das mais brutais maneiras, e sofro violentamente. Claro que há mais, esta visão não pode ficar na Índia... Então, todos os meninos e todas as meninas de todo o mundo que de qualquer forma sofrem, que das mais variadas maneiras vêem os seus direitos violados emergem aos meus olhos. Vejo a guerra, a fome, a pobreza, a exploração, a destruição, a injustiça, mas vejo sem ver, porque, apesar de o ver, nada vejo, pois a verdade, o seu tormento, o seu medo, a sua fome, a sua angústia, só eles podem saber, não eu, um ser imbecil que nada sabe. Perante eles, só vejo que os meus caprichos são arrogantes e que a racionalidade do ser humano, de que tantos se orgulham, é a causa maior deste pesadelo.

Espaço em branco

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Folhas e folhas
Inúmeras páginas
Que nunca hão-de ser escritas
Folhas quase intactas
Saltam do caderno para o lixo
Sem a ponta do meu lápis
Sem criatividade
Sem significado
Sem poesia
Folhas que, com certeza, não são minhas
Q' eu não sei brincar co'as rimas
Mas escrevo o que me apetecer
Folhas brancas, em branco, vazias
Tão brancas
Tanto espaço para eu escrever!
E, assim, peço às minhas colegas:
-Dás-me as tuas folhas?

O dia bom

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Branco. Branco fresco, hortelã-pimenta. O chão, os pinheiros, o céu... Saio toda de branco, mas descalça, porque não há-de tardar até que os meus pés fiquem brancos. Só os meus lábios contrastam. O meu sorriso vermelho de tanto o morder por um vermelho mais vivo. Beijo a neve, vermelha do meu sangue. Rebolo encosta abaixo, deixando o meu sangue escorrer, num momento bom e limpo que parece ter durado o dia todo. Porque até já está a escurecer.